Finalmente chegamos ao
ponto onde você trata do texto que usei para provar que o "livre-arbítrio"
é falso.
Argumento
1: Gênesis 6.3: "O meu espírito não agirá para sempre no homem, pois este
é carnal".
Em primeiro lugar, você
argumenta que a palavra "carnal", neste verso, significa a fraqueza
humana. Todavia, o sentido desse termo é o mesmo de 1 Coríntios 3.1-3, onde
Paulo chama os coríntios de "carnais" ou "mundanos". Paulo
não está se referindo à fraqueza, mas à corrupção. No trecho citado, Moisés
está se referindo a homens que se casavam movidos por mera concupiscência, os
quais estavam enchendo a terra de violência, ao ponto em que o Espírito de Deus
não podia mais suportá-los. Você observará que, nas Escrituras, sempre que a
palavra "carne" é contrastada com a palavra "espírito", ela
significa tudo aquilo que se opõe ao Espírito de Deus. Somente quando a palavra
"carne" é usada isoladamente é que se refere ao corpo físico. À vista
disto, essa passagem tem o seguinte significado: "Meu Espírito, que está
em Noé e em outros homens santos, repreende os ímpios através da Palavra
pregada, e através de suas vidas piedosas. Porém, isso é inútil, pois os ímpios
estão cegos e endurecidos pela carne; e, quanto mais são julgados, piores se
tornam". Isso sempre acontece, e é óbvio que, se os homens vão de mal a
pior, mesmo quando o Espírito de Deus opera entre eles, então, são totalmente
impotentes sem o Espírito. O "livre-arbítrio" não pode fazer nada
além de pecar.
Em seguida, você nos
informa que o texto não se refere a todos os homens, mas somente àqueles que
viveram naquela época. Mas, tal interpretação não é válida, pois Cristo afirmou
acerca de todos os homens: "O que é nascido da carne, é carne..." (Jo
3.6). E Jesus acabara de sublinhar a seriedade dessa condição, ao dizer:
"...se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo
3.3).
Por fim, você assevera
que o texto não salienta o juízo de Deus, mas a sua misericórdia. Porém, tudo
quanto você precisa fazer é ler o que vem antes e depois do texto. Não pode
haver dúvida de que estas são as palavras de um Deus indignado. Portanto, esse texto
se opõe ao "livre-arbítrio" e demonstra que no homem não há poder
para fazer o bem, mas somente para merecer o juízo de Deus.
Argumento
2: Gênesis 8.21: "...porque é mau o desígnio íntimo do homem, desde a sua
mocidade..." Ver também Gênesis 6.5: "...era continuamente mau todo
desígnio do seu [do homem] coração".
Você procura esquivar-se
do sentido evidente desse texto, ao dizer que há uma disposição para o mal na
maioria das pessoas, mas que isso não lhes furta a liberdade da vontade. No
entanto, Deus fala aqui sobre todos os homens e não somente acerca da maioria
deles. Desde o dilúvio Deus está dizendo que não mais trataria os homens
conforme eles merecem ser tratados. Se os tratasse assim, nenhum deles seria
salvo. Tanto antes quanto após o dilúvio, Deus declarou que todos os homens são
maus, e não apenas alguns deles. Você parece considerar o pecado no homem como
coisa de pequena importância, como se fosse algo que pudesse ser facilmente
corrigido. Entretanto, essa passagem está dizendo que toda a energia da vontade
humana está em praticar o mal. Por que você não examina o texto hebraico
original? Moisés de fato escreveu: "E viu o Senhor que a maldade do homem
se multiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu
coração era só má continuamente" (Gn 6.5). Isso não é meramente uma
tendência para o mal. Deus ensina que coisa alguma, senão a malignidade, é concebida
ou imaginada pelo homem, durante toda a sua vida. No entanto, você poderia
retrucar: "Nesse caso, por que Deus dá ao homem tempo para arrepender-se,
se o homem não é capaz de arrepender-se?" A resposta, conforme já
reiteramos antes, é que o fato de Deus nos dar mandamentos não implica
nossa capacidade para obedecer. Deus nos diz qual é nosso dever, não a fim de
provar que podemos observá-lo, mas a fim de humilhar-nos, até que admitamos
nossa incapacidade!
Argumento
3: Isaías 40.1,2: "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai
ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que
a sua iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor por
todos os seus pecados".
