terça-feira, 12 de novembro de 2013

Predestinação e Eleição


Predestinação e Eleição:


Duas doutrinas odiadas pelas seitas
e quase esquecidas pela Igreja


"E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou." (Romanos 8:30)
Alexandre Galante
A doutrinas da predestinação e da eleição, formuladas na história da igreja cristã por teólogos como Agostinho de Hipona (354-430) e João Calvino (1509-1564), têm sido causa constante de acirrados debates e controvérsias, porque muitos cristãos não estão dispostos a aceitá-las.
O monge britânico Pelágio (360-420) e João Wesley no século XVIII são dois exemplos daqueles que não davam valor a tal ensino. Pelágio defendia a idéia de que a predestinação para a salvação ou condenação funda-se na presciência de Deus. Ele não admitia uma predestinação absoluta, mas sim uma predestinação condicional. Da mesma forma, a Igreja Católica Romana e a maioria das seitas pseudo-cristãs também condenam essas doutrinas.
Jacobus Arminius (1560-1609), ministro e teólogo reformado holandês que deu surgimento ao sistema de interpretação conhecido como "Arminianismo" defendeu a tese de que Deus anteviu os que aceitariam a Cristo e então os elegeu para a vida eterna. Armínio pregava que, apesar da Queda no Éden, o homem ainda conserva o livre-arbítrio que lhe permite aceitar ou rejeitar livremente a oferta de salvação de Deus.
O que diz a Bíblia?
O fundamento da doutrina da predestinação é a doutrina bíblica de Deus. Ele é o Eterno, acima e além do tempo e do espaço, porque nunca houve um tempo quando Ele não existia, de modo que Ele não está sujeito a mudanças de tempo e de lugar (Ml 3:6; Rm 1:20-21; Dt 33:27; Is 57:15). Além disso, Deus é soberano sobre todas as coisas como o Criador, o Sustentador e o Governante do universo. Ele é soberano sobre tudo (Dn 4:34-35; Is 45:1; Rm 9:17; Ef 1:11). Deus é também soberanamente justo, de modo que tudo quanto Ele faz está de acordo com a perfeição da Sua natureza (Jr 23:6; 33:16; Rm 1:17; 10:3; 2 Pe 1:1). Na eternidade, Ele estabeleceu Seu próprio plano e propósito soberano, e isso está totalmente acima de qualquer coisa que o homem pode cogitar, imaginar ou compreender. O homem, portanto, pode conhecer o plano de Deus somente à medida que Ele o revela (Jr 23:18; Dt 29:29; Sl 33:11; Is 46:10; 55:7; Hb 6:17).
A doutrina da predestinação refere-se primeiramente ao fato de que o Deus Trino e Uno preordena (ou predestina) de modo soberano tudo o que virá a acontecer na história (Ef 1.11, 22; Sl 2).
Nas Escrituras não há um só termo, em grego ou hebraico, que abranja todo o sentido do termo "predestinação". No AT, várias palavras indicam o plano e propósito divinos: esâ ("aconselhar", Jr 49:20; 50:45; Mq 4:12); ya’as ("ter o propósito", Is 14:24, 26-27; 19:12; 23:9); e bahar ("escolher", Nm 6:5, 7; Dt 4:37; 10:15; Is 41:8; Ez 20:5).
No NT há ainda mais palavras que tem o significado de "predestinar" (proorizo, Rm 8:29-30; Ef 1:5, 11), "eleito" (eklektos, Mt 24:22; Rm 8:33; Cl 3:12) e "escolher" (haireomai, 2 Ts 2:13; eklego, 1 Co 1:27; Ef 1:4).
O ensino da predestinação revelado nas Escrituras começa com o relato da Queda do homem no Éden, evento que fazia parte do Seu plano eterno, pois Deus nunca é surpreendido por coisa alguma. Ao mesmo tempo, conforme o apóstolo Paulo indica em Rm 1:18, a recusa do homem em reconhecer a Deus como soberano e sua cegueira deliberada diante dos mandamentos de Deus, trouxeram sobre a humanidade a ira e a condenação divinas. Todos os seres humanos estão tão corrompidos que se recusam a reconhecer que Deus é Senhor e que eles mesmos são apenas criaturas.
Entretanto, pela Sua infinita graça, tão logo o homem pecou, Deus prometeu um Redentor que esmagaria o tentador e traria restauração (Gn 3:15). Assim, o propósito da redenção foi entrelaçado na história humana desde o princípio.
Só os eleitos serão salvos
