sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O Que Lutero Pensava Sobre o Ensino de Erasmo

Argumento 1: O método de Erasmo.
Você procura infundir medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que supostamente dão apoio à idéia do "livre-arbítrio". Em seguida, procura fazer­mos parecer tolos ao sugerir que só dispomos de dois textos bíblicos para nos apoiarmos: Êxodo 9.12 e Malaquias 1.2,3. Você não parece ter ficado, de modo algum, impressionado pelo manuseio desses textos por Paulo, em Romanos 9!
Entretanto, tomarei esses dois textos para mostrar o fortíssimo apoio bíblico de que dispomos.


Argumento 2: Como Erasmo torce os textos.
Você criou uma nova maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Você insiste que os textos que se manifes­tam claramente contrários à idéia do "livre-arbítrio" devem ter alguma "explicação" que traz à tona o seu verdadeiro sentido. E nós devemos insistir que tal "explicação" só se torna necessária quando é absurdo manter o sentido literal de alguma passagem bíblica. Em todos os demais casos, devemos aceitar o sentido simples e natural das palavras, guiados pelas regras de gramática e de hábitos de linguagem que Deus criou entre os homens. Se agirmos de outro modo, nada mais restará sobre o que possamos ter qualquer certeza. Não basta afirmar que uma "explicação" deve ser necessária. Em cada caso, compete-nos indagar se existe a necessidade, ou se deve haver uma "explicação". Se não puder ser pro­vado que isso se faz necessário, nada se terá conseguido. Um exemplo de suas' 'explicações " é sua abordagem de Êxodo 4.21: "... eu lhe (do Faraó) endurecerei o coração Você diz que essas palavras provavelmente significam: "Per­mitirei que o coração do Faraó seja endurecido". E isso, segundo seu entender porque algumas vezes dizemos algo como "eu te arruinei", quando, na realidade, queremos dizer: "Não te corrigi, quando estavas errado". Entretanto, o sentido daquelas palavras é óbvio e claro. Elas não pre­cisam de qualquer "explicação". A Palavra de Deus deve ser interpretada em seu sentido mais claro, naquele que as próprias palavras transmitem. Não nos compete reescrever as palavras do Senhor, a nosso bel-prazer, ou nos desco­briremos "explicando" as palavras "Deus criou os céus e a terra", para que digam: "Ele os pôs em seus devidos lugares, todavia não os criou do nada"! Apoiar essa prática, significaria que qualquer pessoa no mundo poderia tornar-se um teólogo, tão logo quanto abra sua Bíblia.


