Em alguns círculos evangélicos em nossos dias, a pregação
parece ter como propósito o entretenimento do auditório, a exacerbação das
emoções, o bem-estar material e emocional dos ouvintes e a promoção do próprio
pregador ou da sua denominação. Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus,
reconhece que os púlpitos brasileiros “estão cada vez mais empobrecidos.
Pastores animam seus auditórios com frases de efeito, contentam suas igrejas
com mensagens superficiais...” Ele admite que necessitamos de uma nova Reforma
no cristianismo, a qual deve começar pelo púlpito.99 Em outro
artigo, o mesmo autor comenta que “há uma tendência de transformar a igreja em big business. Pior, big business do lazer espiritual.” Ele continua: “Pastores e padres
abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos papéis:
animadores de auditório e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em
mero palco. A igreja, simples platéia... Sermões podem ser facilmente
confundidos com palestras de neurolingüística.”100
O propósito da
pregação reformada é completamente diferente. Ela tem objetivos claros e
elevados com relação ao texto que está sendo pregado, com relação aos ouvintes
e, especialmente, com relação a Deus e ao seu reino neste mundo.
A.
Com Relação ao Texto
Uma das qualidades mais marcantes da pregação reformada
consiste na determinação de fazer do propósito do texto o propósito do sermão.
Reformadores e puritanos compreenderam que cada passagem das Escrituras tem
propósito(s) específico(s). Por isso, fizeram grande esforço para entender o
texto, para discernir o seu propósito(s), para proclamar fielmente a mensagem
bíblica e aplicá-la em consonância com o propósito divino. Lutero, por exemplo,
afirma que “a principal tarefa do pregador é ensinar corretamente, procurar os
pontos [doutrinas] principais e bases do seu texto, e instruir e ensinar de tal
maneira os ouvintes que eles entendam corretamente [o texto].”101 Ele
assim descreve o dever do pregador:
...ele
deve saber ensinar e admoestar. Quando prega uma doutrina, deve, primeiramente,
caracterizá-la. Em segundo lugar, deve defini-la, descrevê-la e explicá-la. Em
terceiro lugar, deve apresentar passagens bíblicas que a comprovem e confirmem.
Em quarto lugar, deve explicá-la e declará-la com exemplos. Em quinto lugar,
deve adorná-la com comparações. E, finalmente, deve admoestar e despertar os
preguiçosos, reprovar veementemente todos os desobedientes, todas as falsas
doutrinas e seus autores...102
A pregação de Zuínglio é geralmente “direcionada ao propósito
de libertar seus ouvintes do mundo de superstições e da falsa religião.” E isto
ele fez, na avaliação de Bullinger, “pela verdade divina e com ela, e não com
frivolidades humanas.”103 O labor exegético de Calvino a fim de
compreender e transmitir o sentido real do texto bíblico em sua pregação é
amplamente reconhecido. “Como pregador, Calvino tinha um ardente desejo, qual
seja, de levar seus ouvintes a um entendimento preciso do que Deus está dizendo
à congregação na passagem escolhida das Escrituras e o que aquilo significava
para os diferentes tipos de pessoas que estavam ouvindo a pregação.”104 Ele
mesmo testifica que, quando assumia o púlpito,
não era para expor ali seus sonhos e imaginações, mas para transmitir
fielmente, sem nenhum acréscimo, o que havia recebido.105 Calvino
descreve o propósito geral da pregação do seguinte modo:
Nisto
consiste o poder supremo com o qual os pastores da igreja, seja qual for o nome
pelo qual sejam chamados deveriam ser investidos: serem ousados na proclamação
da Palavra de Deus, exortando toda virtude, glória, sabedoria e autoridade do
mundo a se submeter e obedecer sua majestade; ordenar que todos, dos maiores
aos menores confiem no seu poder [de
Deus] para edificar a casa de Cristo e destruir a casa de Satanás; alimentar as
ovelhas e expulsar os lobos; instruir e exortar os dóceis; acusar e subjugar os
rebeldes e petulantes, ligar e desligar; em suma, queimar (to fire) e fulminar, mas tudo de acordo com a Palavra de Deus.106
O que Dargan escreveu com relação à pregação de Lutero, pode
certamente ser generalizado como ilustrativo do propósito da pregação dos
reformadores em geral: “O contexto é considerado, e o real sentido e intenção
dos autores das Escrituras é buscado e respeitado.”107
Packer menciona um comentário bastante elucidativo de um
pregador puritano com relação à determinação reformado-puritana no sentido de
discernir o propósito do texto e fazer dele o propósito da pregação:
Eu
nunca preguei, a não ser que me sentisse convencido de haver descoberto a
vontade de Deus com relação ao sentido da passagem. Meu propósito é extrair da
Escritura o que ali está... Sou muito zeloso quanto a isso: nunca falar mais
nem menos do que acredito ser a mente do Espírito na passagem que estou
expondo.108
B.
