terça-feira, 19 de novembro de 2013

O CALVINISMO HEDONISTA DE JOHN PIPER



Time Magazine não foi o primeiro grande órgão da Mídia americana a dar atenção ao Novo Calvinismo (veja artigo anterior). Antes dela, em janeiro de 2009, o New York Times publicou uma reportagem de quatro páginas sobre o pastor calvinista Mark Driscoll que usa camiseta e calça jeans, que tem uma língua ferina, e que atrai todo tipo de pessoas esquisitas para seus cultos, mas que prega o velho calvinismo da depravação total e da eleição incondicional (http://www.nytimes.com/2009/01/11/magazine/11punk-t.html?_r=1&pagewanted=all). O New York Times chamou a atenção para o fato de que esse calvinismo está se tornando muito influente nos Estados Unidos. O fenômeno se deve principalmente por causa da Internet através de blogs reformados pululando e obtendo adeptos.


Time Magazine citou três autores de renome nos Estados Unidos: John Piper de Minneapolis, Mark Driscoll de Seattle e Albert Mohler do Southern Theological Seminary. O Blog “Between Two Worlds” também foi citado como um dos sites religiosos mais acessados. Nesse post faremos uma breve avaliação da teologia de Piper e no próximo faremos o mesmo com Driscoll.



Uma visita ao site de John Piper é suficiente para perceber que o Calvinismo stricto sensu se faz presente de modo inequívoco, inclusive com uma subscrição aos chamados cinco pontos do Calvinismo (http://www.desiringgod.org/ResourceLibrary/Articles/ByDate/1985/1487_What_We_Believe_About_the_Five_Points_of_Calvinism/), e até mesmo a crença na dupla predestinação, mas há uma aplicação da teologia à serviço da espiritualidade. A teologia de Piper pode ser resumida como “hedonismo cristão” que é a teoria de que o ser humano é mais feliz quanto mais prazer ele sentir em Deus. Segundo Mark Shaw, “o cristão hedonista não procura fazer do prazer o seu Deus, mas fazer de Deus seu maior prazer e tesouro” (2004, p. 109). Piper escreveu um livro sobre jejum onde ele justifica a prática como um ato de deixar todas as outras coisas de lado, para desfrutar puramente da presença de Deus. Ele escreveu em termos que quase poderiam ser atribuídos a algum monge ascético medieval:



“O maior inimigo da fome por Deus não é o veneno, mas a torta de maçã. Não é o banquete dos perversos que enfastia o nosso apetite pelo céu, mas o infindável beliscar à mesa do mundo. Não é a obscenidade do vídeo, mas os chuviscos da trivialidade do horário nobre que nós sorvemos todas as noites. Pois todo o mal que Satanás pode fazer, quando Deus descreve o que nos impede de banquetear à mesa do seu amor, é um pedaço de terra, uma junta de bois e uma esposa (Lc 14.18-20). O maior adversário do amor de Deus não são seus inimigos, mas suas dádivas. E os apetites mais mortais não são pelo veneno do mal, mas pelos simples prazeres da terra. Pois quando esses substituem o apetite por Deus, a idolatria é dificilmente identificável e quase incurável” (2006, p. 16).



A grande declaração de Piper comum a quase todos os seus livros e sermões é: “Deus é mais exaltado em nossas vidas, quanto mais nos satisfazemos nEle” (s.d., p. 01). Segundo Piper não há incoerência entre a busca humana por felicidade e prazer e o desejo divino de ser glorificado. Ele diz: “Esta é uma ótima notícia, porque significa que nosso anseio em nos satisfazermos e o propósito de Deus em ser glorificado não estão em desacordo” (s.d., p. 02). A teologia Reformada de Piper, entretanto, desponta em meio a tudo isso, pois ele declara: “A procura da satisfação em Deus não é autopromocional; é algo que nos humilha à condição de pobres miseráveis e exalta Deus como o todo-suficiente” (s.d., p. 02). Assim, a vida será para a glória de Deus ao buscar satisfação nele (Ver s.d., p. 02), pois “o poder transformador da fé está precisamente no triunfo do prazer verdadeiro sobre os prazeres passageiros do pecado” (s.d., p. 07).