A Bíblia mostra desde Gênesis que, devido à pecaminosidade do homem, este não quer espontaneamente procurar paz ou reconciliação com Aquele que é o seu Criador. Este fato é demonstrado na história de Caim e na pecaminosidade da civilização antediluviana (Gn 2:5). Mas, ao mesmo tempo, a Bíblia também diz que havia uma minoria fiel a Deus que descendia de Sete até Noé, sendo que este foi chamado para sobreviver ao dilúvio e continuar a linhagem daqueles que eram obedientes e confiavam na promessa da redenção que Deus lhes deu. Uma pessoa dessa linhagem foi Abraão, a quem Deus chamou para sair de Ur dos caldeus, e quem, através dos descendentes do seu neto, Jacó, estabeleceu Israel como Seu povo no mundo pré-cristão. Tudo isso foi resultado da graça divina que foi resumida na aliança que Javé fizera com Abraão, Isaque e Jacó (Gn 12). Embora até essa altura pouco se diga em Gênesis a respeito da eleição e da condenação divinas, quando se tratava da diferenciação entre Jacó e Esaú, foi deixado bem claro que, até mesmo antes do nascimento dos dois, Jacó havia sido escolhido e Esaú rejeitado, embora fossem gêmeos (Gn 25:19; Ml 1:3; Rm 9:10). Percebe-se aqui a primeira afirmação clara da doutrina da predestinação.
Mas se Deus é absolutamente soberano, surge a questão da possibilidade da liberdade e responsabilidade do homem. Como podem coexistir as duas coisas? As Escrituras, no entanto, repetidas vezes asseveram as duas verdades. As observações que José fez aos seus irmãos e o argumento de Pedro a respeito da crucificação de Jesus Cristo ressaltam essa realidade (Gn 45.4; At 2:23). O homem ao executar o plano de Deus, mesmo de modo contrário às suas próprias intenções, faz isso de modo responsável e livre. Neste sentido, Judas Iscariotes estava predestinado desde o princípio a trair Jesus Cristo (Mt 26:23; Jo 17:12), embora tenha agido livremente para que isso acontecesse. Mesmo usando os homens para alcançar Seus propósitos, Deus nunca é o autor do pecado.
Deus não tinha a obrigação de salvar homem algum e poderia agir com os homens como fez com os anjos que se rebelaram contra Ele. Deus não seria injusto não salvando nenhum homem, porque todos pecaram (Rm 5:12) e se tornaram objetos da Sua justa ira.
Mas o amor de Deus se manifestou ao enviar seu Filho unigênito ao mundo, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (1 Jo 4:9; Jo 3:16). Todavia, a ira de Deus permanece sobre aqueles que não crêem no Evangelho.
Paradoxalmente, a fé é apresentada nas Escrituras como sendo um dom de Deus (Ef 2:8,9; Jd 1:3). No livro de Atos a fé é apresentada como obra da Graça (At 18:27). A vida eterna é decorrente da Graça (At 13:48) e é Deus quem abre o coração do pecador para que este venha a crer no Evangelho (At 16:14).
Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros dessa alegre boa nova a quem e quando Ele quer. Pela instrumentalidade deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado: "como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?" (Rm 10:14-15).
Se muitas pessoas não crêem no Evangelho, é porque Deus não lhes concedeu o dom da fé (2 Ts 3:2). Deus nesta vida concede a fé a alguns enquanto não concede a outros, de acordo com seu eterno decreto (At 15:18; Ef 1:11). De acordo com esse decreto, Deus graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por mais duros que sejam, e os inclina a crer por meio da Palavra. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo Seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza de coração.
Desse modo, a eleição é o imutável propósito de Deus, pelo que Ele, antes da fundação do mundo, escolheu um grande e definido número de pessoas para a salvação, por graça pura. (Ef 1:4-6; Rm 8:30).
Embora pareça claro que essas doutrinas são apresentadas nos dois testamentos, juntamente com uma grande ênfase na justiça e santidade soberanas de Deus, muitos cristãos as têm rejeitado por vários motivos. As mesmas perguntas sempre são levantadas: se Deus escolhe uns em detrimento de outros, Ele não é arbitrário? Ele não estaria fazendo acepção de pessoas? Essas doutrinas não destroem o desejo de procurar viver uma vida moral e praticar a justiça? Os que fazem tais perguntas acham que assim condenam com eficácia essas doutrinas, mas esquecem-se que essas mesmas perguntas já tinham sido feitas e respondidas nos tempos de Cristo e dos apóstolos (Mt 20:15; Rm 9:19-20).
Os que crêem nas doutrinas da eleição e predestinação reconhecem que a sabedoria e a graça de Deus estão além da compreensão humana e que devemos curvar-nos diante d’Ele em adoração e louvor, como Paulo fez ao encerrar a exposição dessas verdades (Rm 11:33-36). Aqueles que assim fazem têm dentro de si um senso de conforto e fortaleza que não vem deles mesmos, mas que é um dom de Deus para capacitá-los a enfrentar o mundo com confiança e paz de Espírito.

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