Com Relação aos Ouvintes
1. Alcançar e Converter o Coração
Reformadores e puritanos queriam, com a pregação, informar o
intelecto, mover as afeições e motivar a vontade.109 Entretanto,
o alvo estava além do intelecto, dos sentimentos e das emoções. Eles almejavam
alcançar e converter o coração, o próprio centro da alma humana.110 E
isto eles buscavam, não por meio de manipulação retórica da audiência, mas
através da pregação fiel da Palavra de Deus.111
Em uma de suas obras, Lutero resume assim o propósito da
pregação: “Estimular os pecadores a sentirem seus pecados e despertar neles o
desejo pelo tesouro” do evangelho.112 Em outra obra, ele
deplora o fato de que não poucos pregam a Cristo meramente com a intenção de
comover os sentimentos humanos, ao invés de promover neles a fé em Cristo.113 Calvino
escreveu que “o propósito pelo qual a Palavra de Deus é pregada é nos iluminar
com o verdadeiro conhecimento de Deus, fazer com que nos voltemos para Deus, e
nos reconciliar com ele.”114
Para os pregadores puritanos, o sucesso da pregação não deve
ser avaliado apenas pelo que acontece na igreja, mas pelo seu efeito nas vidas
dos ouvintes que estão fora da mesma.115 O Catecismo Maior de Westminster exorta os ministros da Palavra a
pregarem “...com sinceridade..., procurando converter, edificar e salvar as
almas.”116 A
salvação da alma é o grande propósito da pregação reformada com relação àqueles
que se encontram em estado de pecado.117
2. Mediar Encontros com Deus
Como o coração é alcançado e
convertido? Quando pecadores têm um encontro verdadeiro com Deus mediado pela
pregação do evangelho. Packer resume o propósito da pregação reformada como
“mediar encontros com Deus.” Para ele, a pregação de Lutero, Latimer, Knox,
Baxter, Bunyan, Whitefield, Edwards, McCheyne, Spurgeon, Ryle, Lloyd-Jones,
entre outros, não tencionava apenas informar os ouvintes, mas fazer com que a
“pregação se tornasse o meio de encontro de Deus com seus ouvintes,” pela
exposição e aplicação das verdades das Escrituras.118 Para
Lloyd-Jones, “o propósito primeiro e primordial da pregação não é somente fornecer
informação mas produzir uma impressão...”;119 é colocar os
homens diante de Deus, propiciando um encontro verdadeiro com ele.120 Em
suas próprias palavras, o propósito da pregação “é dar a homens e mulheres a
sensação de Deus e da sua presença.”121 Ao fazer essas
afirmativas, Lloyd-Jones segue de perto a tradição puritana.122
3. Restaurar a Imagem de Deus no Homem
A conversão, entretanto, é apenas o começo. Na concepção
reformada, o evangelho deve ser pregado com o objetivo de restaurar nos
ouvintes a imagem de Deus corrompida na queda.
Calvino relaciona a restauração da imagem de Deus no ser
humano com o ministério da Palavra. Para ele, a restauração da imago Dei no coração humano é obra do
Espírito Santo de Deus por meio da pregação da Palavra.123 Ele
interpreta o pedido de Paulo em 2 Tessalonicenses 3:1 no seguinte sentido: “Que
sua pregação possa manifestar seu poder e eficácia para renovar o homem de
conformidade com a imagem e semelhança de Deus.”124 A
“reforma” e “edificação” da vida dos ouvintes, segundo Calvino, é o propósito
geral da pregação com relação à igreja.125
Os puritanos relacionavam igualmente o propósito da pregação
com a restauração da imagem de Deus no homem. Peter Lewis, um estudioso do
movimento puritano escreveu que para eles, “o fim principal da pregação... era
a glorificação de Deus na restauração da sua imagem nas almas e vidas dos
homens.”126
Dennis Johnson, um autor reformado
contemporâneo, assevera na mesma linha que a pregação não se exaure na
evangelização e no ensino. Seu telos
é a maturidade espiritual dos ouvintes. Ele afirma, com base em Romanos 8.29,
Colossenses 3.10-11 e Efésios 4.24, que “o alvo da pregação não é plenamente
alcançado senão quando um rebelde se torna filho de Deus. A pregação cristã, o
evangelho apostólico, tem como seu propósito nada menos do que a conformidade
completa de cada filho de Deus à perfeita imagem do Filho: Cristo.”127
C.
Com Relação a Deus
A restauração da imago Dei na alma e na vida do homem,
não é, contudo, o propósito principal da pregação reformada. O propósito maior
da pregação reformada consiste em promover o reino e a glória de Deus e
destruir o reino de Satanás. Reformadores e puritanos anelavam com a pregação
da Palavra, por um lado, avançar com a obra de Deus no mundo, libertando
pecadores da escravidão de Satanás, e edificar os santos, instruindo-os a viver
para a glória de Deus; e, por outro lado, desmascarar e lançar por terra a obra
do diabo. Na proclamação do evangelho a glória de Deus resplandece na face de
Cristo (2 Co 4.6), assim como a glória de Deus é proclamada na obra da criação
(Sl 19).