A proposta de Piper procura se mostrar dentro da linha reformada pelo seu empenho em interpretar a resposta clássica da primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster: “Qual é o fim supremo e principal do homem?” Resposta: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo plena e eternamente”. Piper diz que mudando apenas uma letra dessa resposta obtemos o sentido pleno dela. Ele diz que o “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus AO gozá-lo plena e eternamente” (2001, p. 10).



O principal trabalho de Piper sobre esse assunto é um livro chamado “Teologia da Alegria”. Nesse livro ele expõe magistralmente sua teologia reformada hedonista. O termo “hedonista” assusta, pois geralmente é associado com o hedonismo filosófico que se preocupa apenas com o prazer não importando o meio de alcançá-lo. A palavra “hedone” no grego quer dizer “prazer”. No caso de Piper, ele faz questão de explicar que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Por hedonismo cristão, Piper está defendendo a idéia de que os cristãos devem buscar o prazer em Deus e não nas coisas, e que essa busca do prazer em Deus é a grande vocação do cristão e é o que mais glorifica a Deus. Piper faz questão de esclarecer de início:



“O prazer cristão, no sentido com que eu uso o termo, não quer dizer que Deus se torna um meio de ajudar-nos a conseguir prazeres mundanos. O prazer que o cristão busca é o que está no próprio Deus. Ele é o fim da nossa busca, não o meio para algum outro fim. Nossa grande alegria é ele, o Senhor – não as ruas de ouro, ou a reunião com parentes ou qualquer outra bênção do céu. O prazer cristão não reduz Deus a uma chave que abre um baú cheio de prata e ouro. Antes, ele busca transformar o coração de tal modo que ‘o Todo-poderoso será o teu ouro e a tua prata escolhida (Jó 22.25)” (2001, p. 14).



Questionado por teólogos reformados se isso não seria uma distorção da teologia reformada, Piper responde que está absolutamente em conformidade com ela. Ele cita um teólogo chamado Richard Mouw que o acusou de alterar a primeira resposta no Catecismo de Westminster e que disse que ele não poderia fazer o mesmo com o Catecismo de Heidelberg. Em resposta, Piper diz que o catecismo de Heildelberg do início ao fim evoca o prazer e a alegria que o crente deve sentir no Senhor e que é seu único consolo na vida e na morte (2001, p. 15-17). Piper conclui:



“por isso o prazer cristão não distorce os catecismos reformados. Tanto o Catecismo de Westminster como o de Heidelberg começam com a preocupação com o prazer do ser humano em Deus, ou sua busca por ‘viver e morrer feliz’. Não tenho qualquer desejo de inventar novidades doutrinárias. Estou contente por ter sido o Catecismo de Heidelberg escrito quatrocentos anos atrás” (2001, p. 16).



Talvez isso explique em parte o novo vigor do calvinismo nos Estados Unidos. Após séculos em que muitos teólogos apenas reproduziram a teologia antiga, homens como Piper estão ousando em desenvolver e aplicar essa teologia sem, contudo, perder o referencial histórico reformado.



Em sua opinião, a mensagem de Piper é realmente reformada? Qual é seu grande mérito?


BIBLIOGRAFIA

SHAW, Mark. Lições de Mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

PIPER, John. Fome por Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

PIPER, John. Teologia da alegria: a plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd Publicações, 2001.

PIPER, John. Plena satisfação em Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, [s.d.].



Categorias: Calvinismo



11 comentários para “ CALVINISMO HEDONISTA ”

30 Mar 2009 às 12:33:03
editar1Renata Melo

Rev. Leandro,



Acredito que só há prazer real, verdadeiro e absoluto em Deus.

Não é verdade que Ele nos criou para glorifica-lo e louva-lo sempre? e se isso não fosse feito com prazer, deixaríamos a condição de filhos amados para escravos e nós somos livres em Cristo e adoramos a Deus por amor e por que isso é bom.

