PREDESTINAÇÃO - UMA
ARGUMENTAÇÃO BÍBLICA
INTRODUÇÃO:
De repente estourou, outra vez, a antiga polêmica sobre a predestinação.
Segundo esta doutrina, enfatizada pelo grande reformador João Calvino, Deus,
por Sua soberania, escolhe uns para a salvação e outros para a perdição. Esta
doutrina foi adotada também pelos Batistas Particulares, da Inglaterra. Eis
porque muitos Batistas, principalmente nos Estados Unidos, mesmo que
veladamente, são predestinistas.
Meu propósito nesta oportunidade, não é entrar
num estudo comparativo da matéria, nem buscar seus fundamentos históricos.
Quero tornar-me bem prático e partir para uma argumentação com base na Bíblia,
da maneira mais simples possível.
Também não é minha intenção ferir a sensibilidade
de irmãos de denominações tradicionais que adotam esta doutrina e que não andam
por aí discutindo o assunto. Pelo contrário, abordo o assunto porque alguns dos
modernos pregadores que buscam certos temas para fabricar popularidade, acabam
confundindo o povo de Deus.
Para facilitar o desenvolvimento do assunto,
quero basear-me em sete declarações, com base na Palavra de Deus, que elaboro
na forma de enunciados.
Primeiro enunciado: Deus oferece salvação indistintamente a todas as pessoas
Duas passagens bíblicas são fundamentais neste
sentido. A primeira é de Tito 2.11-14,
que começa assim: "Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação
a todos os homens...". Com esta passagem, corrobora 1 Timóteo 2.3-6, que diz que Deus deseja que todos os homens sejam
salvos.
O raciocínio para analisar este enunciado é o
seguinte: Quantas pessoas Deus quer salvar? A quantas pessoas Deus trouxe
salvação? A resposta é que Deus trouxe salvação a todos os homens. Se é a
todos, não pode ser a um grupo de privilegiados.
Segundo enunciado: A salvação oferecida pela fé, indica livre escolha
Vamos recorrer a três textos bíblicos
fundamentais para esta idéia. O primeiro está em João 3.16,18, que todos aqueles que estão familiarizados com a
Bíblia, conhecem. Ele diz que a Salvação é dada a todo aquele que crê. O que
não crê, escolhe a condenação. Na primeira
epístola a Timóteo, 1.15, encontramos a declaração de que Cristo veio
salvar os pecadores. Ora, se em Rom.
3.23, a Bíblia diz que todos pecaram, logo a salvação é para todos os que
se julgarem pecadores, como Paulo o faz, dizendo-se o principal deles. A
célebre passagem de Efésios 2.7-9
reafirma esta fundamentação, dizendo que somos salvos pela graça, mediante a
fé.
O raciocínio lógico aqui é: Quantos não
perecerão? Resposta: todos aqueles que crerem. Quantos pecadores Cristo veio
salvar? Todos aqueles que se julgarem como tais, como Paulo. E, finalmente: a
salvação pela graça, mediante a fé, pode indicar escolha arbitrária de Deus,
pois em João 3.16 se declara que Ele amou o mundo. A graça que atinge o mundo
todo, poderia deixar alguém sem oportunidade? Parece que não.
Terceiro enunciado: O perdão de pecados oferecido ao mundo em geral elimina uma seleção
Comecemos pela primeira epístola de João, o apóstolo do amor, capítulo 2, versos 1 e 2. Aqui ele trata do pecado do crente, num
primeiro estágio e do pecado do mundo em geral, num segundo estágio. E ele
afirma, inspirado pelo Espírito Santo, que Jesus Cristo é a propiciação pelos
pecados de todo o mundo.
Em Romanos 3.21-26, onde Paulo vai dizer que "todos
pecaram", ele começa, no entanto, dizendo (v. 22) que a justiça de Deus
pela fé em Jesus Cristo é para todos os que crêem, porque não há distinção,
pois todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus.
Ora, o raciocínio do escritor inspirado pelo
Espírito Santo é que, se todos pecaram e se todos estão destituídos da glória
de Deus, todos precisam de oportunidade de salvação, que é a justiça de Deus
pela fé em Jesus cristo (Rom. 3.21-23).
Outra vez, formulamos nosso raciocínio: segundo o
texto da carta de João, quantos podem ter seus pecados perdoados? Reposta: todo
o mundo. E de acordo com o 2o. texto, em que todos pecaram, quantos podem ser
justificados gratuitamente? Será que há limitação?