Esta passagem significa
que o perdão de Deus é dado àqueles que são totalmente incapazes de obtê-lo ou
merecê-lo em qualquer sentido. Você, entretanto, discorda disso. Insiste que o
que está em pauta é a vingança de Deus contra os nossos pecados, e não a sua
graça. Contudo, quando voltamo-nos para o Novo Testamento, descobrimos que esse
trecho fala sobre o perdão do pecado, proclamado pelo evangelho! Analisemos o
texto.
Suponho que a palavra
"consolo" não signifique a execução do julgamento de Deus! Em seguida
o texto diz: "Falai ao coração de Jerusalém..." Isso significa: Dizei
a Jerusalém palavras de amor — doces e gentis. Além disso, as palavras "..
.tempo da sua milícia'' referem-se ao terrível peso da luta para se merecer o
perdão, através da obediência à lei (At 15.7-10). Esse tempo havia chegado ao
fim por causa do perdão gratuito de Deus. Aquele povo já havia recebido
"em dobro", da mão do Senhor, o que quer dizer que receberam tanto a
remissão dos pecados quanto o livramento da terrível carga imposta pela lei.
Por isso se lê que o perdão envolvia "todos os seus pecados", o que
dá a entender que aquele povo caracterizava-se pelo pecado e nada mais que o
pecado. Acrescente-se a isso que a graça não é a recompensa pelas tentativas do
"livre-arbítrio". A graça divina é concedida apesar do pecado e de
tudo quanto ele merece.
Argumento
4: Isaías 40.6,7: "Uma voz diz: Clama; e alguém pergunta: Que hei de clamar?
Toda a carne é erva, e toda a sua glória como a flor da erva; seca-se a erva, e
caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor.
No verdade o povo é erva".
Você diz que a palavra
"hálito", nesse trecho bíblico, indica a ira de Deus, e que a palavra
"carne" indica a fraqueza do homem que não dispõe de qualquer poder
contra Deus. Mas, será que a ira de Deus não teria outra coisa para atacar,
senão a infeliz debilidade humana? Ou, pelo contrário, o homem não deveria ser
fortalecido?
Depois disso, você
afirma que as palavras "flor da erva" significam a glória que se
deriva da prosperidade quanto às coisas materiais. Mas, é impossível que tal
interpretação esteja correta. Os judeus gloriavam-se de seu templo, circuncisão
e holocaustos. Os gregos gloriavam-se em sua sabedoria. Portanto, o que é
disperso pelo sopro do Espírito de Deus é a assim chamada "justiça pelas
obras", bem como a sabedoria humana. Isso é confirmado pela alusão que
Isaías faz a "toda a carne". Somente algumas pessoas gloriam-se na
prosperidade material, mas todos os homens, mui naturalmente, jactam-se de
seus feitos e de sua sabedoria.
A essa altura, é
importante darmos atenção ao trecho de João 3.6: "O que é nascido da
carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Esse texto
mostra-nos, claramente, que tudo aquilo que não nasceu do Espírito de Deus é
carne. Isso não quer dizer que somente uma porção, ou mesmo uma grande porção
do homem natural consiste em carne. E certamente também não significa que a
porção mais excelente do homem seja a sua carne. Antes, significa claramente
que todos os homens destituídos do Espírito de Deus são "carne", e,
por conseguinte, estão sujeitos ao julgamento de Deus.
Você pensa que isso não
é verdade. Acredito que existem alguns homens que prefeririam morrer mil vezes,
a praticarem um ato vil, ainda que fosse às ocultas e que Deus os viesse a
perdoar. O fato é que você continua olhando somente para atos externos. Você
precisa olhar para o coração humano. Mesmo que tais pessoas existissem, elas
estariam operando para a sua própria glória, visto que, à parte do Espírito
Santo, não teriam qualquer desejo de glorificar a Deus com as suas ações.
Você também indaga se
tudo quanto é chamado "carne", necessariamente precisa ser
considerado ímpio. E eu respondo: Sim. Um homem é ímpio se ele está sem o
Espírito de Deus. As Escrituras ensinam que o Espírito é dado com a finalidade
de justificar o ímpio. Jesus disse que quem nasceu da carne não pode ver o
reino de Deus. Não existe um estágio intermediário entre o reino de Deus e o
reino de Satanás. Se alguém não faz parte do reino de Deus, certamente faz
parte do reino de Satanás.