Argumento 3: "Explicação" de Erasmo sobre o endureci­mento do coração do Faraó.
Você interpreta as palavras: "...eu lhe endurecerei o cora­ção...", como se elas significassem: "Minha longanimidade, mediante a qual tolero o pecador, e que leva outros ao ar­rependimento, faz apenas com que Faraó torne-se cada vez mais obstinado em sua impiedade". Você trata Romanos 9.18 e Isaías 63.17 da mesma maneira. Entretanto, eu tenho apenas a sua palavra de que essas são as explicações corretas. É verdade que você cita Orígenes e Jerônimo, mas quem pode convencer-me de que eles estavam com a razão?
Em suma, o resultado da sua "explicação" é inverter o sentido desses textos. Deus diz: "Endurecerei o coração de Faraó". Você faz Deus dizer: "Faraó endurecerá o seu próprio coração". E atribui o endurecimento do coração do Faraó à misericórdia divina. Se você continuar assim, terminará por transformar a misericórdia de Deus em ira e a ira de Deus em misericórdia. Naturalmente, sabemos que a misericórdia de Deus pode produzir o endurecimento do coração de algumas pessoas, assim como a sua ira. Sabemos também que a misericórdia de Deus abranda alguns corações, assim como a sua ira. Todavia, isso não é desculpa para agora confundirmos a ira de Deus e a misericórdia de Deus.
Ele disse que endureceria o coração do Faraó, e então o afligiu e castigou com dez pragas. E você quer transformar essas pragas em atos da misericórdia de Deus! Que idéia mais ultrajante poderia ser ouvida do que essa? A misericórdia de Deus se manifestou também quando Ele suspendeu vez após vez cada praga, quando o Faraó parecia ter-se arre­pendido; porém aquelas pragas foram o meio usado por Deus para castigar o Faraó, e endurecer seu coração.
Suponhamos que Deus endureça corações quando exerce a sua longanimidade, deixando de dar o imediato castigo. Ainda assim os corações dos homens não serão abrandados senão pelo Espírito do Senhor. Portanto, não importa qual processo seja usado, os corações são endure­cidos segundo a vontade de Deus e também são abrandados por ela.
Você diz: "Assim como sob os mesmos raios de sol a lama é endurecida e a cera derretida; e, após as mesmas chuvas, o terreno cultivado produz fruto, e o terreno sem cultivo produz espinhos, assim também, mediante a mesma longanimidade de Deus, alguns homens são endurecidos, e outros se convertem". Entretanto tal ilustração em nada ajuda a confirmar sua posição. Você garante que todas as pessoas são idênticas — todas possuem "livre-arbítrio". Todavia é a eleição por Deus que estabelece a distinção entre os homens. Sem a eleição divina, todos estão livres apenas para desafiar a Deus. Mas, você afirma que não há eleição. O resultado disso é que você está diante de um Deus impotente, e homens e mulheres estão sendo salvos ou condenados sem o conhecimento dEle. Ele meramente exibe diante deles a sua bondade. Em seguida, Ele nada mais pode fazer, senão, talvez, ir participar de algum banquete! Isso é o máximo que a razão humana pode conceber. Porém o que você fez foi confundir toda a questão, criando dois tipos de "livre--arbítrio", um representado pela cera e pela lama, e outro pelo terreno cultivado e o sem cultivo. Essas ilustrações são inúteis para você. Só fariam sentido se comparássemos o evangelho com o sol e com a chuva. E se comparássemos os eleitos com a cera a o terreno cultivado; e os não-eleitos com a lama e com o terreno sem cultivo. Os não-eleitos são feitos piores, depois de ouvirem o evangelho, e os eleitos melhores, após ouvi-lo.
Você inventou a "explicação" de que o Faraó endu­receu o seu próprio coração em face da bondade de Deus, porque, segundo você afirma, é absurda a idéia de que um Deus que é bom pudesse ter feito isso. Mas, quem diz que essa idéia é absurda? Somente a razão humana sente-se ofendida diante de tal idéia. Compete-nos aquilatar as ações divinas mediante a razão humana, a qual é cega, surda e ímpia? Com base em tais alicerces, a fé cristã inteira é absurda. Conforme Paulo diz, em 1 Coríntios 1.23, é uma loucura para os gentios e uma pedra de tropeço para os ju­deus, que Deus pudesse ser um homem, filho de uma virgem, crucificado e se assentasse à mão direita do Pai. Pela razão humana, é certamente absurdo acreditar em tais coisas.
Porém, seja como for, você não esclareceu a questão, ao asseverar que o homem é o responsável pelo endurecimento de seu próprio coração. Ainda precisa explicar-nos como é que Deus pode exigir que o "livre-arbítrio" faça coisas im­possíveis. Como é que Deus poderia acusar o "livre-arbítrio" de pecaminoso se o mesmo não pode agir de maneira dife­rente? Você apela para a razão humana. Essas coisas são igualmente absurdas para a razão humana.
Permanece o fato que a atuação de todo o "livre--arbítrio" no mundo não poderá jamais impedir que os homens endureçam os seus corações, sem que haja a operação do Espírito Santo.
Você tem dito que Deus não pode ter feito do Faraó o homem corrupto que ele era, pois Deus viu que tudo quanto fizera era bom. Porém esta é obviamente uma refe­rência à criação original de Deus antes da Queda. A partir de então, todos nós, incluindo o Faraó, pertencemos a uma raça ímpia e corrompida. E mesmo que essas palavras façam alusão às obras de Deus após a Queda, elas referem-se à maneira como Deus vê as coisas, e não os homens. Muitas coisas que são boas aos olhos de Deus, são más aos nossos olhos. Por exemplo: as aflições, as tristezas, os erros, o inferno, e todos os mais excelentes feitos de Deus parecem maus aos olhos do mundo. O evangelho é o melhor de todos esses feitos e não há nada, entretanto, que o mundo odeie mais.


