O
CONHECIMENTO MÉDIO (PARTE 2) - por Francis Turretini
Estabelecimento da questão.
5. A questão não é se Deus conhece
as contingências futuras (pois todos concordamos que Deus conhece desde a
eternidade não só as coisas em si, mas todas as suas combinações e conexões,
quer presentes, passadas e futuras, quer necessárias e contingentes). Antes, a
questão é se elas pertencem a um tipo de conhecimento intermediário distinto do
natural e soberanos. Isso negamos.
6. A questão não
diz respeito a coisas condicionais futuras necessárias, as quais nesta ou
naquela dada condição só podem ocorrer (como: se o sol nascer, será dia; se
Pedro se arrepender, sinceramente será salvo), pois como são necessariamente
enfeixadas com base na natureza da coisa ou na hipótese do decreto divino,
estão sob o conhecimento natural de Deus (se a condição é apenas possível) ou
sob o soberano (se é futura e decretada por ele). Antes, a inquirição se
relaciona com as coisas contingentes condicionais futuras, as quais (sendo
estabelecidas a condição) podem ocorrer e não ocorrer; por exemplo, se João
fosse de Lutécia, ele falaria ou pecaria, etc. A pergunta é se podem ser certa
e determinantemente conhecidas por antecipação em relação ao decreto de Deus;
isso negamos.
7. A questão não é se o conhecimento
de coisas condicionais futuras está em Deus antecedendo o próprio decreto (pois
nossos adversários não negam que determinado decreto geral preceda, pelo qual
ele prescreveu produzir as causas secundárias e está pronto a propiciar à
criatura pelo menos uma cooperação geral e indiferente, sempre que ele quis que
aquela se determinasse a agir). Antes, a questão é se um decreto especial
concernente a certa futurição desta ou daquela coisa precede de modo que Deus
pode ver aquela coisa antecedendo esse decreto (nela própria ou em suas
causas). Isso eles mantêm; nós negamos.
8. Portanto, a questão é se, além
do conhecimento natural (que é apenas de coisas possíveis) e o
conhecimento de visão (que é apenas de coisas futuras), pode-se admitir um
certo conhecimento terceiro ou intermediário, concernente às coisas
condicionais futuras, pelo qual Deus sabe o que os homens ou os anjos farão
livremente, sem um decreto especial precedente (se posto com estas ou aquelas
circunstâncias, numa certa ordem de coisas). Os jesuítas, os socinianos e os
remonstrantes o afirmam; os ortodoxos negam.
Prova de que não se pode admitir
o conhecimento intermediário.
9. As razões são: (1) O
conhecimento natural e o soberano abarcam todas as coisas e entidades
conhecíveis, e não devem ser multiplicados desnecessariamente. Não há nada na
natureza das coisas que não seja possível ou futuro, nem podem as coisas
condicionais futuras constituir uma terceira ordem, pois são tais com base num
condição apenas possível ou poderosa, ainda que nunca ocorra, ou numa condição
certamente futura e decretada. Na primeira maneira, não retrocedem da natureza
coisas possíveis e pertencem ao conhecimento natural; na segunda, são futuras e
decretadas por Deus e vêm sob o conhecimento soberano.
10. (2) Coisas inverídicas não
podem ser previstas como verídicas. Ora, as coisas condicionais futuras não
podem ser verídicas à parte da determinação da vontade divina; por exemplo, os
sidônios teriam se arrependido se os poderes lhes fossem supridos, pois teriam
ficados dispostos indiferentemente em sua natureza para arrepender-se ou não,
caso tais poderes lhes fossem dados; por isso deve vir de outra fonte a verdade
de que se arrependeriam caso tais poderes fossem impostos, se absolutamente
verídicos. Mas não se pode imaginar como causa dessa coisa exceto a vontade de
Deus. Nada houve desde a eternidade que pudesse ser a causa da determinação de
uma coisa indiferente a não ser a vontade de Deus; não sua essência ou seu
conhecimento, pois nenhum deles pode operar ad extra separadamente
da vontade. Portanto, assim como nenhum efeito pode ser entendido como futuro
(absolutamente ou hipoteticamente sem o decreto divino (porque
nenhuma criatura pode estar no mundo sem a causalidade divina), nenhuma coisa
condicional futura pode ser conhecível antes do decreto.
11. (3) Se todos os atos de vontade
criada estão sob a providência divina, de modo que nenhum deles é independente
e indeterminado, não se pode admitir um conhecimento indeterminado (que se
supõe ter por objeto a livre determinação da vontade, não dependendo de nenhuma
causa superior). Ora, que há tal sujeição da vontade criada é evidente à luz da
dependência entre a causa primária e as causas secundárias, entre o Criador e
as criaturas. Nem seria suficiente, para evitar essa dependência, dizer que ela
é criada, e sua liberdade dada por Deus, pois não cessaria de ser esse o
princípio de sua determinação se seus atos não dependessem de algum decreto.
Não seria deveras o primeiro a existir, mas ainda serio o operador primário
(nem de modo algum a causa secundária, mas a primária, porque, se dependesse de
Deus no ser, não dependeria dele na operação).
