Breve Histórico das Origens
do Arminianismo
por
Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki
Jacob van Harmazoon (1560-1609), ou como é conhecido por seu nome latinizado Jacobus Arminius, nasceu em Oudewater na Holanda. Primeiro estudou teologia na Universidade Marburg em Leyden (1575-1581), também estudou em Basiléia (1582-1583), e posteriormente na Academia de Genebra na Suíça (1584-1586), onde recebeu aulas do próprio reformador Theodoro Beza, sucessor de João Calvino.
A Igreja Estatal Holandesa havia adotado a doutrina Reformada. Em
1618, endossou como seus Símbolos de Fé: a Confissão Belga [1] e o Catecismo de
Heidelberg. [2] Inicialmente foram usados apenas como livros de instrução. Mas
ao serem adotados como documentos representantes da fé do Estado Holandês,
trouxe muito desconforto para aqueles que advogavam manter a antiga fé
Católica, ou, uma postura mais tolerante.
A Holanda por causa do seu desenvolvimento humanista advogava a
liberdade de pensamento. Um dos maiores humanistas holandeses no início da
Reforma era Desidérius Erasmus (1466-1536), mais conhecido como Erasmo de
Rotterdam, que mesmo fazendo duras críticas a Igreja Católica Romana, morreu
como seu submisso filho. [3]
Os Países Baixos ainda estavam sendo minados pelo
Semipelagianismo. Mas, Arminius foi escolhido pelo Sínodo holandês em 1589,
para defender a doutrina oficial da Igreja Reformada Holandesa. Dirk Coornhert
que naquele período era o secretário geral dos Estados Gerais, não havia
aderido às doutrinas da Reforma. Arminius que era um filho da Igreja Reformada
Holandesa foi indicado para se opor aos ataques teológicos semipelagianos de
Coornhert. Entretanto, Arminius não foi feliz em sua defesa. [4] A partir desse
debate Arminius começou a questionar e nutrir dúvidas acerca do seu Calvinismo.
Durante o pastorado da Igreja Reformada de Amsterdã (1588-1603),
Arminius realizou uma exposição na epístola de Romanos analisando os capítulos
7-9. Nestas palestras ele questionou a interpretação calvinista desta passagem,
preferindo uma forma de Semipelagianismo modificada, o que veio a chamar-se Arminianismo .
Em 1603, Arminius foi nomeado professor de divindade (teologia
sistemática) na Universidade de Leyden. Esta era a mais antiga universidade da
Holanda. Sua nomeação ocorreu por basicamente três motivos; primeiro, por causa
de sua família, que ocupava uma posição proeminente entre a aristocracia
holandesa; segundo, possuía muitos amigos, inclusive membros da igreja de
Amsterdã que lhe apoiavam; terceiro, o seu currículo acadêmico era
inquestionável. Lecionou ali até a sua morte. Durante esse período letivo,
Arminius sistematizou seu pensamento fazendo muitos discípulos e simpatizantes
políticos.
Franciscus Gomarus que, primeiramente, foi professor de Arminius,
tornou-se seu principal inimigo. Todos os que defendiam a posição calvinista,
ficaram conhecidos, naquele período na Holanda, como gomaristas. Gomarus foi
uma figura decisiva no Sínodo de Dort, em defesa da opinião calvinista.
A Igreja Oficial Holandesa era confessionalmente calvinista. Os
teólogos e partidários de Arminius não admitiam a limitação confessional, e
procuravam obter a revisão dos credos oficiais. Isso causou um transtorno de
difícil resolução, pois ambos teólogos, tanto Gomarus como Arminius, possuíam
influentes simpatizantes na política estatal holandesa.[5]
A República dos Estados Gerais [6] se encontrava perto de uma
cisão. Quando a discussão saiu de dentro das salas da Universidade de Leyden,
indo para os púlpitos e em seguida para o parlamento, o caso agravou-se.
Ricardo Cerni comenta que
no sombrio marco desta questão ressuscitou um antigo problema
sócio-político polarizado na rivalidade existente entre Maurício de Nassau
(filho de William de Orange, e o protetor do proletariado), e Jan Barnevelt, um
dos fundadores da república e líder da alta burguesia. Em geral, esta classe
social era partidária da postura arminiana, e usando de sua evidente influência
política conseguiram, através de Hugo Groot (Grotius, 1583-1645) a publicação
de um Edito para que se proibisse nas igrejas a pregação de temas
“controvertidos”, incluindo, obviamente, a questão da predestinação. Os
calvinistas ortodoxos protestaram imediatamente estimando aquele que era um ato
de verdadeira perseguição. [7]
Era um risco muito delicado para a Holanda, principalmente naquele
momento, pois a guerra com a Espanha não havia terminado. Maurício de Orange,
que era o Conde de Nassau, percebeu claramente o perigo da República Holandesa
perder a sua unidade, e resolveu usar a sua influência como governador-geral,
quebrando o poder das autoridades partidárias de Arminius. De forma decisiva em
1617, Maurício de Orange desarmou as tropas dos magistrados arminianos, e no
mesmo ano decidiu convocar um sínodo.
