DESAFIOS À HERMENÊUTICA ANTROPOLÓGICA DAS ESCRITURAS
Sabemos
que hoje convivemos em nossa igreja com duas linhas de interpretação das
Sagradas Escrituras. Uma linha, considerada a mais antiga, e a que vem há
séculos conduzindo a vida e o governo da igreja, consiste numa abordagem
sistemática de interpretação sendo formulada pelos estudiosos que entendem que
a Bíblia interpreta a si mesma. Uma outra linha de pensamento teológico diz
respeito à interpretação das Escrituras à luz do contexto social atual. Para
essa corrente de pensamento é o contexto vivencial atual que lançará luz sobre
a compreensão do texto das Sagradas Escrituras. A essa linha de pensamento
chamarei de hermenêutica antropológica, ou seja a Bíblia sendo interpretada à
luz do fenômeno humano atual.
Um
dos desafios para nós, se caso aderirmos à hermenêutica antropológica é
conseguirmos conviver com os padrões de Westminster sem ferir a ética
ministerial. Como dizer para a igreja que já não somos mais fiéis aos nossos
votos do passado, quando na ordenação prometemos ensinar e zelar aquela
doutrina? Como conduzir à igreja para um entendimento de que aquelas antigas
verdades cridas já não possuem tanta credibilidade na modernidade? É possível
desencaminharmos a igreja de suas confissões doutrinárias e ainda assim nos
portarmos de maneira ética?
Estamos
nós aderindo a este tipo de interpretação porque, de maneira exaustiva,
chegamos a um entendimento teológico da beneficência deste método para a igreja
de Cristo, ou porque estamos simplesmente, de maneira superficial e impensada,
acompanhando o mais moderno desfile de moda teológica? Com que estamos
preocupados afinal: em melhorar a igreja de Cristo por percebermos nela falhas,
ou simplesmente porque nos causa repulsa os padrões de Westminster? Ou porque
queremos alimentar o nosso ego e sermos diferentes de todos?
Na
concepção da hermenêutica antropológica a ministração dos sacramentos por
outras pessoas que não sejam "clerigos" e a ordenação feminina, por
exemplo, são dois desafios modernos àquela antiga hermenêutica de Westminster.
Isto não é razoável quando se constata que a ministração dos sacramentos por
pessoas não ordenadas ao ministério pastoral é um tema que desde o século XVII
tem tentado ganhar espaço nas igrejas reformadas, mas com insucesso. Wilhelmus
à Brakel (1635-1711) e A A. Hodge (1823-1886) refutavam já naquela época os
mesmos argumentos que são levantados hoje pelas novas correntes de hermenêutica
bíblica. É necessário lembrar que desde a reforma, grupos dissidentes adotaram
a doutrina da ministração da ceia por leigos, como até hoje existem os
"irmãos de Plymouth" nos Estados Unidos. Na verdade, nem os
argumentos do passado, nem os do presente são persuasivos para tal prática,
tendo em vista que a igreja entende que o caminho mais ético para a ministração
dos sacramentos é o modelo de Westminster.
Quanto
à ordenação feminina ao ministério pastoral, o que a hermenêutica antropológica
tem considerado como uma questão de vida ou morte para a eclesiologia
reformada, tem se apresentado realmente como algo inédito na vida da igreja
hodierna. Isto é explicado pelo simples fato de em toda a história da igreja
cristã, o cristianismo jamais ter convivido com mulheres exercendo ofício
pastoral. É evidente que este assunto é considerado hoje como um desafio para a
igreja, não pelo fato de termos descoberto uma nova verdade bíblica sobre o
assunto, nem tampouco por encontrarmos uma necessidade gritante na vida da
Igreja, mas com certeza por estarmos sendo fortemente influenciados pelas
correntes secularistas da nossa época.
É
coerente afirmar que devemos buscar a ordenação de mulheres por causa da
escassez de homens nas igrejas? Como explicaríamos então que este argumento não
procede quando aplicado a todas as denominações evangélicas? Parece que essa
escassez do sexo masculino não é um problema da igreja, mas de algumas igrejas.