12. (4) Não se deve atribuir a Deus
nenhum conhecimento incerto. O conhecimento intermediário não pode ter certeza
porque se ocupa de um objeto incerto e contingente (ou seja, a indiferença [adiaphorian]
da vontade). Pergunto, pois, de onde pode Deus saber com certeza o que vai ou
não vai acontecer? Isso pode ser feito com base na natureza das próprias
coisas, quando ele as considera (em suas causas ou em si mesmas) como atos
livres numa vontade criada (o que agrada a Belarmino [Roberto Belarmino
(1542-1621), cardeal]) - mas como é possível uma coisa incerta propiciar
fundamento ao conhecimento certo - ou com base na infinitude do conhecimento
divino, que se sabe antecipadamente e com certeza em que direção a persuasão
moral inclinará a vontade (de outra forma livre) para o oposto ( o queVasquez e
Suarez sustentam); mas, como poderia a fragilidade do conhecimento mudar a
natureza das coisas a ver uma coisa se concretizar como certeza sendo
contingente? Uma vez mais, o conhecimento torna o evento certo ou o prevê como
certo. Se o faz assim, como pode conhecê-lo de antemão como tal, e onde está
então a indiferença da vontade? Se o prevê como certo, como pode a previsão de
uma coisa incerta e indiferente ser em si mesma certa? Ou com base na
existência eterna das coisas, pela qual se diz que elas são presentes para Deus
(como outros preferem).
Visto, porém, que não podem ter
existência real desde a eternidade (mas somente intencional), não se pode dizer
que existiram desde a eternidade senão em razão do decreto, no, qual obtêm sua
futurição. Visto, pois, que a necessidade certa do evento não pode
fundamentar-se na conexão contingente dos fins ou no conhecimento que
reconhece, porém não faz a coisa, segue-se que é somente com base no decreto
eficaz daquele que estabelece a conexão. Tomás de Aquino diz com mais acerto:
"Aquele que conhece um efeito contingente apenas em sua própria causa, e
não em alguma causa superior que certamente o determina, apena tem um
conhecimento conjetural concernente a ele; visto que, de uma causa indiferente,
enquanto indiferente, não pode fluir um determinado ato; e, pela mesma
razão, de uma antecedente contingente, enquanto contingente, não pode fluir uma
conclusão necessária antes do decreto da vontade divina" (ST, I, Q. 14,
Art 13, p. 83).
13. (5) Esse conhecimento
intermediário elimina o domínio de Deus sobre os atos livres, porque, segundo
ele, supõe-se que os atos da vontade são anteriores ao decreto, e por isso têm
sua futurição, não em Deus mas em si próprios. Aliás, Deus parece antes
depender da criatura, não podendo decretar ou dispor nada, a não ser que uma
determinação da vontade humana postule o que Deus veria em tal conexão das
coisas. Não se deve responder que o domínio de Deus nem por isso é desfeito,
porquanto ele pode remover aquela conexão ou alguma circunstância dela; por
exemplo, na presciência pela qual Deus sabia que Pedro negaria a Cristo, se
colocado em certa condição, Deus poderia impedi-lo de negar a Cristo eliminando
alguma circunstância prevista (por exemplo, o temor da morte) ou adicionado
maior luz ao intelecto e maior inclinação na vontade para confissão, e tudo
mais. Pois não seria suficiente, para sustentar o domínio de Deus, que ele
pudesse impedir Pedro negar a Cristo, pois poderia ter privado Pedro da vida
antes da apreensão de Cristo (mas isso seria ter domínio sobre a vida de Pedro,
não sobre seu livre arbítrio); porém requer-se que os atos livres de Pedro, de
negar ou não a Cristo, dependem dele (o que se nega na suposição desse
conhecimento). Enfim, se Deus pode eliminar uma circunstância prevista, pode
mudar a concretização da coisa; se ele pode, por um decreto, mudar a
concretização de uma coisa, também pertence ao decreto fomentá-la; pois aquele
que impede o evento pela remoção de alguma circunstância deve causá-la pelo
suprimento das circunstância.
14. (6) Sobre a suposição de tal
conhecimento, pode-se determinar uma razão para a predestinação fora de Deus,
além de seu propósito e beneplácito (eudokian), porque o consentimento
previsto da vontade de Jacó, posta em tais circunstância, seria pelo menos a
condição sem a qual Deus não poderia predestinar a salvação de Jacó em vez de
Esaú. Mas não se pode derivar de Paulo nenhuma razão para a eleição, exceto o
propósito (eudokian) de Deus - "E ainda não eram o gêmeos nascidos,
nem tinham praticado o bem ou o mal" - não em virtude de um previsto bom
uso do livre arbítrio pelo conhecimento intermediário, mas "(para que o
propósito de Deus, quanto a eleição, prevalecesse, não por obras, mas por
aquele que chama), foi dito a ela: o mais velho será servo do mais moço"
(Rm 9.11,12). Nem se deve dizer que essa condição é determinada por Deus, que
tem o conhecimento, não pelos homens; pois, embora sendo Deus quem conhece de
antemão, o que se afirma é que o objeto que ele pré conhece é o bom uso do
livre arbítrio previsto antes do decreto, de modo que a razão do decreto é
posta não em Deus, mas no homem. E assim a graça pode ser chamada com maior
propriedade de serva da inclinação humana do que senhora, e companheira, do que
causa, fazendo Deus depender do homem em vez de o homem depender de Deus.
Extraído de: http://www.materiasdeteologia.com/2014/01/o-conhecimento-medio-parte-2-por.html#ixzz2s78CAN4D
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