NEM OLHOS
VIRAM NEM OUVIDOS OUVIRAM O QUE MESMO? - por Ruy Marinho
Um
texto bíblico muito bonito que é utilizado por muita gente, tanto em músicas,
quanto em pregações está na 1ª carta aos Coríntios 2:9 “mas, como está
escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração
humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” Geralmente,
a interpretação desse versículo é direcionada ao céu, às bênçãos vindouras na
eternidade. Alguns neopentecostais adeptos da teologia da prosperidade
conseguem ir mais além, afirmando com base nesse versículo que devemos “sonhar”
com coisas materiais que jamais sonhamos, pois seria o que Deus preparou para
aqueles que o amam.
Embora sabemos que, de fato, Deus preparou a eternidade
como algo indescritivelmente maravilhoso para os eleitos, informo àqueles que
utilizam este versículo bíblico para compor as suas músicas e pregações que,
não é isso que o texto afirma! Ao analisar o contexto, descobrimos alguns
pontos importantes, dos quais nos levarão ao verdadeiro sentido do versículo 9.
Em primeiro lugar, o versículo imediato
indica que “o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” já
foi relevado! “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o
Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus”(vs
10, negrito meu). Através do Espírito Santo, temos conhecimento de algo que
outrora estava oculto e que agora fora revelado, o que refuta a ideia de ser algo
referente ao céu ou algo material que virá a existência. O que é então este
conhecimento revelado? Para chegar a resposta, devemos analisar todo o contexto
da passagem para entender o que o autor do texto, o Apóstolo Paulo, quis dizer.
Portanto, vamos voltar até o verso 1º e analisar até o 8º:
“Eu, irmãos, quando fui ter convosco,
anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou
de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo
e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive
entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem
persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para
que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.
Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria
deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas
falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou
desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos
poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam
crucificado o Senhor da glória.” (1Co
2:1-8, negrito meu)
Lendo atentamente o contexto, notamos
que Paulo está fazendo um contraste entre duas sabedorias: a humana e a de
Deus. Quando Paulo pregou o evangelho aos coríntios pessoalmente, ele sabia de
um grave problema que estava acontecendo nessa igreja. Havia divisões causadas
por conta do culto a personalidades (1Co 1:10-13). Os membros da igreja em
Corinto antes de se converterem eram pagãos e amavam a filosofia da época. Eles
seguiam a tradição da cidade em ouvir os grandes mestres filósofos que ficavam
em praça pública fazendo discursos bonitos, usando frases bem construídas e
retóricas elaboradas com bastante eloquência para emocionar a população. Em
troca, eles recebiam dinheiro dos ouvintes. Os habitantes de Corinto tinham um
interesse doentio em adquirir sabedoria e estavam acostumados a valorizar as
pessoas pela capacidade intelectual. Quando eles vieram para a igreja,
trouxeram essa prática mundana e as pessoas estavam transferindo aos pregadores
cristãos a mesma admiração que eles tinham pelos grandes filósofos da época, ou
seja, um verdadeiro culto a personalidade, algo que na igreja é inadmissível e
incompatível com a mensagem da Cruz.
Consciente de que a base da fé cristã
não se baseia em argumentos filosóficos, Paulo não utilizou a sabedoria humana
(leia-se filosofia da época, retórica com o objetivo de impressionar), mas sim
o poder de Deus através do evangelho. Apesar de o Apóstolo ter sido uma pessoa
culta, com três cidadanias e grande conhecedor da literatura e filosofia da
época (At 17:17 e 28, 19:8, Tt 1:12 etc.), ele sabia que se usasse a sua
sabedoria para persuadi-los sobre o evangelho, com certeza os coríntios se
apoiariam nisso e fariam também um grande "fã-clube" paulino. Por
isso, sua mensagem aos coríntios foi exclusivamente a pregação do evangelho da
Cruz.
