Argumento
1: O método de Erasmo.
Você procura infundir
medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que
supostamente dão apoio à idéia do "livre-arbítrio". Em seguida,
procura fazermos parecer tolos ao sugerir que só dispomos de dois textos
bíblicos para nos apoiarmos: Êxodo 9.12 e Malaquias 1.2,3. Você não parece ter
ficado, de modo algum, impressionado pelo manuseio desses textos por Paulo, em
Romanos 9!
Entretanto, tomarei
esses dois textos para mostrar o fortíssimo apoio bíblico de que dispomos.
Argumento
2: Como Erasmo torce os textos.
Você criou uma nova
maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Você insiste que os
textos que se manifestam claramente contrários à idéia do
"livre-arbítrio" devem ter alguma "explicação" que traz à
tona o seu verdadeiro sentido. E nós devemos insistir que tal
"explicação" só se torna necessária quando é absurdo manter o sentido
literal de alguma passagem bíblica. Em todos os demais casos, devemos aceitar o
sentido simples e natural das palavras, guiados pelas regras de gramática e de
hábitos de linguagem que Deus criou entre os homens. Se agirmos de outro modo,
nada mais restará sobre o que possamos ter qualquer certeza. Não basta afirmar
que uma "explicação" deve ser necessária. Em cada caso,
compete-nos indagar se existe a necessidade, ou se deve haver uma
"explicação". Se não puder ser provado que isso se faz necessário,
nada se terá conseguido. Um exemplo de suas' 'explicações " é sua
abordagem de Êxodo 4.21: "... eu lhe (do Faraó) endurecerei o coração Você
diz que essas palavras provavelmente significam: "Permitirei que o
coração do Faraó seja endurecido". E isso, segundo seu entender porque
algumas vezes dizemos algo como "eu te arruinei", quando, na
realidade, queremos dizer: "Não te corrigi, quando estavas errado".
Entretanto, o sentido daquelas palavras é óbvio e claro. Elas não precisam de
qualquer "explicação". A Palavra de Deus deve ser interpretada em seu
sentido mais claro, naquele que as próprias palavras transmitem. Não nos
compete reescrever as palavras do Senhor, a nosso bel-prazer, ou nos descobriremos
"explicando" as palavras "Deus criou os céus e a terra",
para que digam: "Ele os pôs em seus devidos lugares, todavia não os criou
do nada"! Apoiar essa prática, significaria que qualquer pessoa no mundo
poderia tornar-se um teólogo, tão logo quanto abra sua Bíblia.
Argumento
3: "Explicação" de Erasmo sobre o endurecimento do coração do Faraó.
Você interpreta as
palavras: "...eu lhe endurecerei o coração...", como se elas
significassem: "Minha longanimidade, mediante a qual tolero o pecador, e
que leva outros ao arrependimento, faz apenas com que Faraó torne-se cada vez
mais obstinado em sua impiedade". Você trata Romanos 9.18 e Isaías 63.17
da mesma maneira. Entretanto, eu tenho apenas a sua palavra de que essas são as
explicações corretas. É verdade que você cita Orígenes e Jerônimo, mas quem
pode convencer-me de que eles estavam com a razão?
Em suma, o resultado da
sua "explicação" é inverter o sentido desses textos. Deus diz:
"Endurecerei o coração de Faraó". Você faz Deus dizer: "Faraó
endurecerá o seu próprio coração". E atribui o endurecimento do coração do
Faraó à misericórdia divina. Se você continuar assim, terminará por transformar
a misericórdia de Deus em ira e a ira de Deus em misericórdia. Naturalmente,
sabemos que a misericórdia de Deus pode produzir o endurecimento do coração de
algumas pessoas, assim como a sua ira. Sabemos também que a misericórdia de
Deus abranda alguns corações, assim como a sua ira. Todavia, isso não é
desculpa para agora confundirmos a ira de Deus e a misericórdia de Deus.
Ele disse que
endureceria o coração do Faraó, e então o afligiu e castigou com dez pragas. E
você quer transformar essas pragas em atos da misericórdia de Deus! Que idéia
mais ultrajante poderia ser ouvida do que essa? A misericórdia de Deus se
manifestou também quando Ele suspendeu vez após vez cada praga, quando o Faraó
parecia ter-se arrependido; porém aquelas pragas foram o meio usado por Deus
para castigar o Faraó, e endurecer seu coração.
Suponhamos que Deus
endureça corações quando exerce a sua longanimidade, deixando de dar o imediato
castigo. Ainda assim os corações dos homens não serão abrandados senão pelo
Espírito do Senhor. Portanto, não importa qual processo seja usado, os corações
são endurecidos segundo a vontade de Deus e também são abrandados por ela.