Quarto enunciado: Segundo a Bíblia, os homens serão julgados pelas suas obras
Comecemos com João 5.28,29. Aqui o apóstolo do
amor cita Jesus, que diz que vem a hora em que os que estão nos sepulcros
ouvirão a sua voz. E os que tiverem feito o bem sairão para a ressurreição da
vida e os que tiveram praticado o mal, para a ressurreição do juízo. Em Mateus 16.27, Jesus diz que o filho do
homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos e então retribuirá a
cada um segundo as suas obras. Em Atos
10.34,35 temos uma interessante declaração do apóstolo Pedro, falando cheio
do Espírito Santo, em que assim se expressa: "... na verdade reconheço que
Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em
qualquer nação, o teme e pratica o que é justo".
Com a mesma idéia corrobora a epístola de Paulo
aos Romanos, capítulo 2, versos de 6 a
11, em que o apóstolo começa dizendo que Deus retribuirá a cada um segundo
as suas obras.
O raciocínio aqui é: Se é pelo que fizeram de bom
e o que fizeram de mau, então não é por uma seleção soberana de Deus. E é interessante
notar que "obra" nos textos indicados pode perfeitamente significar
"crer e viver segundo os frutos do Espírito" (João 3.16-21; Salmo
5.16 e segts).
Quinto enunciado: Deus não faz acepção de pessoas
O extraordinário encontro de Pedro com a família
de Cornélio, registrado em Atos 10, já
nos mostra, no verso 35, que Deus não faz acepção de pessoas. Em Efésios 6.9, falando do relacionamento
entre servos e senhores, repete o mesmo princípio. E em Romanos 2.11, falando de judeus e gregos, Paulo, outra vez evoca o
mesmo princípio.
Ora, o raciocínio aqui é muito simples: Se Deus
não faz acepção de pessoas, porque escolheria uns para salvação e outros para a
perdição? Os predestinistas explicam que este é um ato da soberania de Deus e
que não podemos questionar. Sim, o fato não deveria ser questionado, se não
houvesse tais princípios tão claros. E sabemos que a Bíblia não pode se
contradizer, muito menos Deus.
Sexto enunciado: Deus é absolutamente justo
"Não fará justiça o juiz de toda a
terra?" (Gen. 18.25b). É assim
que Abraão argumenta com Deus, no caso de Sodoma e Gomorra. E Deus respondeu
que faria justiça.
Ser justo é dar a cada um o que lhe é devido. Na
verdade, uma vez que o ser humano era livre e caiu por iniciativa própria, Deus
não lhe devia nada. Mas a Bíblia diz que Deus amou o mundo. E por isso lhe deu
o Seu filho unigênito e amado. Assim, porque todos pecaram, o ideal de justiça
de Deus exige que Ele ofereça salvação a todos as pessoas. E é isto mesmo que
está na argumentação do apóstolo Paulo, em Romanos 3.21-17, passagens que já
examinamos anteriormente neste trabalho.
O raciocínio aqui não pode ser outro: Se todos
pecaram e se Cristo morreu para salvar o pecador, como pode a justiça de Deus
escolher uns, e outros não? Aí não haverá justiça.
Sétimo enunciado: A predestinação está condicionada à presciência de Deus.
As dificuldades em entender a predestinação podem
ser sanadas com a argumentação da presciência de Deus. E há algumas passagens
bíblicas muito claras sobre o assunto.
Inicialmente, há duas passagens de muito valor.
São elas: 1 Pedro 2.9-10; 2 Ped. 1.10-12.
Elas falam de eleição, que é a mesma coisa. Mas as passagens mais fortes são:
Rom. 8.29, Ef. 1.4-13, 1 Ped. 1.1-2.
A passagem de Romanos mostra claramente que a eleição ou predestinação é feita
na base de um conhecimento prévio: "os que dantes conheceu". Isto
quer dizer: presciência de Deus. Esta passagem serve para ajudar a interpretar
o capítulo seguinte, o 9 de Romanos, que parece favorecer a predestinação.
Aliás, não se deve perder de vista o fato de que Paulo ali está falando dos
judeus.
A propósito de Rom. 8.29, o Dr. Russel Norman Chaplin, em seu comentário: "O
Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo" (Mileniun
Distribuidora Cultural Ltda, São Paulo), obra muito usada pelos pregadores
brasileiros, exagera, data venia, em dizer que o "conhecimento
prévio" aqui significa: "conhecimento amoroso ou preocupação
familiaridade com os entes amados, isto é, aqueles que seriam amados por
Deus" (Vol. 3,p. 72b). De fato, o termo grego aqui é bem forte, mas não
nos dá elementos para tanto.