Argumento 4: O uso que Deus faz da natureza humana.
Algumas pessoas talvez queiram saber como Deus produz em nós maus efeitos, endurecendo-nos, entregando-nos aos nossos desejos e levando-nos a praticar o erro. Devemos, entretanto, nos contentar com aquilo que a Bíblia nos diz.
A minha resposta é que à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos. Imagine um homem que esteja andando em um cavalo com apenas duas ou três pernas saudáveis. Sua cavalgada corresponderá ao que seu cavalo é capaz. Se o cavalo vai mal, o que pode fazer o cavaleiro? O tal homem está cavalgando em companhia de homens com cavalos sãos; embora os demais estejam se saindo bem, seu cavalo estará limitado na sua enfermidade, enquanto não for curado.
Portanto, você vê que, quando Deus faz coisas através de homens maus, coisas más acontecem. O próprio Deus, entretanto, não pode fazer o mal. Deus é soberano. O homem ímpio é uma criatura de Deus, sujeito ao controle divino. Deus não suspende a sua soberania, só por causa da vileza do homem. O ímpio não pode alterar a sua condição. Como resultado, o homem não pode deixar de pecar e de continuar em seu caminho desviado, a menos que, e até que, seja endireitado pelo Espírito de Deus.


Argumento 5: Método usado por Deus para endurecer o homem.
Os ímpios não se interessam por agradar a Deus. Interessam--se apenas em agradar a si mesmos. Eles odeiam e lutam contra qualquer coisa que os impeça de desfrutar de seus desejos egoístas. Isso se verifica, especialmente, quando os ímpios são confrontados com o evangelho. No evangelho, Deus põe uma barreira aos desejos distorcidos dos homens, bem como ao egocentrismo deles, de tal modo que tornam-se amargos e contrários a Deus e à sua Palavra.
Deus não cria uma nova maldade nos corações dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra nos corações deles, visando os seus próprios, bons e sábios de­sígnios. Em 2 Samuel 16.10, Davi declara acerca de Simei: "Ora, deixa-o amaldiçoar; pois se o Senhor lhe disse: Amal­diçoa a Davi, quem diria: Por que assim fizeste?" Entretanto, Deus não dera qualquer mandamento para que Simei amal­diçoasse a Davi. Antes, a ação soberana de Deus assegurou que a já maligna vontade de Simei faria aquilo que lhe era natural, no momento e no lugar tencionados por Deus.


Argumento 6: Endurecimento do coração do Faraó, por parte de Deus.
Tendo essas coisas em mente, voltemos ao caso do Faraó. Deus não transformou a natureza do Faraó, por meio do seu Espírito Santo. A vontade do Faraó permaneceu ímpia e maligna. O Faraó estava plenamente seguro de sua grandeza e autoridade. Assim, quando Deus apresentou algo que o ofendia e irritava, ele não pôde evitar de reagir de maneira maldosa. Ele foi ficando mais e mais obstinado, recusando-se a dar ouvidos à razão.
As palavras das Escrituras precisam ser compreendidas de conformidade com o seu sentido claro e evidente. Quando Deus disse: "Endurecerei o coração de Faraó", Ele estava dizendo: "Farei com que o coração do Faraó se endureça". Deus, com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que o coração do Faraó se en­dureceria. Com idêntica certeza, Deus sabia que o Faraó não poderia impedir as ações divinas contra si. E Deus igual­mente sabia que indubitavelmente, como resultado disso, o Faraó tornar-se-ia pior. Uma vontade maligna pode querer somente fazer o mal. Mesmo quando Deus traz algum bem para exercer uma influência benéfica — como no caso do evangelho — a vontade maligna só pode tornar-se pior, torna--se mais endurecida.
Por que Deus não cessa de fazer pressão que, certa­mente, produzirá maus resultados? Isso é o mesmo que pedir a Deus que deixe de ser Deus. Não podemos, realmente, imaginar que Deus deixará de fazer o bem, somente porque os ímpios sempre reagirão adversamente.
Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como o Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis (Rm 11.33). Se alguém que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão, e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos também perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou. A única alternativa é estabelecer um outro criador, superior a Deus!
Retornemos ao texto. Você ignora o sentido claro do texto porque não o aprecia, e em seguida apresenta a sua própria "explicação". Todavia sempre devemos examinar um texto à luz do seu contexto, para descobrir o alvo e o propósito do autor. O sentido claro é que Deus teria endure­cido o coração do Faraó por meio das pragas. Mas você diz que esse endurecimento ocorreu por intermédio da longanimidade de Deus, e não para a imediata punição do Faraó. No entanto, consideremos o contexto. Deus tinha esperado pacientemente por longo tempo, enquanto o Faraó estava infligindo grande sofrimento sobre os filhos de Israel. Obvia­mente que, quando o Senhor disse que endureceria o coração do Faraó, tencionava algo diferente — uma mudança em sua longanimidade e não a continuação da mesma atitude longânima. Sabemos por que houve uma modificação na atitude de Deus. Deus tencionava livrar o seu povo da ser­vidão do Egito. Queria dar ao seu povo razões adicionais para confiarem nEle. A resistência do Faraó atrairia mais pragas e cada nova praga demonstraria o poder de Deus. E não somente isso; a cada nova praga, Moisés registra que o coração do Faraó se endurecia, conforme o Senhor havia dito. E isso servia para maior fortalecimento da fé dos israelitas em Deus.
Você deseja que o Faraó tenha um arbítrio que é li­vre para submeter-se ou para rebelar-se, e também insiste que esse texto indica que o Faraó endureceu o seu próprio coração, não Deus. Mas veja o que isso significaria. Deus seria dependente do "livre-arbítrio" do Faraó e não poderia ter dito com antecedência, a Moisés e aos israelitas, o que aconteceria. Porém, conforme a sucessão dos fatos, Deus endureceu o coração do Faraó. Deus levou o Faraó à ação e o Faraó não pôde agir senão em harmonia com a sua própria natureza maligna. Assim vemos que essa passagem não pode ser usada para apoiar, mas apenas para argumentar forte­mente contra o "livre-arbítrio".