O problema teológico de Arminius tinha as suas raízes em sua
teontologia [8]. As suas conclusões acerca da salvação, não eram resultados
apenas de um conceito errado de livre arbítrio, ou do modus
operandi da
livre graça de Deus, e sim, do seu conceito acerca da Trindade. Arminius falando
do seu conceito da divindade de Cristo e do Espírito, afirma que “esta maneira
de falar é nova, herética e sabeliana, e em si, é blasfemo dizer que o Filho de
Deus éhomoousios (da mesma essência) porque
somente o Pai é verdadeiro Deus, o Filho e o Espírito não o são.” [9] Além de
demonstrar certa deficiência na área de teologia histórica, a sua teontologia
resulta conseqüentemente num Unitarismo. [10]
A conseqüência dessa teologia em tom unitarista, unida a um
conceito errôneo de livre arbítrio é que a sua Soteriologia [11] e todas as
demais divisões da dogmática, coerentemente, sofreram modificações bastante
significativas. Não é de se estranhar que os discípulos de Arminius
distanciaram-se do seu tom protestante original. Os nomes de teólogos arminianos
como “Episcopius, Grocius, Curcellaeus, Limborch, e sua elaboração de
imponentes volumes, do material dogmático, não conseguem esconder o achatamento
de todas as grandes doutrinas, e suas tendências crescentes em direção a Ário,
a Pelágio e a Socínio”. [12]
O próprio Arminius era inconsistente em sua teologia. Embora
negava os quatro primeiros pontos do Calvinismo, ele incoerentemente aceitava o
quinto. Numa obra chamada Declaração dos Sentimentos (1608) ele defende que Deus
possui quatro tipos de decretos, sendo que o quarto “Deus decretou a salvação
de certos indivíduos específicos – porque Ele anteviu que eles creriam e
perseverariam até o fim”. [13]
Com o propósito de tornar sua teologia mais coerente os
remonstrantes também negaram em seu quinto ponto a doutrina da Perseverança
Final, conforme exposta pelo Calvinismo. Em sua avaliação sobre o assunto,
Wright afirma que
ele [Arminius] continuou até a crer na segurança eterna dos
santos, embora este último aspecto do calvinismo tenha sido abandonado pelos
seus seguidores entre os Remonstrantes, poucos anos após a sua morte, enquanto
procuravam desenvolver uma teologia mais consistente sobre a graça
universal.[14]
Após a morte de Arminius (1609) os seus seguidores,
aproximadamente 46 teólogos, se reuniram na cidade de Gouda. Apresentaram um
documento chamado Articuli Arminiani sive
Remonstrantia (1610).
Neste documento demonstravam que tipo de teologia esposavam em protesto à
religião oficial do Estado.
Após este incidente a Igreja foi obrigada a se declarar com maior
clareza acerca destes novos pontos doutrinários através dos Cânones de Dort em
reação aos arminianos. O sínodo reuniu-se na cidade de Dordrecht, em 13 de
novembro 1618, até 9 de Maio de 1619. Era formado de teólogos não somente
holandeses, mas também procedentes de outras partes da Europa. [15] Haviam
trinta e cinco teólogos, um grupo de presbíteros das igrejas holandesas e
participantes provindos da Grã Bretanha, Eleitorado do Palatinado, Helvétia,
República de Genebra, Bremen, Bélgica, Zutânia, Austrália, Nova Zelândia,
Frísia, Transilvânia, Groningen, Drentia, Gálica-Belga, Hesse, Suíça,
Bradenburg, Utrecht e Balcanquall.
Os remonstrantes também foram convocados para estarem no Sínodo.
Estavam presentes Simon Episcopius professor de teologia em Leyden, o sucessor
de Arminius, e mais doze teólogos arminianos. Contudo para eles o sínodo
não passava de uma conferência e eles negavam competência para
agir como um tribunal em questões de doutrina. Eles não queriam ser tratados
como réus. A tática do grupo arminiano era a de obstruir as reuniões do sínodo
com debates formais. O Sínodo queria discutir os artigos da “Remonstrância”,
mas o grupo arminiano se recusava a expor claramente sua posição doutrinária.
Após quatro semanas de debates inúteis, o presidente do sínodo dispensou o
grupo de arminianos. Com isto o sínodo passou a julgar a doutrina arminiana com
base em seus escritos. Os cinco artigos dos arminianos foram discutidos e uma
comissão preparou o texto dos “cânones” ou regras de doutrina em que se
condenava a doutrina arminiana e se expunha a doutrina reformada. [16]
O Sínodo holandês ratificou a sua fé Reformada (calvinista). Os
remonstrantes insatisfeitos reagiram com um manifesto contra a decisão do
Sínodo. O resultado desse manifesto foi a expulsão dos ministros arminianos das
igrejas Reformadas e a morte de muitos deles.
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