Em seguida, você
pergunta: "Como posso ensinar que o homem não é nada, além de carne, mesmo
quando é nascido do Espírito?" Onde você sonhou com tal coisa? Eu
estabeleço uma clara distinção entre "carne" e "Espírito".
O homem que não nasceu do Espírito, é carne. A pessoa que nasceu do Espírito, é
espírito — exceto apenas por aqueles elementos da natureza carnal que ainda
restaram para perturbá-la.
Argumento
5: Jeremias 10.23: "Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o
seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos".
Uma vez mais, você
distorce o claro sentido do texto. Você afirma que essas palavras significam
que Deus, e não o homem, é o causador de acontecimentos que têm um final
feliz, e que isto nada tem a ver com a idéia do "livre-arbítrio".
Mas, porventura, as palavras de Jeremias precisam de qualquer explicação? É
óbvio que Jeremias simplesmente quis dizer que a obstinação do povo, ao
rejeitar a Palavra de Deus, o havia convencido de que o homem por força
própria, é incapaz de praticar o que é direito.
Porém, mesmo supondo que
a sua idéia esteja correta. Que benefício procede dela? Pois, se um homem não
pode fazer os meros eventos naturais terminarem de modo feliz, como poderia
fazer qualquer coisa proveitosa no que concerne ao seu destino espiritual?
Você ainda argumenta que
muitas pessoas reconhecem a sua necessidade da graça de Deus para viverem corretamente,
afirmando que elas buscam essa graça orando diariamente pela ajuda divina, e
que, ao assim fazerem, estão lançando mão do esforço humano. Mas, nem por isso
você está comprovando o poder do "livre-arbítrio". Pois quem
solicitará a ajuda do Senhor, senão aqueles em quem habita o Espírito Santo?
Aquele que ora, assim o faz pelo Espírito de Deus (Rm 8.26,27).
Argumento
6: Provérbios 16.1: 'O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa
dos lábios vem do Senhor".
Você pretende que essa declaração
também faça alusão apenas aos acontecimentos comuns da vida. E uma vez mais
retruco que mesmo que você estivesse com a razão, isso tornaria ainda mais
difícil para nós podermos decidir, por nós mesmos, nosso destino espiritual. E
o fato que tudo quanto acontecerá no futuro está decidido por Deus, deveria
produzir dentro em nós o temor do Senhor.
Você vincula essa
passagem a outros dois trechos extraídos do livro de Provérbios. Provérbios
16.4: "O Senhor fez todas as
cousas para determinados fins, e até o perverso para o dia da calamidade''.
Você faz bem ao salientar que tais palavras significam que Deus nunca criou
qualquer criatura má. Bravo! Eu nunca disse que Ele fez tal coisa!
Provérbios 21.1:
"Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o
inclina". Você comenta que a palavra "inclina" não significa
"compele". E também, diz que o rei inclina-se para o mal pela
permissão divina, a qual deixa o rei dar vazão às suas paixões. Porém, não
importa se você entende isso como sendo a permissão de Deus, ou a inclinação
efetuada por Ele; continua sendo verdade que nada acontece fora da vontade
e da operação de Deus. O texto refere-se a apenas um homem — o rei. O que é
verdade acerca do rei, é verdade acerca de todos os demais homens.
Argumento
7: João 15.5: "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu
nele, esse dá
muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer".
Esse foi o texto, acerca
do qual eu disse que ninguém seria capaz de fugir, porém você se aproveita da
palavra "nada", para destruir seu significado. Você declara que
"nada" significa nada "perfeitamente", a fim de que o texto
sagrado diga: ".. .porque sem mim nada podeis fazer perfeitamente". A
questão, porém, não é se esse texto pode significar isso, mas se ele realmente
significa tal coisa. De acordo com a sua explicação, sem Cristo podemos
fazer "um pouco, mesmo que imperfeitamente". Desse modo, suponho que
quando João 1.3 diz: "...sem ele nada do que foi feito se fez", isto
significa: "...sem ele, foi feito um pouco, mesmo que
imperfeitamente". Quanta ignorância! É extremamente perigoso manusear
assim as Escrituras. Não é essa a maneira de chegar a consciência dos homens.