Argumento 7: Abordagem de Erasmo sobre Romanos 9.15-33.
Você está terrivelmente atormentado por essa passagem. Está determinado a defender o "livre-arbítrio" a qualquer preço, e assim, acaba dizendo toda a sorte de coisas contraditórias, especialmente acerca da presciência de Deus. Esclareçamos isso. Por exemplo, Deus sabia de antemão que Judas Iscariotes haveria de ser um traidor, por conseguinte, Judas tinha de ser um traidor. Judas não tinha capacidade de agir de outro modo. Obviamente, Judas agiu espontânea e livremente, em harmonia com sua própria natureza. Deus sabia de antemão que Judas estava predisposto a agir e trouxe a ação dele à cena, no momento determinado.
Em nada lhe ajuda falar sobre a chamada presciência humana, porquanto ela fica muito aquém da presciência per­feita de Deus. Sabemos, por exemplo, quando um eclipse acontecerá. Mas tal eclipse não acontece porque o prevíramos. Porém, quando Deus prevê alguma coisa, ela acontece porque Ele assim previra. Se você não aceita isso, mina todas as ameaças e promessas de Deus. Você nega o próprio Deus.
Em dado momento, você teve o bom senso de admitir que Paulo ensina que Deus quer aquilo que prevê, e que aquilo obrigatoriamente acontece. Mas então, você estraga tudo, dizendo que acha isso difícil de aceitar. Assim, tenta escapar dessa conclusão, afirmando que Paulo não explicou o ponto, mas somente repreendeu quem estava argumentando com ele (Rm 9.20). Não é essa a forma de manusear os textos sagrados. Um exame do texto mostrará que Paulo explica a questão. De fato, não teria havido razão alguma para a reprimenda, se não houvesse pessoas argumentando contra a sua explanação. Paulo cita Êxodo 33.19: "Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer". Em se­guida, o apóstolo explica que os atos divinos de misericórdia ou de endurecimento não dependem, em coisa alguma, da vontade do homem, mas, exclusivamente, do próprio Deus. Paulo deixou claro que a presciência de Deus determina as ações realizadas pelos homens. Naturalmente, se tentarmos provar tanto a presciência de Deus como o "livre-arbítrio" humano, ao mesmo tempo, teremos problemas — como tentar demonstrar que certo algarismo é, ao mesmo tempo, um nove e um dez!
A repreensão de Paulo é para aqueles que se ofendem com a palavra clara que ninguém é possuidor de "livre--arbítrio", e de que todas as coisas dependem exclusivamente da vontade de Deus. É este o momento para adorar a ma­jestade do Senhor, em sua imponência e notáveis julgamentos e dizer: "...faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6.10).