Pelo que entendi a mensagem de Piper é sim reformada e seu mérito e justamente a convicção de que só em Deus encontramos gozo, alegria, paz e prazer total.



Abraço,

Renata



30 Mar 2009 às 21:31:22
editar2Nuno Pinheiro

Caro Pr. Leandro,



Começarei por dizer que tenho reservas fortíssimas com tudo o que cheira a carismaticismo, sejam de que clube forem.



Li que Driscoll caracteriza-se primeiramente como cristão, depois como evangélico, depois como missionário e por último como reformado. Creio que pelas suas próprias palavras deveríamos caracterizá-lo.



De facto não conheço nenhum calvinista pelos cinco pontos, pois não creio que os cinco pontos tenham sido destacados para caracterizar a posição dogmática nem teológica de alguém nem de nenhuma igreja. Os cinco pontos são uma afirmação localizada e cirúrgica na igreja do século 17 para evitar o colapso em que estamos hoje!



Mas a questão é sobre Piper… Este não anda de jeans, mas não são as roupas do homem que o caracterizam. Este Piper não tem apenas 4,5 pontos mas afirma ser um crente nos 5 pontos de uma resposta da igreja a uns hereges arminianos.



A contemporaneadade dos dons já tentou várias vezes penetrar na igreja de forma a reclamar o resto do tão pouco que sobra da fé genuína cristã, e agora vem na pele de um tal de neo-calvinismo. Um novo calvinismo mais apresentável, mais relevante, mais moldável, porém menos e muito menos antitético.~



~Como ex-neo-pentecostal posso dizer que ninguém dessa linha refutaria que dons requerem sempre e unicamente a operação de Deus.



Calvino escreveu nas Institutas severamente contra os dons extraórdinários e miraculosos. Qualquer reformado da época ractifica isso e outras doutrinas que não se encontram cobertas pelos 5 pontos.



A questão é simples para entendermos se Piper ou Driscoll são reformados, pois sendo eles ministros do evangelho, a pergunta correcta seria:



- São eles Reformadores?



Um abraço cheio de respeito.

Nuno



30 Mar 2009 às 21:39:20
editar3Nuno Pinheiro

Pr. Leandro,



Desculpe mas esqueci-me de falar sobre o prazer em Deus. Creio que está fora de questão esse assunto.



Devemos glorificar a Deus e gozá-lo para sempre! Contudo certos de muita aflição, perseguição, isolamento, incompreensão, calúnia, etc.



A vida antitética do crente neste mundo é irrefutável - Bunyan escreve bem esta verdade no “O Peregrino”.



Abraços.



30 Mar 2009 às 22:35:40
editar4Pr Leandro

Olá Renata

Obrigado pela visita.

De fato, a Bíblia nos manda servir ao Senhor com alegria e nos alegrarmos nele.

Fique com Deus

Pr Leandro



30 Mar 2009 às 22:45:45
editar5Pr Leandro

Olá Nuno

Obrigado pela sua visita.

Creio que você tem uma boa posição de defesa da fé reformada e uma preocupação autêntica contra os exageros cometidos por muitos supostamente espirituais. O caso do Driscoll eu pretendo tratar no próximo post, mas creio que não podemos caracterizar a posição reformada como exclusivamente cessacionista. Há muitos reformados defendendo a continuação dos dons espirituais. No caso de Piper, percebemos uma preocupação com a espiritualidade e com a alegria do cristão. É claro que isso não elimina as dificuldades da vida, mas como a Bíblia diz que o cristão deve se alegrar sempre no Senhor, então é sempre.

Abraços

Pr Leandro



01 Abr 2009 às 01:17:16
editar6Daniel Pacheco

Reverendo,

Creio que a mensagem de Piper é sim Reformada, mas entendo que ela assusta muitos teólogos reformados tradicionais principalmente por causa da palavra “Hedonismo”.

Com certeza o prazer e a alegria do cristão devem estar em Deus,e mesmo passando por dificuldades e tribulações devemos buscar este prazer nEle e somente nEle.



