Em virtude dessa elevada concepção da pregação como vox Dei, a fé reformada atribui à
proclamação pública da Palavra de Deus a maior importância. Na tradição
reformada a pregação é considerada como o principal meio de graça, como a
tarefa primordial da igreja e do ministro da Palavra, como o elemento central
do culto, como marca genuína da verdadeira igreja e como o meio por excelência
pelo qual é exercido o poder das chaves.
A.
O Principal Meio de Graça
Na teologia reformada a pregação é um meio de graça. Ela e a
ministração dos sacramentos são as ordenanças pelas quais o pacto da graça é
administrado na nova dispensação.31
De fato, na concepção reformada, a pregação é o mais
excelente meio pelo qual a graça de Deus é conferida aos homens,32 suplantando
inclusive os sacramentos. Os sacramentos não são indispensáveis; a pregação é.
Os sacramentos não têm sentido sem a pregação da Palavra, sendo-lhe
subordinados.33 Os sacramentos servem apenas para edificar a
igreja; a pregação, além disso, é o meio por excelência pelo qual a fé é suscitada;
é o poder de Deus para a salvação.34 Os sacramentos são como
que apêndices à pregação do evangelho.35 É assim que
reformadores e puritanos interpretam as palavras de Paulo em 1 Coríntios 1.17:
“Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho.” Para
Calvino, os sacramentos não têm sentido sem a pregação do evangelho.36 Quando
a ministração dos sacramentos é dissociada da pregação, eles tendem a ser
considerados como práticas mágicas.37
A idéia puritana quanto à relevância da pregação não é
diferente. Lloyd-Jones observou que “os puritanos asseveravam também que o
sermão é mais importante que as ordenanças ou quaisquer cerimônias. Alegavam
que ele é um ato de culto semelhante à eucaristia, e mais central no serviço da
igreja. As ordenanças, diziam eles, selam a palavra pregada e, portanto, são
subordinadas a ela.”38 Comentando Efésios 4.11, Hodge explica o
papel do pregador como canal da operação do Espírito como segue:
Assim
como no corpo humano há certos canais por meio dos quais a influência vital
flui da cabeça para os membros, os quais são necessários à sua comunicação,
assim também há certos meios divinamente designados para a distribuição do
Espírito Santo, de Cristo para os diversos membros do seu corpo. Quais canais
de influência divina são esses, pelos quais a igreja é sustentada e
impulsionada, é claramente indicado no verso 11, no qual o apóstolo diz:
“Cristo deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas,
e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos.” É,
portanto, através do ministério da Palavra que a influência divina flui de
Cristo, o cabeça, para todos os membros do seu corpo; de modo que onde o
ministério falha, a influência divina falha. Isto não significa que os
ministros, na qualidade de homens ou oficiais, sejam de tal modo canais do
Espírito para os membros da igreja, que sem a intervenção ministerial deles,
ninguém se torna participante do Espírito Santo. Significa, sim, que os
ministros, na condição de despenseiros da verdade, são, portanto, os canais da
comunicação divina. Pelos dons da revelação e inspiração, Cristo constituiu uns
apóstolos e outros profetas para a comunicação e registro da sua verdade; e
pela vocação interna do seu Espírito, ele constitui outros evangelistas e
outros pastores, com vistas à sua constante proclamação e persuasão. E é
somente (no que diz respeito aos adultos) em conexão com a verdade assim
revelada e pregada, que o Espírito Santo é comunicado.39
Que graças são comunicadas por meio da pregação? A pregação é
o meio pelo qual as pessoas adultas e capazes são externamente chamadas para a
salvação.40 É a causa instrumental da fé e principal meio pelo
qual a fé é aumentada e fortalecida, a igreja é edificada e o Reino de Deus é
promovido no mundo.41 Pela pregação da Palavra a igreja é
ensinada, convencida, reprovada, exortada e confortada.42
B.