Argumento 8: A razão natural deve admitir a soberania da vontade de Deus.
A razão natural precisa admitir que Deus seria uma divindade muito débil e patética se a sua presciência fosse indigna de confiança, e se pudesse ser contrariada pelos acontecimentos. Naturalmente, os homens objetarão ao pensamento que Deus, que é bom, os possa abandonar, endurecer e condenar, como se Ele tivesse prazer com os pecados e tormento eterno deles. Já tropecei, eu mesmo, nesse ponto por mais de uma vez, caindo no mais profundo poço de desespero, desejando nunca ter nascido. (Isso sucedeu antes de eu reconhecer quão sau­dável é esse desespero, e quão próximo ele está da graça divina.) Essa é a razão pela qual os homens têm tentado encontrar "explicações" e manter seus próprios raciocínios, em detrimento do que é plenamente ensinado pela Palavra de Deus.
Porém, mesmo que os raciocínios da incredulidade se sintam ofendidos, eles são forçados a admitir a soberania da vontade de Deus, ainda que a Bíblia não existisse, porquanto duas coisas estão gravadas nas consciências dos homens — o fato que Deus é soberano e que Ele conhece de antemão todas as coisas, sem exceção ou equívoco.


Argumento 9: Romanos 9.15-33 (continuação).
Em Romanos 9.20,21, Paulo diz que os homens são como o barro, e Deus como um oleiro. Nada poderia ser mais claro do que dizer que todo o propósito de Paulo é negar o "livre-arbítrio" humano. O ponto principal de Paulo nessa epístola é que, se no homem há poder suficiente para salvar a si mesmo, qualquer argumento em favor da graça divina é inútil. Paulo confirma isto ao dizer que Israel não alcançou a justiça por buscá-Lo, enquanto que os gentios alcançaram--na por não buscá-Lo (vv. 30,31). E ele mesmo, em Romanos 11.20,23, barra os jactanciosos do "livre-arbítrio" ao dizer que eles não são capazes de crer, mas que "Deus é poderoso para os enxertar".


Argumento 10: A soberania de Deus e o "livre-arbítrio" não podem conviver.
Temos aqui uma demonstração do seu raciocínio, Erasmo. Você diz: "No tocante à inquebrantável presciência de Deus, Judas fatalmente fo> destinado a tornar-se um traidor; mesmo assim, Judas era capaz de mudar a sua vontade". Você per­cebe o que está dizendo? Se você está certo, então Judas tinha a capacidade de alterar a presciência de Deus, fazendo-a indigna de nossa confiança. Entretanto, você não trata com o problema. Você age como um capitão que conduz o seu exército até ao campo de batalha, para então abandoná-lo quando sua ajuda é mais necessária! Você passa a falar sobre algo diferente — se a vontade do homem é perturbada pela soberania de Deus. Eu faço uma pergunta, mas você responde outra! Porém, não o deixarei escapar do anzol tão facilmente. Você precisa enfrentar seu próprio dilema. Como é que esses dois conceitos podem concordar: "Judas pode desejar não trair" e "Judas deve necessariamente desejar trair"? Não são duas idéias diretamente opostas e contraditórias?