O argumento não será válido se apenas for efetivo em alguns casos isolados. O
problema de ausência de homens nas igrejas deve resolver-se com a
intensificação da evangelização do sexo masculino e não com a ordenação de
mulheres. Não seria isso uma medida muito cômoda para se resolver um problema
de igrejas que não crescem? A não ser que a igreja esteja inserida em cidades
onde não existam mais homens.
Seria
coerente argumentar-se, que pelo fato das mulheres, já há tanto tempo, estarem
fazendo parte dos serviços sagrados no templo, deveriam ser consagradas e
ordenadas aos seus ofícios, os quais elas já desempenham a tanto tempo? Se este
argumento fosse de fato viável, deveríamos perguntar por que então a igreja
apostólica não ordenou tantas mulheres que tiveram papeis tão importantes nas
igrejas daquela ápoca. O que quero dizer é que ao longo da história da igreja
as mulheres sempre trabalharam e desempenharam funções vitais à vida igreja,
sem contudo serem desafiadas a reivindicarem nome, título ou glórias para si
mesmas. Deveríamos entender, por este argumento, que pelo fato de qualquer
pessoa ensinar ou liderar na igreja tal função lhe daria direito de ser
ordenado pastor.
Quando
essa questão é levantada hoje em dia, ela tem sido muito mais alimentada pelas
reivindicações feitas pelos movimentos dos direitos da mulher do que mesmo pela
necessidade da própria igreja, necessidade essa que até agora não tem sido
demonstrada como um desafio gritante do século vinte. Isto foi claramente
anunciado pela mídia neste mês de Março, quando muitos jornais, revistas e
programas de rádio e televisão mostraram que a mulher conquistou seus direitos
iguais aos homens até mesmo na área religiosa, havendo agora muitas bispas e
pastoras no seio da igreja. Ao meu ver, o tema é desafio enquanto quer fazer a
igreja acompanhar a filosofia moderna, mas não enquanto se apresenta como
necessidade vital da igreja. Parece-me que é a questão do nivelamento dos
direitos do sexo feminino que está muito mais em jogo nesta proposta
hermenêutica do que o interesse pela Igreja de Cristo.
Alega-se
que a igreja tem errado em não ordená-las, enquanto permite que ensinem, quando
deveria ser fiel ao texto bíblico não permitindo nenhuma forma de liderança por
parte das mulheres na igreja. A maior desafio a esta hermenêutica é perguntar
se de fato estaríamos nós interessados em apontar uma falha na eclesiologia
reformada na tentativa de corrigi-la e incentiva-la a não errar mais ou se de
fato nosso interesse é encontrar uma brecha nessa eclesiologia para abrirmos
uma brecha ainda maior. A verdade é que os que levantam essa questão não estão
tão interessados em dizer que a igreja errou e que deva voltar ao princípio de "Sola
Scriptura", mas querem com isso, justificando o erro como o curso nomal da
igreja ao longo da história, incentivá-la a continuar no erro e ainda ir mais
além. Ora, se eles consideram que a eclesiologia reformada está muito distante
de "sola scriptura" por causa deste erro, por que então não
reconduzem-na para Sola Scriptura? Mas o que acontece é exatamente o contrário:
aproveitam-se de um chamado "erro teológico da eclesiologia
reformada"(permitir que as mulheres exerçam cargos), e em cima deste erro buscam
fundamento para outro erro(ordenação feminina). Em poucas palavras, o que eles
sugerem é: "já erramos até agora; é impossível consertar o erro a esta
altura da atual conjuntura; então vamos "canonizá-lo" como um
princípio válido para dirigir a vida da igreja." Além do mais, não é
coerente à hermenêutica antropológica fazer qualquer proposta no caminho do
princípio de "sola scriptura", ou até mesmo querer apontar críticas
em cima de falhas em observar tal princípio, pois o caminho para o qual ela
aponta é exatamente o oposto de "sola scriptura".