A Tarefa Primordial da Igreja e do Pregador
Na concepção reformada, a pregação é a tarefa primordial da
igreja e do ministro da Palavra.43 Em suas mensagens e
escritos, os reformadores condenam insistente e duramente o clero romano por
negligenciar a pregação. Incapacitados para a tarefa, os sacerdotes católicos
delegavam a função a outros,44 e dedicavam-se a atividades
secundárias, ou mesmo à ociosidade e à luxúria. A superficialidade e leviandade
com que as pessoas participavam da missa era, para Lutero, culpa dos bispos e
sacerdotes, que não pregavam nem ensinavam as pessoas a ouvir a pregação.45 Ele
considera que:
...não
há praga mais cruel da ira de Deus do que quando ele envia fome [escassez] de
ouvir sua Palavra, como diz Amós [8.11s], como também não existe maior graça do
que quando envia sua Palavra, conforme o Salmo 107.20: “Enviou sua Palavra e os
sarou, e os livrou de sua perdição.” Também Cristo não foi enviado para outra
tarefa do que para [pregar] a Palavra; também o apostolado, o episcopado e toda
ordem clerical para outra coisa não foram chamados e instituídos do que para o
ministério da Palavra.46
Para Lutero, “...quem não prega a Palavra, para o que foi
chamado pela igreja, não é sacerdote de maneira alguma... quem não é anjo
(mensageiro) do Senhor dos Exércitos ou quem é chamado para outra coisa que não
para o angelato (por assim dizer),
certamente não é sacerdote... Por isso também são chamados de pastores, porque
devem apascentar, isto é, ensinar. O múnus do sacerdote é pregar. O ministério
da Palavra faz o sacerdote e o bispo.”47
Calvino também condena repetidas vezes os sacerdotes e bispos
por não pregarem o evangelho.48 Comentando Atos 1.21-22, quando
Barsabás e Matias são indicados para preencher a vaga de Judas no apostolado,
como testemunhas da ressurreição de Cristo, Calvino conclui com isso que o
ensino e a pregação são funções essenciais do ministério.49
A Forma de Governo
Eclesiástico Presbiteriano relaciona, entre as atribuições do ministro da
Palavra, juntamente com a oração e a administração dos sacramentos, “alimentar
o rebanho pela pregação da Palavra, de acordo com a qual deve ensinar,
convencer, reprovar, exortar e confortar.”50
Esses documentos presbiterianos simplesmente refletem a
concepção puritana. William Bradshaw, autor de uma das obras mais antigas
sobre os puritanos comenta que, para eles, “o mais elevado e supremo ofício e
autoridade do pastor é pregar o evangelho solene e publicamente à congregação.”51 Packer
cita Owen para demonstrar que a pregação era, para os puritanos, “o principal
dever de um pastor. De acordo com o exemplo dos apóstolos, eles devem livrar-se
de todo impedimento a fim de que possam dedicar-se totalmente à Palavra e à
oração.”52 Jonathan Edwards considerava a pregação do evangelho o
principal dever do ministro.53 Em uma carta, ele comentou:
Devemos
ser fiéis em cada parte das nossas obras ministeriais, e nos empenhar para magnificar
nosso ofício. De maneira particular, devemos atentar para a nossa pregação, a
fim de que ela seja não apenas sã, mas instrutiva, temperada, espiritual, muito
estimulante e perscrutadora; bem pertinente à época e tempos em que vivemos,
labutando diligentemente para isso.54
Dentre as passagens bíblicas que fundamentam essa
característica da pregação reformada, as seguintes podem ser mencionadas: com
relação a Jesus, Lucas 12.14 e João 6.14-15; com relação aos apóstolos, Atos
6.1-7 e 1 Coríntios 1.17; com relação aos evangelistas, precursores do
ministério permanente da pregação da Palavra, 1 Timóteo 5.15; e com relação aos
ministros permanentes da Palavra, Romanos 10.13-17 e 2 Timóteo 4.1-4.
C.
A Centralidade da Pregação no Culto
No culto medieval, a pregação era considerada, no máximo,
como elemento preparatório para a ministração e recepção dos sacramentos. Na
concepção reformado-puritana, “a leitura das Escrituras, com santo temor, a sã
pregação da Palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus com
entendimento, fé e reverência...,” são os principais elementos do culto a Deus
na dispensação da graça.55 A Reforma restaurou a pregação à sua
posição bíblica, conferindo a ela a centralidade no culto público.56
Na antiga dispensação, o elemento central do culto público
era o sacrifício, uma pregação simbólica apontando para o sacrifício de Cristo.
Na nova dispensação, havendo Cristo oferecido a si mesmo como o Cordeiro Pascal
que tira o pecado do mundo, não há mais lugar para sacrifícios. A pregação da
Palavra é a legítima substituta do sacrifício como atividade central do culto
na dispensação da graça. O que o sacrifício proclamava de forma simbólica e
pictórica na antiga dispensação, deve ser agora anunciado de forma oral, pela
leitura e pregação da Palavra.