Argumento 11: Abordagem de Erasmo sobre Malaquias 1.2,3.
Agora, precisamos voltar para o segundo dos dois textos que você admite que talvez dê apoio à minha posição sobre o "livre-arbítrio", embora você realmente negue que assim seja. Qual é o seu argumento? Lemos em Gênesis 25.23: "...eo mais velho servirá o mais moço". E a sua "expli­cação" é algo como: "Corretamente compreendida, essa passagem não diz respeito à salvação; pois Deus pode querer que um homem seja um servo e um mendigo, sem que seja rejeitado para a salvação eterna".
Que mente escorregadia tem você ao tentar escapar da verdade! Mas, você não pode escapar. Pense no uso que Paulo fez desse texto, em Romanos 9.12,13. Estaria Paulo torcendo as Escrituras, ao mesmo tempo que lançava os fun­damentos da doutrina cristã? Certamente que não! Jerônimo ousou comentar: "As coisas têm uma força, nos escritos de Paulo, que não possuem em seu contexto original". Jerônimo pode dizer tal coisa, mas isso não prova nada. Pessoas como Jerônimo nem compreendem Paulo e nem os trechos bíblicos por ele citados. Não posso concordar que o trecho de Gênesis 25.21,23 refira-se somente a uma pessoa que serve à outra; contudo, suponhamos por alguns momentos que assim fosse. Mesmo assim, podemos perceber que Paulo citou correta­mente a passagem, para demonstrar que não havia mérito nem em Jacó nem em Esaú. Paulo estava discutindo se o que foi relatado a respeito deles, foi obtido pelos méritos do "livre-arbítrio"; e mostra que não foi assim. Tudo fora determinado antes que eles nascessem.
Os comentários de Paulo sobre Gênesis 25.23 não devem ser entendidos como se envolvessem mera questão de serviço humilde. Estão envolvidas questões de salvação eterna. Jacó fez parte do povo de Deus. A promessa feita a ele incluía tudo quanto pertence ao povo de Deus — a bênção, a Palavra, o Espírito Santo, a promessa de Cristo e o reino eterno de Cristo. Isso é confirmado em Gênesis 27.27 e versículos seguintes. Por conseguinte, a nossa resposta a Jerônimo é que todas as passagens citadas pelos apóstolos têm mais força em seus contextos originais do que em seus comentários!
Como no trecho de Malaquias 1.2,3, que Paulo tam­bém cita: "Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? disse o Senhor; todavia amei a Jacó, porém aborreci a Esaú; e fiz dos meus montes uma assolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto". Você, Erasmo, tenta de três maneiras diferentes, escapar do claro sentido dessas palavras.
Na primeira, dizendo que não podemos entender li­teralmente essas palavras, porque o amor e a ira de Deus diferem do amor e do ódio humanos, não tendo neles qualquer traço das paixões humanas. Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas por que Deus ama ou odeia. Porém, visto que você prefere desviar a atenção para como Deus ama ou odeia, vejamos, por um momento, se isto colabora com a sua posição. De fato, não a ajuda em nada. O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o "livre-arbítrio" fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus espera pela reação humana, mas antecedem à mesma. Isso torna-se ainda mais claro quando perguntamos por que Deus ama ou odeia. O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada antes mesmo de terem nascido, e não havia muita atuação do "livre-arbítrio" naquela ocasião!
A sua segunda tentativa, para escapar do claro sentido das palavras, é que você diz que Malaquias não parece estar falando da ira mediante a qual somos eternamente conde­nados. Você sugere que Malaquias está falando apenas das dificuldades experimentadas aqui na terra. Uma vez mais, essa é uma sugestão caluniosa de que Paulo está usando er­roneamente as Escrituras. Novamente, vejamos se a tentativa de escapar do sentido claro das palavras ajuda a sua posição. Sem dúvida, o ponto de Paulo nesses versículos é enfatizar a completa ausência de mérito ou do exercício do "livre--arbítrio". Mesmo que Paulo esteja somente tratando com coisas experimentadas na terra, ele continua usando uma ilustração apropriada da vida de Jacó e Esaú. Seja como for, é falso sugerir que Malaquias refere-se somente a coisas experimentadas na terra. O contexto da passagem demonstra que seu propósito é repreender o povo de Israel porque eles não correspondiam ao amor que Deus tinha por eles. O amor de Deus envolvia mais do que as bênçãos terrenas, pois essa passagem mostra que o nosso Deus é o Deus de todas as coisas. Ele não se contentava em ser um Deus que recebe a adoração da metade de seus corações, a quem se oferecesse um animal doente "...o dilacerado, o coxo e o enfermo" (Ml 1.13). A verdadeira adoração a Deus devia ser prestada de todo o coração e forças. Pois Ele é Deus tanto aqui, como no mundo vindouro, em todas as ocasiões, em todas as questões, em todos os tempos e em tudo quanto se faz.
A sua terceira tentativa de evitar o pleno significado de Malaquias 1.2,3 consiste em afirmar que Malaquias quis dar a entender que Deus ama a alguns judeus e odeia a outros. Você diz que isso abre o caminho para a incredulidade por parte de alguns dos judeus, e que em vista disso eles merecem ser cortados. E também pensa que a sua "interpretação" abre o caminho para a fé de outros judeus, e que mediante essa fé eles merecem ser novamente enxertados na boa oliveira.
Você não sabe o que está falando! Sei perfeitamente bem que os homens são cortados por causa da incredulidade e enxertados pela fé, e que devem ser encorajados e motivados a crer. Entretanto, isso não tem nada a ver com crer ou não crer através do poder do "livre-arbítrio".