Esta sabedoria de Deus que é Jesus
Cristo só pode ser compreendida através da iluminação do Espírito Santo. Ela
não pode ser percebida pelo mundo, caso contrário, não teriam crucificado a
Cristo (vs 8). Por isso, quem provoca divisões por cultuar personalidades é
porque não é espiritual, mas carnal, considerado criança em Cristo (1Co 3:1-9),
pois não compreendeu o mistério do evangelho da Cruz. A palavra
"mistério" no N.T. grego (mysterion) traz o sentido de algo
que está sendo revelado. Deus se revela aos que d'Ele se aproximam em Cristo. O
conhecimento de Deus é misterioso no sentido de que o homem natural, agindo por
suas próprias faculdades, não pode recebê-lo.[1] Somente os eleitos de Deus
possuem esse entendimento (Mc 4:11, Rm 11:25, Cl 1:26), quem tem o Espírito,
tem este mistério revelado em seu coração!
É este, portanto, o raciocínio de Paulo
dentro do contexto. A sabedoria de Deus em mistério que o apóstolo está falando
(vs 7) é exatamente o evangelho que estava oculto desde a eternidade e fora revelado
através do Espírito Santo. No verso 9, "o que Deus preparou para
aqueles que o amam" é a obra da salvação através de Jesus Cristo,
são as riquezas do evangelho. No contexto amplo sobre o assunto, encontramos em
Efésios 3:8-9 outra afirmação do apóstolo Paulo sobre esta verdade: “A
mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos
gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e
manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos,
oculto em Deus, que criou todas as coisas”. (negrito meu)
Após esta análise, percebemos o perigo de
interpretar a Bíblia de forma alegórica, onde extrair algo que o texto em si
não diz é um erro grave! Não podemos ir além do que está escrito e devemos
sempre condicionar a leitura da Bíblia dentro do contexto da passagem, é o
texto bíblico que deve nos dar o sentido da leitura e não o contrário. Somente
assim, compreenderemos corretamente o que o autor quis dizer, podendo então
aplicar a passagem bíblica para nós em sua exata significância.
Caro leitor, quando você ouvir novamente
alguém cantar ou pregar que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram”,
procure analisar se tal citação está dentro do contexto bíblico correto. Aos
compositores musicais, vale ressaltar a importância da análise teológica de
suas letras. Da mesma forma, os pregadores devem ter o mesmo cuidado. Para
estes, é altamente recomendável a pregação da Palavra de Deus de forma
expositiva, pois a mesma não permite que o pregador vá além do que está
escrito, protegendo o texto bíblico de alegorias isoladas, além de expor a
mensagem bíblica de forma correta e literal.[2] Como Calvino afirmou certa
vez: "O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é
natural e óbvio".[3]
Sola Scriptura!
Notas:
[1] - O Novo Comentário da Bíblia, F.
Davidson. Ed. Vida Nova, pág.1195.
[2] - Para saber mais sobre a pregação expositiva, veja uma seleção de
excelentes artigos aqui!
[3] - Citado em: A arte expositiva de João Calvino - Steven J. Lawson. Editora
Fiel, 2008, p. 72, de: PARKER, T.H.L. Calvin's New Testament
Commentaries. Grand Rapids, Ml: Eerdmans publishing Co, 1971. p.50.
Extraído de: http://www.materiasdeteologia.com/2014/01/nem-olhos-viram-nem-ouvidos-ouviram-o.html#ixzz2r4mIJyn5
[2] - Para saber mais sobre a pregação expositiva, veja uma seleção de excelentes artigos aqui!
[3] - Citado em: A arte expositiva de João Calvino - Steven J. Lawson. Editora Fiel, 2008, p. 72, de: PARKER, T.H.L. Calvin's New Testament Commentaries. Grand Rapids, Ml: Eerdmans publishing Co, 1971. p.50.
Extraído de: http://www.materiasdeteologia.com/2014/01/nem-olhos-viram-nem-ouvidos-ouviram-o.html#ixzz2r4mIJyn5
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