Quando comenta 1 Ped. 1.2, que fala claramente de
presciência, o autor acima citado usa a mesma idéia exagerada. Não duvidamos
que está idéia também esteja implícita nos textos em exame, mas não podemos
fugir à realidade de que, quem conhece uma pessoa, sabe mais sobre ela, além de
simplesmente amá-la. É muito razoável entendermos que Deus nos conheceu, ficou
sabendo que haveríamos de crer em Cristo para a salvação, e na base de tudo
isso, Ele nos amou e nos preordenou ou predestinou. Portanto, esta passagem de 1 Ped. 1.2, é muito esclarecedora.
Afinal, presciência é presciência.
Diante, portanto, de alguns textos difíceis, como
Rom. 9, temos que deixar o ensino
geral das Escrituras prevalecer. E o que prevalece é que Deus tem, sim, um povo
escolhido, mas que foi marcado pelo poder que Ele, Deus, tem de ver quem vai
crer e quem vai rejeitar. A esses, Deus marca e denomina escolhidos Seus. Daí
são eleitos desde a fundação do mundo porque vão crer, e, como Paulo diz em 2 Tim. 2.19, "Deus conhece os que
são seus".
Um exemplo que pode nos ajudar. Hoje, com a
ficção científica, apareceram alguns filmes sobre viajantes do tempo. Um deles
põe uma dupla de rapazes inteligentes, que vivem no fim do século vinte,
viajando pelo tempo. Em certo episódio, a dupla é jogada no ano de 1945. Como
eles estudaram história e sabem o que aconteceu na segunda guerra mundial,
poderão adiantar aos que estão vivendo naquele tempo, tudo quanto lhes vai
acontecer. Para o povo daquele tempo, os dois forasteiros são profetas, porque
sabem tudo quanto vai acontecer. Ocorre, no entanto, que eles foram jogados ali
de uma data futura e tinham, por isso mesmo, conhecimento da história. Ora, se
a imaginação do homem pode elaborar um procedimento desses, que é apenas
ficção, imaginem como Deus pode saber de tudo o que está na história de cada um
de nós, tanto no passado, como no presente e no futuro, como se tudo fosse um
eterno presente.
É nesse sentido que somos predestinados e eleitos.
Não por uma escolha arbitrária, mas porque Deus chamou a todos, mas nem todos
quiseram aceitar a Sua chamada. E se não for assim, teremos que admitir que
todo o chamamento da Bíblia a todo o pecador é mera representação teatral
porque, no final de tudo, Deus escolherá uns e rejeitará outros.
Aliás, na seqüência de Romanos 9, e dentro do
mesmo tema, Paulo, depois de dizer, no capítulo 10.13, que "todo aquele que invocar o nome do Senhor será
salvo", complementa: "Mas nem todos obedecem o evangelho; pois Isaías
diz: Senhor, quem creu na nossa pregação?" (10.16). Por que não obedecem?
Porque não querem.
Portanto, diante da clareza do ensino geral da
Bíblia, preferimos ficar com o entendimento de que somos predestinados e
eleitos segundo a presciência de Deus, como diz 1 Pedro 1.2.
CONCLUSÕES:
Ser predestinista não altera a condição daqueles
que são crentes. A única coisa que poderia acontecer seria um desestímulo na
evangelização.
Segundo os enunciados que elaboramos, com base em
textos bíblicos claros, não há razão para confusão nesta área. No entanto,
respeitamos o direito que cada pessoa tem de ter suas doutrinas, e esperamos
que, por causa de doutrina, ninguém perca a oportunidade de salvação.
Não podemos nos esquecer, no entanto, que Deus
dotou o ser humano de livre arbítrio. E notamos, em toda a Bíblia, que Deus faz
questão de respeitar este princípio. Entender que Deus, por Sua soberania,
simplesmente escolhe uns para salvação e outros para a perdição, é querer ver
ferido o princípio do livre arbítrio.
Para mim, a grande maravilha deste assunto, é que
Deus me viu antes e me marcou e me preordenou para a vida eterna. Por isso, Ele
me ama e derrama sobre mim suas maravilhosas misericórdias. E esse processo é
irreversível. Ninguém jamais perde esta bênção da salvação.
O nosso grande desafio, portanto, é chamar o
mundo todo para a Salvação em Cristo, porque "... a graça de Deus se
manifestou, trazendo salvação a todos os homens" (Tito 2.11). E o mundo só
não alcançará a salvação se não quiser responder ao chamamento do amor de Deus
(João 3.16,18).
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