Argumento 12: O oleiro e o barro.
O terceiro texto que você diz que talvez dê apoio à minha posição é Isaías 45.9: "Ai daquele que contende com o seu Criador! e não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? ou: A tua obra não tem alça", ou como diz Jeremias 18.6: "...eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel". Obviamente, esses textos apóiam minha posição, mas você tenta diminuir a força deles, dizendo que o trabalho do oleiro refere-se às nossas experiências na vida terrena. Você sugere que quando o apóstolo Paulo usa esses textos, em Romanos 9, ele faz um acréscimo ao suposto sentido original deles, fazendo-os referir-se à eleição pessoal. Isso é caluniar a Paulo. Em seguida, você aumenta ainda mais sua confusão, ao referir-se a 2 Timóteo 2.20,21: "Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra".
Você afirma que Paulo estava escrevendo sobre o mesmo tema de Isaías 45.9, Jeremias 18.6 e Romanos 9. E passa a ridicularizar a idéia de um vaso de barro que se purifica a si mesmo. No entanto, diz que Paulo ordena ao vaso agir assim, e prova, para sua satisfação pessoal, que, em vista disso, o vaso representa os homens, que são dotados de "livre-arbítrio".
A minha resposta é que Paulo, em 2 Timóteo 2.20,21, não estava aludindo ao mesmo tema, como nos outros textos. Estava usando uma cena doméstica a fim de ilustrar um tema totalmente diferente — a piedade pessoal do crente. Além do mais, quem recebe ordens para agir não são meros vasos, e, sim, os crentes. Os crentes é que precisam purificar-se de tudo quanto desonra a Deus. No tocante aos vasos, alguns são honrosos e outros não, mas quem decide o uso que será dado a cada um deles é o proprietário dos mesmos, e não os próprios objetos.


Argumento 13: A justiça de Deus.
Agora você apela para o raciocínio humano. Não pode aceitar o direito que Deus tem de lançar os ímpios no fogo eterno. Conforme você sugere, isso não é razoável, porque Deus criou os ímpios conforme eles são. E assim a verdade vem à tona! Você assume a mesma postura dos queixosos, que Paulo cita, em Romanos 9.19: "De que se queixa ele [Deus] ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?" Isso posto, a razão humana demanda que Deus aja de acordo com as idéias humanas acerca do que é certo e do que é errado; e o Soberano que criou todas as coisas deve submeter-se à sua própria criação! Então, regras devem ser estabelecidas, pelas quais Deus só possa condenar aqueles que, segundo o nosso parecer, merecem ser condenados! Quando Deus salva aqueles que merecem a condenação, ninguém reclama. Mas, quando Deus os condena, ouve-se um grande protesto. Nisso se manifesta a perversidade do coração humano. Quando os homens raciocinam dessa maneira, eles estão deixando de louvar a Deus como Deus. Estão furtando de Deus o seu direito soberano. Se não poderemos compreender como um Deus justo pode salvar a homens ímpios, até que cheguemos no céu, como entenderíamos que um Deus justo pode condenar os ímpios? Não obstante, a fé continuará a crer que assim sucede, até o dia em que o Filho do homem será revelado.


Argumento 14: Paulo atribuía a salvação do homem exclusivamente a Deus.
Não há contradições nas Escrituras, senão aquelas que você cria com suas "explicações". É desse modo que as confusões surgem. Por exemplo, não existe contradição entre "se al­guém a si mesmo se purificar" (2 Tm 2.20-21) e "Deus é quem opera tudo..." (1 Co 12.6). O primeiro texto sim­plesmente esclarece o que o homem deve fazer. Isto não significa que ele tenha a capacidade para fazê-lo mediante o "livre-arbítrio", sem a ação da graça. Eu sei que você está convencido de que quando um mandamento é dado, isto implica na capacidade para obedecer. Mas isso é um contra--senso. O segundo texto estabelece claramente que todas as coisas são obras de Deus. Não há contradição. Paulo é consistente em todos os seus ensinos de que a salvação dos homens se dá exclusivamente através do poder de Deus.



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