Num post anterior eu disse que
escreveria mais sobre a declaração: “em termos de conteúdo, o barthianismo tem
pouca coisa em comum com a ortodoxia histórica da Igreja”. Quando me refiro à
ortodoxia histórica, quero dizer as crenças clássicas do Cristianismo
histórico, inicialmente confessadas no Credo Apostólico e posteriormente
desenvolvidas na produção literária dos reformadores e nas grandes confissões
reformadas. Delas, quero destacar a doutrina das Escrituras. Penso que é aqui
que reside a maior diferença entre a neo-ortodoxia e a antiga ortodoxia.
O que
confunde muitas pessoas é o fato que os neo-ortodoxos falam entusiasticamente
da Bíblia, da Palavra de Deus, que ele nos fala hoje através das Escrituras e
que devemos obedecer à sua voz. O que poderia ser mais ortodoxo? O problema, todavia,
é que a neo-ortodoxia usa termos, expressões e linguagem ortodoxos, quando se
refere à Bíblia, mas lhes dá um sentido diferente. “A voz é de Jacó, porém as
mãos são de Esaú” (Genesis 27.22). Há pelo menos três pontos da doutrina da
Escritura em que a neo-ortodoxia se afasta da ortodoxia. Sei que não é sempre
possível falar da neo-ortodoxia como se fosse um movimento unificado e
monolítico. Assim, aqui nesse post falarei de maneira genérica, tomando de vez
em quando as idéias de Karl Barth como representativas.
1. A
neo-ortodoxia conservou a crítica bíblica destrutiva do liberalismo teológico.
O
liberalismo, na época do surgimento da neo-ortodoxia, havia reduzido a Bíblia a
um livro de religião comum, cheio de erros e contradições de toda sorte, onde encontramos
apenas o registro da fé dos israelitas e da fé da Igreja cristã primitiva. Os
neo-ortodoxos se levantaram contra a aridez e o ceticismo do liberalismo
porque, ao final, ele não nos deixava mais ouvir a voz de Deus através da
Bíblia. Para a neo-ortodoxia em geral, o erro dos liberais não foi empregar a
crítica bíblica para mostrar que a Escritura está cheia de erros e
contradições, mas de pensar que isso era um empecilho para que Deus nos falasse
hoje. O maior de todos os milagres é exatamente que Deus nos fala através das
palavras imperfeitas, erradas, imprecisas e equivocadas desse livro. A
neo-ortodoxia, portanto, desejava manter a relevância da Bíblia sem descartar
as afirmações dos liberais, que o Pentateuco era uma edição mal-feita de fontes
escritas no período do exílio, que o relato de Gênesis 1-3 era mítico, que os
Evangelhos Sinóticos tinham erros, que não havia nada de histórico no Evangelho
de João, que Paulo não escreveu a maioria das cartas com seu nome e assim por
diante.
Aqui a
neo-ortodoxia se afastou da ortodoxia, que apesar de analisar a Bíblia como
literatura, não negava sua autenticidade, integridade, historicidade e a
veracidade de seus relatos. Enquanto que para a ortodoxia a Bíblia é infalível,
a neo-ortodoxia mantém a posição crítica do liberalismo, que a Bíblia está
cheia de erros e contradições. A neo-ortodoxia vai mais além do liberalismo em
dizer paradoxalmente que, apesar disso, Deus fala infalivelmente através desse
livro às pessoas de hoje.
2. A
neo-ortodoxia faz a separação entre Palavra de Deus e Escritura.
Na
verdade, essa separação antecede a neo-ortodoxia, que a tomou emprestada de um
dos apóstolos do liberalismo, J. Solomo Semler, (1725-1791): “A raiz de todos
os males (na teologia) é usar os termos ‘Palavra de Deus’ e ‘Escritura’ como se
fossem idênticos”. Para Barth, por exemplo, a Bíblia é uma testemunha da
Palavra de Deus, Jesus Cristo, e não deve ser confundida com essa Palavra.