Parker
afirma que, para Calvino, “o propósito do pregador é direcionado antes de mais
nada para Deus. Ele prega a fim de que Deus seja glorificado.”128
Comentando 2 Corintios 2.15 (“somos para com Deus o bom perfume de Cristo”),
Calvino afirma que “temos aqui uma passagem notável, porque nela somos
ensinados que seja qual for o resultado da nossa pregação, ainda assim ela é
agradável a Deus..., porque Deus é glorificado mesmo quando o evangelho resulta
na ruína dos ímpios.”129 Calvino afirma que os crentes da
antiga dispensação “foram exortados a buscarem a face de Deus no santuário...
(Sl 27.8; 100.2; 105.4) por nenhuma outra razão, senão porque o ensino da lei e
as exortações dos profetas eram uma imagem viva de Deus, assim como Paulo
afirma que na sua pregação a glória de Deus resplandece na face de Cristo (2 Co
4.6).”130
Benoît,
um autor reformado francês, observa que “fazer da salvação o fim da religião
significa, segundo Calvino, colocar o homem no centro e fazer de Deus um
simples meio com vistas a um fim pessoal.” Ele continua, afirmando que, para
Calvino, “a salvação individual não é o propósito final da pregação do
evangelho. Ela tem um propósito muito mais elevado: a manifestação da glória de
Deus...”131 Para o Sínodo de Dort, também, nota Peter Jong, o
propósito último da pregação “é a glória de Deus na salvação de pecadores.”132
Na
tradição puritana, o Catecismo Maior de
Westminster exorta os ministros da Palavra a pregarem... “tendo por alvo a glória de Deus.”
133 Joseph Pipa, estudioso da pregação puritana, afirma que “o
grande propósito do sermão puritano era transformar a vida das pessoas e
equipá-las para viver para a glória de Deus.”134
Embora anelasse
profundamente a conversão de almas para Cristo, Spurgeon não considerava esse o
fim maior da pregação. Ele enfatiza insistentemente que a glória de Deus, sim,
é o principal propósito da pregação. Ele escreveu que “nada deveria ser o alvo
do pregador a não ser a glória de Deus através da pregação do evangelho da
salvação.”135 “Vocês e eu,” disse ele em um de seus sermões,
“somos constrangidos a pregar o evangelho, mesmo que nenhuma alma jamais seja
convertida por ele; pois o grande propósito do evangelho é a glória de Deus,
visto que Deus é glorificado mesmo naqueles que rejeitam o evangelho.”136 “Preguem
o evangelho tendo em vista unicamente a glória de Deus,” adverte Spurgeon, “ou
então, segurem suas línguas.”137
V.
conclusão
Em muitos círculos
evangélicos contemporâneos e até mesmo entre reformados, o surgimento de novos
meios de comunicação, a aversão do homem moderno por verdades objetivas, a
secularização da sociedade, o afastamento do cristianismo das Escrituras, e
especialmente a concepção moderna da pregação como uma atividade meramente
humana, têm resultado em evidente declínio
da pregação. Outras atividades têm tomado o seu lugar no culto, e a pregação
têm sido relegada a um plano secundário no culto e na vida da igreja.
Na concepção reformada,
entretanto, a pregação pública da Palavra de Deus é considerada não como
palavra de homem, mas como vox Dei.
Na proclamação solene da Palavra de Deus por arautos comissionados pelo próprio
Deus, Cristo se faz presente, fala e governa a igreja. A fé reformada tem uma
concepção quase que sacramental da pregação. Ela professa a real presença
espiritual de Cristo na pregação, assim como na Ceia.
Em
virtude dessa elevada concepção quanto à sua natureza, a teologia reformada
atribui grande importância à pregação. Na teologia reformada, a pregação é
imprescindível. É o principal meio de graça, a tarefa primordial da igreja e do
ministro, o principal elemento de culto na dispensação da graça; constitui-se
em marca essencial da verdadeira igreja, e meio pelo qual o reino de Deus é aberto
ou fechado aos pecadores. Isto não significa que a fé reformada atribua
eficácia automática à pregação. A eficácia da pregação também não está,
primordialmente, nas habilidades pessoais do pregador ou dos ouvintes. Está,
sim, na operação do Espírito Santo, tanto na preparação e entrega da mensagem,
como na sua recepção. Os pregadores devem laborar na interpretação da Palavra,
e transmiti-la fielmente. Os ouvintes, devem receber com atenção, reverência,
fé e obediência a palavra pregada. Contudo, somente o Espírito Santo pode
conferir eficácia à pregação, assistindo e capacitando o pregador, e iluminando
e convencendo os ouvintes do pecado e da graça de Deus em Cristo.
Não obstante,
independentemente da resposta dos ouvintes, a genuína pregação do evangelho
nunca é vã. O reino de Deus é promovido também na condenação dos réprobos.O
propósito da pregação reformada consiste na fidelidade ao sentido, significado
e propósito do texto; na conversão e restauração da imagem de Deus nos
ouvintes; e na promoção do reino e da glória de Deus no mundo. Que a vox Dei seja ouvida em nossos púlpitos,
para a conversão dos perdidos, para a restauração da imago Dei na alma e na vida dos ouvintes, com vistas à promoção do
reino e da glória de Deus no mundo.
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