Você diz: "Assim
como sob os mesmos raios de sol a lama é endurecida e a cera derretida; e, após
as mesmas chuvas, o terreno cultivado produz fruto, e o terreno sem cultivo
produz espinhos, assim também, mediante a mesma longanimidade de Deus, alguns
homens são endurecidos, e outros se convertem". Entretanto tal ilustração
em nada ajuda a confirmar sua posição. Você garante que todas as pessoas são
idênticas — todas possuem "livre-arbítrio". Todavia é a eleição por
Deus que estabelece a distinção entre os homens. Sem a eleição divina, todos
estão livres apenas para desafiar a Deus. Mas, você afirma que não há eleição.
O resultado disso é que você está diante de um Deus impotente, e homens e
mulheres estão sendo salvos ou condenados sem o conhecimento dEle. Ele
meramente exibe diante deles a sua bondade. Em seguida, Ele nada mais pode
fazer, senão, talvez, ir participar de algum banquete! Isso é o máximo que a
razão humana pode conceber. Porém o que você fez foi confundir toda a questão,
criando dois tipos de "livre--arbítrio", um representado pela cera e
pela lama, e outro pelo terreno cultivado e o sem cultivo. Essas ilustrações
são inúteis para você. Só fariam sentido se comparássemos o evangelho com o sol
e com a chuva. E se comparássemos os eleitos com a cera a o terreno cultivado;
e os não-eleitos com a lama e com o terreno sem cultivo. Os não-eleitos são
feitos piores, depois de ouvirem o evangelho, e os eleitos melhores, após ouvi-lo.
Você inventou a
"explicação" de que o Faraó endureceu o seu próprio coração em face
da bondade de Deus, porque, segundo você afirma, é absurda a idéia de que um
Deus que é bom pudesse ter feito isso. Mas, quem diz que essa idéia é absurda?
Somente a razão humana sente-se ofendida diante de tal idéia. Compete-nos
aquilatar as ações divinas mediante a razão humana, a qual é cega, surda e
ímpia? Com base em tais alicerces, a fé cristã inteira é absurda. Conforme
Paulo diz, em 1 Coríntios 1.23, é uma loucura para os gentios e uma pedra de
tropeço para os judeus, que Deus pudesse ser um homem, filho de uma virgem,
crucificado e se assentasse à mão direita do Pai. Pela razão humana, é
certamente absurdo acreditar em tais coisas.
Porém, seja como for,
você não esclareceu a questão, ao asseverar que o homem é o responsável pelo
endurecimento de seu próprio coração. Ainda precisa explicar-nos como é que
Deus pode exigir que o "livre-arbítrio" faça coisas impossíveis.
Como é que Deus poderia acusar o "livre-arbítrio" de pecaminoso se o
mesmo não pode agir de maneira diferente? Você apela para a razão humana.
Essas coisas são igualmente absurdas para a razão humana.
Permanece o fato que a
atuação de todo o "livre--arbítrio" no mundo não poderá jamais
impedir que os homens endureçam os seus corações, sem que haja a operação do
Espírito Santo.
Você tem dito que Deus
não pode ter feito do Faraó o homem corrupto que ele era, pois Deus viu que
tudo quanto fizera era bom. Porém esta é obviamente uma referência à criação
original de Deus antes da Queda. A partir de então, todos nós, incluindo o
Faraó, pertencemos a uma raça ímpia e corrompida. E mesmo que essas palavras
façam alusão às obras de Deus após a Queda, elas referem-se à maneira como Deus
vê as coisas, e não os homens. Muitas coisas que são boas aos olhos de Deus,
são más aos nossos olhos. Por exemplo: as aflições, as tristezas, os erros, o
inferno, e todos os mais excelentes feitos de Deus parecem maus aos olhos do
mundo. O evangelho é o melhor de todos esses feitos e não há nada, entretanto,
que o mundo odeie mais.
Argumento
4: O uso que Deus faz da natureza humana.
Algumas pessoas talvez
queiram saber como Deus produz em nós maus efeitos, endurecendo-nos,
entregando-nos aos nossos desejos e levando-nos a praticar o erro. Devemos,
entretanto, nos contentar com aquilo que a Bíblia nos diz.
A minha resposta é que à
parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a
natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus
os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos.
Imagine um homem que esteja andando em um cavalo com apenas duas ou três pernas
saudáveis. Sua cavalgada corresponderá ao que seu cavalo é capaz. Se o cavalo
vai mal, o que pode fazer o cavaleiro? O tal homem está cavalgando em companhia
de homens com cavalos sãos; embora os demais estejam se saindo bem, seu cavalo
estará limitado na sua enfermidade, enquanto não for curado.
Portanto, você vê que,
quando Deus faz coisas através de homens maus, coisas más acontecem. O próprio
Deus, entretanto, não pode fazer o mal. Deus é soberano. O homem ímpio é uma
criatura de Deus, sujeito ao controle divino. Deus não suspende a sua
soberania, só por causa da vileza do homem. O ímpio não pode alterar a sua
condição. Como resultado, o homem não pode deixar de pecar e de continuar em
seu caminho desviado, a menos que, e até que, seja endireitado pelo Espírito de
Deus.
Argumento
5: Método usado por Deus para endurecer o homem.