Abraço

DP



01 Abr 2009 às 17:13:13
editar7Jessé Botaro

Caro Pastor Leandro:



Conheço muito pouco para avaliar assunto tão complexo como “Hedonismo Cristão” de uma verdadeira autoridade do mundo cristão atual como “John Piper” e outros…

Fico apenas preocupado em não avançar absolutamente nada mais do que nos permite a palavra de Deus.

Exageros sempre foram preocupantes e o modernismo que vem sempre com muita força deve ser analisado com muita cautela.

Gostaria de ouvir mais sobre o assunto, e apenas como sugestão, uma palestra para a igreja ou um grupo interessado, acho que seria de muito proveito.



Um forte abraço.



05 Abr 2009 às 22:43:58
editar8Edinaldo Fernandes Almeida

Olá Rev. Leandro graça e paz!



Como é bom saber que nossa teologia reformada tem nesses últmos dias despertando não apenas o interesse mas, acima de tudo mexendo com nossas reflexões.

Creio que todos os autores acima citados “John Piper, Mark Driskoll e Albert Mohler” estão conseguindo mostrar que a teologia reformada pode sim, ser contextualizada sem ser adulterada e superficial. Como é bom saber que a mensagem das doutrinas da graça de Deus, que foram tão fundamentais na reforma protestante pode ser aplicada a uma sociedade Pós-Moderna.

lamentavelmente como disse o Rev. Hernandes Dias Lopes, “ficamos muito preocupados de não irmos além das Escrituras, mas não temos a mesma preocupação de ficar aquém das Escrituras”.

“Soli Deo Glória”.



08 Abr 2009 às 19:53:10
editar9Pr Leandro

Olá Edinaldo

Obrigado pela visita. Concordo com você e também com a citação do Hernandes.

Abraços

Leandro



07 Jul 2009 às 17:17:01
editar10Alzenizio Moreira Souza

Olá, Pr. Leandro.

Eu acredito que a teologia de John Piper é providencial - e o bom, é que é reformada: “sola fide, sola gratia, solo Cristo, sola Scriptura, soli Deo glória”.

O mérito do Pr. Piper é que ele conseguiu o equilíbrio teológico, sem se deixar influenciar pela herética teologia da prosperidade; equilíbrio necesssário para a igreja proclamar a salvação por meio do evangelho a esta geração pós-moderna.



Um grande abraço.



17 Nov 2009 às 23:48:15
editar11Pr. Alan Sérgio Rocha Ruas

A sociedade chamada pós-moderna vive em função da falta de objetividade epistemológica, e isto, tem gerado uma biodiversidade em campos denominados “UNOS”. Segundo Borges-Andrades podemos apresentar o comprometimento afetivo que é aquele associado à idéia de lealdade, desejo de contribuir, sentimento de orgulho em permanecer em uma determinada organização. Conquanto, o mais assustador em nossos dias são as filosofias que se cruzam, que se batem travando verdadeiras “brigas inconsciêntes” em cognições que estão + para ervas daninhas “alá Schopenhauer” do que para Viktor Emil Frankl. Schopenhauer com toda a sua filosofia “pintou um quadro negro da existência humana cuja única realidade positiva era a dor, diferentemente Viktor Emil Frankl isolado e “pisoteado” por nazistas ufanistas em campos de concentração tentou “pintar um quadro de soluções” para a raça humana. A logoterapia - busca por um sentido existêncial. Ambos tentaram, ora um negativo-pessímista, ora outro cheio de boas intenções, mas na real ambos frustrados partiram desta existência para uma inexistência única com realidades distindas, dor ou alegria experimentaram e experimentarão definitivamente. Ufa!Graças, mil graças por mentes como a de John Piper” e outros… Calvinismo Hedonista, logoterapia crsitã “que é a teoria de que o ser humano é mais feliz quanto mais prazer ele sentir em Deus'’ ou hedonismo cristão, sei lá, mas sei que devemos cristianizar a nossa existência … Existência Teocêntrica, Cristocêntrica.

Modus vivendi em cristo está o prazer maior.

Amém … Sola gratia.


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