Fique, portanto, claro que, nesse trecho, "nada" significa
"nada".
Sob o domínio de
Satanás, a vontade do homem nem mais é livre, nem tem domínio próprio; antes, é
escrava do pecado e de Satanás, só podendo desejar o que seu príncipe lhe
determina. Você ignora o que se lê em seguida nesse trecho: "Se alguém não
permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo, e secará; e o
apanham, lançam no fogo e o queimam" (Jo 15.6). O homem, fora de Jesus
Cristo, é totalmente
inaceitável diante de Deus, e seu destino é ser lançado no fogo eterno.
Não posso compreender
por que você também cita 1 Coríntios 13.2 em apoio à sua posição. "Ainda
que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a
ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não
tiver amor, nada serei". Se alguém está destituído do amor, sinceramente,
ele nada representa diante de Deus, porquanto esse amor é um dom da graça. A
questão, enfim, resume-se no seguinte: "nada" significa nada, e
nada é capaz de alterar isso! À parte da graça, o homem nada pode fazer. O
"livre-arbítrio" nada pode fazer e nada é.
Argumento
8: A cooperação do homem com Deus não comprova o "livre-arbítrio".
Você se utiliza de um
bom número de ilustrações que descrevem a cooperação do homem com as operações
divinas. Por exemplo: "o agricultor faz a colheita, mas é Deus que a
dá". É óbvio que tenho plena consciência da cooperação do homem com Deus,
mas isso nada prova a respeito do "livre-arbítrio". Deus é
onipotente. Ele exerce total controle sobre tudo quanto Ele mesmo criou. E isso
inclui os ímpios, os quais, à semelhança daqueles a quem Deus justificou e
transportou para o seu reino, cooperam com Deus neste mundo. Todos os homens
precisam seguir e obedecer aquilo que Deus intenciona que eles façam.
O homem em nada
contribuiu para a sua própria criação. E, uma vez criado, o homem não faz
qualquer contribuição para permanecer dentro da criação de Deus. Tanto a sua
criação como a sua contínua existência são inteira responsabilidade do soberano
poder e bondade de Deus, que nos criou e preserva sem qualquer ajuda nossa.
Antes de ser renovado,
para fazer parte da nova criação do reino do Espírito, o homem em nada
contribui para preparar-se para essa nova criação e reino. Por semelhante modo,
quando ele é recriado, em coisa alguma contribui para ser conservado nesse
reino. Somente o Espírito de Deus tanto nos regenera quanto nos preserva, sem
qualquer ajuda de nossa parte. É como Tiago diz: "Pois, segundo o seu
querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias
das suas criaturas" (Tg 1.18). Tiago está falando a respeito da nova
criação. Não obstante, Deus não nos regenera sem que tenhamos consciência do
que está sucedendo, porque Ele nos recria e preserva precisamente com esse
propósito: que venhamos a cooperar com Ele.
E o que é atribuído ao
"livre-arbítrio" em tudo isso? Que resta para o
"livre-arbítrio"? Nada! Absolutamente nada!
Conclusão
Nesta controvérsia, não
quero gerar mais calor do que luz. Porém, se cheguei a argumentar
demasiadamente forte, reconheço a minha falta; se é que houve falta. Mas, não!
Tenho a certeza de que o testemunho desta minha conduta é levado ao mundo em
defesa da causa de Deus. Que Deus confirme este testemunho no Último Dia! Quem
poderia sentir-se mais feliz do que eu? — aprovado pelo testemunho de outros,
de haver defendido a causa da verdade, sem preguiça, nem enganosamente, mas com
vigor suficiente e de sobra!
Se pareci por demais
áspero contra você, Erasmo, peço-lhe que me perdoe. Não agi assim movido por má
vontade, mas a minha única preocupação era que, devido à importância do seu
nome, você estivesse danificando a causa de Cristo. E quem pode governar sempre
a sua pena, especialmente na ocasião de demonstrar zelo? Você mesmo,
freqüentemente, lança dardos inflamados contra mim. Mas essas coisas não pesam
realmente no debate, e nós, que participamos dele, devemos perdoar-nos
mutuamente por causa dessas coisas; somos apenas homens, e nada existe em nós
que não faça parte das características da humanidade. Que o Senhor, a quem pertence
esta causa, abra os seus olhos e o ajude a glorificá-Lo. Amém.
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