Todos conhecem o slogan neo-ortodoxo, que a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas
que se torna a Palavra de Deus quando este, soberanamente, usa-a para
nos falar. Sem esse momento milagroso, é um livro qualquer (embora, para sermos
honestos, Barth ao final de sua vida, estava mais disposto a admitir que, mesmo
na estante, a Bíblia era a Palavra de Deus). Como testemunha da revelação ou da
Palavra, a Bíblia não é infalível e muito menos inerrante. Ela é o registro
humano da reação de fé que as pessoas tiveram diante da revelação de Deus,
Cristo. Os autores bíblicos não foram inspirados conforme diz a ortodoxia, ou
seja, suas palavras não foram ditadas mecanicamente por Deus (alguns
neo-ortodoxos gostam de caricaturizar a doutrina reformada da inspiração
plenária e transformá-la na teoria do ditado). Para os neo-ortodoxos, a
inspiração reside naquele encontro contemporâneo entre o leitor e Cristo, a
verdadeira Palavra de Deus, nas páginas da Bíblia. Portanto, a Bíblia não é
inspirada, mas é instrumento para que essa inspiração aconteça.
É claro
que esse conceito, advindo do liberalismo do qual Barth nunca se livrou
totalmente, não pode ser considerado como ortodoxo. Na ortodoxia, a Bíblia é a
Palavra de Deus, dada por inspiração divina, que consistiu na atuação soberana
do Espírito de Deus em seus autores humanos, usando o seu conhecimento, a formação,
o estilo, e de tal maneira orientando-os que o resultado final, em qualquer
momento, pode com justiça ser chamado de a Palavra infalível e plenamente
confiável de Deus.
3. A
neo-ortodoxia considera irrelevante para a fé a veracidade dos relatos bíblicos.
A maneira
que a neo-ortodoxia seguiu para resgatar a fé cristã dos resultados destrutivos
da crítica bíblica do liberalismo não foi enfrentá-los e mostrar as suas
incoerências, e nem mesmo que eram viciados pelos pressupostos racionalistas.
Os neo-ortodoxos aceitaram pacificamente que a Bíblia não nos dá relatos
verdadeiramente históricos, fatos ocorridos na história linear. Contudo,
afirmaram que aquilo não tinha qualquer relevância para a fé cristã. A fé não
depende da história. O Cristianismo permanece relevante independentemente da
historicidade ou não da criação, da queda e da ressurreição. Como ilustração,
menciono o comentário de Karl Barth em Romanos 1.4, “e foi designado Filho
de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos
mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor”, Barth diz:
Esta designação de Jesus [como
Filho de Deus pela ressurreição dos mortos] é o seu verdadeiro significado e
como tal não pode ser verificado historicamente. Jesus, como o Cristo, o
Messias, é o final dos tempos. Ele só pode ser entendido como paradoxo, como
vencedor, como pré-história... Do ponto de vista histórico, Cristo só pode ser
entendido como problema, mito; ele traz o universo do Pai, do qual nada
conhecemos, nem podemos vir a conhecer, através da história.
Aqui
Barth declara que a história não pode transmitir o mundo de Deus. Num futuro
post de Solano Portela, ele vai falar mais claramente sobre a distinção feita
pelos neo-ortodoxos entre historie (história, fatos brutos) e heilsgeschichte
(história santa, ou história salvífica). Adiantando um pouco o conteúdo, essa
distinção cria dois mundos distintos e não conectados, o mundo da história
bruta, real, factível e o mundo da fé, da história da salvação. Coisas como a
criação, Adão, a queda, os milagres, a ressurreição, todas elas pertencem à heilsgeschichte
e não à historie, a história real e bruta. Aos cristãos não interessa o
que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas sim a
declaração dos discípulos de Jesus que ele ressuscitou.
Dessa
forma, neo-ortodoxos falam da criação, da queda, da ressurreição, mas o que
eles querem dizer com isso é bastante diferente da ortodoxia. Os neo-ortodoxos
atacaram duramente a busca liberal pelo Jesus histórico, não porque acreditassem
que esse Jesus já estava retratado nas páginas dos Evangelhos, mas porque essa
busca era irrelevante para a fé. Para eles, o que nos interessa não é o Jesus
da história (qualquer que tenha sido), mas o Cristo da fé, que é o Cristo que
encontramos nas páginas do Novo Testamento.
Não acho
que perdi meu tempo ao criticar liberais em posts anteriores, mesmo que o
liberalismo teológico clássico, como movimento, já passou na Europa e nos
Estados Unidos. O velho liberalismo ressuscita na historie, transformado
em neo-ortodoxia. Neo-ortodoxos identificam-se com orgulho como seguidores do
afável e simpaticíssimo Karl Barth, cuja teologia consideram inteligente,
reformada e certamente ortodoxa. Não há o que duvidar que é inteligente.
Reformada... pode-se discutir. Mas, certamente, ortodoxa, não.
Postado
por Augustus Nicodemus Lopes
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