Afirmar
que a igreja poderá ser norteada por princípios sociais e antropológicos, a
partir das necessidades e desafios de cada época da história, é o mesmo que
dizer que, com o passar do tempo, as verdades bíblicas darão lugar a outras
verdades trazidas pela história do fenômeno humano. Com isso abre-se um
precedente muito perigoso: o social atual interpretando o revelacional antigo.
Não é novidade que este seja um dos princípios hermenêuticos da Teologia da Libertação
e de muitas outras correntes teológicas liberais. Mas a grande dificuldade com
esta hermenêutica antropológica é o fato de tais hermeneutas não terem mais um
aferidor de suas próprias interpretações sociais. Se é a história que
determinará o curso da vida da igreja, somente a realidade histórica vivencial
é que fará o aferimento. Mas com isso surge um outro grande problema: cada
sociedade vive uma realidade diferente. Não se pode afirmar que todas as
sociedades têm a mesma compreensão da realidade. Isto significa que, seguindo o
curso natural da história para interpretar a Bíblia, cada sociedade terá uma
interpretação, e cada intrepretação para uma determinada época, pois a história
fará com que essas intrepretações se tornem ultrapassadas em algum ponto de sua
progressão.
Além
de cada sociedade com uma hermenêutica social, e a cada geração uma nova
hermenêutica, ainda nos resta levantar outro problema: quem será capaz de
delimitar até onde este procedimento hermenêutico pode ir? Ninguém! Pois é a história
quem determinará isso. Ninguém será capaz de apontar um só texto das Escrituras
para garantir que não será superado. Quem pode garantir que empregando tal
hermenêutica não venhamos a matar, roubar e adulterar em nome de Deus? Mas é
exatamente ao que chegaremos. Se a história determina o curso e ela mesmo cria
situações em que a Bíblia é impraticável, logo praticaremos aquilo que o social
nos diz que é conveniente e necessário. Em suma, esse tipo de hermenêutica
conduzirá a igreja para um subjetivismo tão descontrolado que não haverá mais
nenhum paradigma estável da verdade, pois cada um desses paradigmas terá vida
curta, a qual será determinada pelo contexto social trazido pela história. À
cada desafio novo a igreja terá que repensar seus antigos paradigmas e formular
outros que atendam a necessidade social do momento. Então, onde chegaremos
afinal?
Se
quisermos abraçar realmente, de maneira ética e espiritualmente, uma
hermenêutica antropológica das Escrituras, não deveríamos estar em nenhuma
forma de liderança ou mesmo sendo membros de qualquer igreja confessional, pois
não estaríamos sendo sinceros nem conosco mesmos (por causa do batismo ou da
ordenação), nem com Deus( por causa da nossa profissão e confissão), nem
tampouco com Seu povo (por causa da pregação e do ensino).
Enfim,
a hermenêutica antropológica não consiste em nenhum desafio para a igreja do
século XX, tendo em vista que questões como essas sempre caminharam ao lado a
da igreja desde há muito tempo em sua história. Além do mais, ela não se
apresenta com argumentos persuasivos e satisfatórios para uma grande parte de
eruditos reformados comprometidos com "sola scriptura".
Certamente
que encontraremos uma grande virtude da hermenêutica antropológica, pois ela
nos faz enxergar falhas, e até insiste em nos desafiar a pensarmos melhor, mas
seu grande mal é fracassar em levar-nos de volta para as Escrituras.
BIBLIOGRAFIA
1.CLARCK, Gordon H.,
THREE TYPES OF RELIGIOUS PHOLOSOFY, Trinity Foundation
2.BAZARRA,
Carlos, O QUE É A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, Edições Paulinas
3.HORDERN,
William, TEOLOGIA PROTESTANTE AO ALCANCE DE TODOS, Juerp
4.HODGE, A. A., THE
CONFESSION OF FAITH, The Banner of Truth
5.à BRAKEL,
Wilhelmus, THE CHRISTIAN'S REASONABLE SERVICE, Soli Deo Glória
Rev. Moisés C. Bezerril
professor de Novo Testamento do
Seminário Presbiteriano do Norte
professor de Novo Testamento do
Seminário Presbiteriano do Norte
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