Com o propósito de restaurar a igreja em Genebra ao modelo
bíblico, Calvino e outros redigiram as Ordenanças
Eclesiásticas, um manual de governo eclesiástico e de culto. De acordo com
as Ordenanças, a pregação da Palavra
deveria ser o elemento essencial do culto público e a tarefa essencial e
central do ministério pastoral.57 No seu prefácio aos sermões
de Calvino sobre o Salmo 119, Boice observa:
Quando
a Reforma Protestante aconteceu no século XVI e as verdades da Bíblia, que por
longo tempo haviam sido obscurecidas pelas tradições da igreja medieval,
novamente tornaram-se conhecidas, houve uma imediata elevação das Escrituras
nos cultos protestantes. João Calvino, em particular, pôs isto em prática de
modo pleno, ordenando que os altares (há muito o centro da missa latina) fossem
removidos das igrejas e que o púlpito com uma Bíblia aberta sobre ele fosse
colocado no centro do prédio.58
Lutero também “...considerava a pregação como a parte central
do culto público e colocava a pregação da Palavra até mesmo acima da sua
leitura.”59 Timothy George descreve assim a contribuição de
Lutero para a pregação:
Lutero
recuperou a doutrina paulina da proclamação: a fé vem pelo ouvir, o ouvir pela
palavra de Deus... (Rm 10.17). Lutero não inventou a pregação mas a elevou a um
novo status dentro do culto
cristão... O sermão era a melhor e mais necessária parte da missa. Lutero
investiu-o de uma qualidade quase sacramental, tornando-o o núcleo da
liturgia... O culto protestante centrava-se ao redor do púlpito e da Bíblia
aberta, com o pregador encarando a congregação, e não em volta de um altar com
o sacerdote realizando um ritual semi-secreto. O ofício da pregação era tão
importante que até mesmo os membros banidos da igreja não deviam ser excluídos
de seus benefícios.60
Quanto aos puritanos, eles “anelavam ver a pregação da
Palavra de Deus tornar-se central no culto.”61 O culto puritano
culminava no sermão. Ryken observa que “os puritanos fizeram da leitura e
exposição das Escrituras o evento principal do culto.” A pratica puritana da
“profetização” (prophesying), um tipo
de escola de profetas em que ministros pregavam um após o outro, com vistas ao
treinamento de pregadores menos experientes,62 “contribuiu mais
do que qualquer outro meio para promover e estabelecer a nova religião na
Inglaterra” na época.63
D.
A Marca Essencial da Verdadeira Igreja
Porquanto na pregação Cristo fala e se faz presente,
governando e ensinando a igreja, a fé reformada é unânime em considerar que a
pregação da Palavra é uma das marcas da verdadeira igreja. Diversos símbolos de
fé reformados, dentre os quais a Confissão
Belga (artigo 29), a Confissão
Escocesa de 1560 (artigo 18), a Confissão
da Igreja Inglesa em Genebra de 1556 (artigos 26-28), a Confissão de Fé Francesa de 1559, e a Segunda Confissão Helvética de 1566 (capítulo 17) professam que a
“pregação pura do evangelho,” a “verdadeira pregação da Palavra de Deus,” é uma
das marcas pelas quais a verdadeira igreja de Cristo pode ser reconhecida neste
mundo. Lutero escreveu que “unicamente Cristo é o cabeça da cristandade. Ele
age através do evangelho pregado, do Batismo e da Ceia do Senhor, os quais,
portanto, são também os sinais pelos quais a verdadeira igreja se identifica.”64 Para
Calvino, Satanás tenta destruir a igreja fazendo desaparecer a pregação pura.65 Conseqüentemente,
...
os sinais pelos quais a igreja é reconhecida são a pregação da Palavra e a
observância dos sacramentos, pois estes, onde quer que existam, produzem fruto
e prosperam pela bênção de Deus. Eu não estou dizendo que onde quer que a
Palavra seja pregada os frutos imediatamente apareçam; mas que, onde quer que
seja recebida e habite por algum tempo, ela sempre manifesta sua eficácia. Mas
isto quando a pregação do evangelho é ouvida com reverência, e os sacramentos
não são negligenciados...66
De fato, dentre as três marcas da verdadeira igreja
geralmente reconhecidas (a pregação, a ministração dos sacramentos e o
exercício da disciplina), a pregação é considerada a mais importante. Primeiro,
porque inclui as outras duas: como vimos, na concepção reformada, os
sacramentos não podem ser dissociados da Palavra, nem o exercício da
disciplina. Segundo, porque é através da pregação verdadeira da Palavra que os
eleitos são congregados e edificados. Berkhof, por exemplo, afirma que,
“estritamente falando, pode-se dizer que a pregação verdadeira da Palavra e seu
reconhecimento como o modelo da doutrina e da vida é a única marca da igreja.
Sem ela não há igreja, e ela determina a reta administração dos sacramentos e o
exercício fiel da disciplina eclesiástica.”67
Herman Hoeksema, outro
teólogo reformado, escreveu:
...podemos dizer que a única marca distintiva importante
da verdadeira igreja é a pura pregação da Palavra de Deus. Onde a Palavra de
Deus é pregada e ouvida, aí está a igreja de Deus. Onde esta Palavra não é
pregada, aí a igreja não está presente. E onde esta Palavra é adulterada, a
igreja deve arrepender-se ou morrerá.68
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