Os ímpios não se interessam
por agradar a Deus. Interessam--se apenas em agradar a si mesmos. Eles odeiam e
lutam contra qualquer coisa que os impeça de desfrutar de seus desejos
egoístas. Isso se verifica, especialmente, quando os ímpios são confrontados
com o evangelho. No evangelho, Deus põe uma barreira aos desejos distorcidos
dos homens, bem como ao egocentrismo deles, de tal modo que tornam-se amargos e
contrários a Deus e à sua Palavra.
Deus não cria uma nova
maldade nos corações dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se
encontra nos corações deles, visando os seus próprios, bons e sábios desígnios.
Em 2 Samuel 16.10, Davi declara acerca de Simei: "Ora, deixa-o amaldiçoar;
pois se o Senhor lhe disse: Amaldiçoa a Davi, quem diria: Por que assim
fizeste?" Entretanto, Deus não dera qualquer mandamento para que Simei
amaldiçoasse a Davi. Antes, a ação soberana de Deus assegurou que a já maligna
vontade de Simei faria aquilo que lhe era natural, no momento e no lugar
tencionados por Deus.
Argumento
6: Endurecimento do coração do Faraó, por parte de Deus.
Tendo essas coisas em
mente, voltemos ao caso do Faraó. Deus não transformou a natureza do Faraó, por
meio do seu Espírito Santo. A vontade do Faraó permaneceu ímpia e maligna. O
Faraó estava plenamente seguro de sua grandeza e autoridade. Assim, quando Deus
apresentou algo que o ofendia e irritava, ele não pôde evitar de reagir de
maneira maldosa. Ele foi ficando mais e mais obstinado, recusando-se a dar
ouvidos à razão.
As palavras das
Escrituras precisam ser compreendidas de conformidade com o seu sentido claro e
evidente. Quando Deus disse: "Endurecerei o coração de Faraó", Ele
estava dizendo: "Farei com que o coração do Faraó se endureça". Deus,
com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que
o coração do Faraó se endureceria. Com idêntica certeza, Deus sabia que o
Faraó não poderia impedir as ações divinas contra si. E Deus igualmente sabia
que indubitavelmente, como resultado disso, o Faraó tornar-se-ia pior. Uma
vontade maligna pode querer somente fazer o mal. Mesmo quando Deus traz algum
bem para exercer uma influência benéfica — como no caso do evangelho — a
vontade maligna só pode tornar-se pior, torna--se mais endurecida.
Por que Deus não cessa
de fazer pressão que, certamente, produzirá maus resultados? Isso é o mesmo
que pedir a Deus que deixe de ser Deus. Não podemos, realmente, imaginar que
Deus deixará de fazer o bem, somente porque os ímpios sempre reagirão
adversamente.
Por que Deus não altera
a vontade perversa de pessoas como o Faraó? Essa questão toca na vontade
secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis (Rm 11.33). Se alguém que é
orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja.
As queixas nada mudarão, e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis.
Poderíamos também perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos
tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque
o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou. A única alternativa é estabelecer
um outro criador, superior a Deus!
Retornemos ao texto.
Você ignora o sentido claro do texto porque não o aprecia, e em seguida
apresenta a sua própria "explicação". Todavia sempre devemos examinar
um texto à luz do seu contexto, para descobrir o alvo e o propósito do autor. O
sentido claro é que Deus teria endurecido o coração do Faraó por meio das
pragas. Mas você diz que esse endurecimento ocorreu por intermédio da
longanimidade de Deus, e não para a imediata punição do Faraó. No entanto,
consideremos o contexto. Deus tinha esperado pacientemente por longo tempo,
enquanto o Faraó estava infligindo grande sofrimento sobre os filhos de Israel.
Obviamente que, quando o Senhor disse que endureceria o coração do
Faraó, tencionava algo diferente — uma mudança em sua longanimidade e não a
continuação da mesma atitude longânima. Sabemos por que houve uma modificação
na atitude de Deus. Deus tencionava livrar o seu povo da servidão do Egito.
Queria dar ao seu povo razões adicionais para confiarem nEle. A resistência do
Faraó atrairia mais pragas e cada nova praga demonstraria o poder de
Deus. E não somente isso; a cada nova praga, Moisés registra que o coração do
Faraó se endurecia, conforme o Senhor havia dito. E isso servia para maior
fortalecimento da fé dos israelitas em Deus.
Você deseja que o Faraó
tenha um arbítrio que é livre para submeter-se ou para rebelar-se, e também
insiste que esse texto indica que o Faraó endureceu o seu próprio coração, não
Deus. Mas veja o que isso significaria. Deus seria dependente do
"livre-arbítrio" do Faraó e não poderia ter dito com antecedência, a
Moisés e aos israelitas, o que aconteceria. Porém, conforme a sucessão dos
fatos, Deus endureceu o coração do Faraó. Deus levou o Faraó à ação e o Faraó
não pôde agir senão em harmonia com a sua própria natureza maligna. Assim vemos
que essa passagem não pode ser usada para apoiar, mas apenas para argumentar
fortemente contra o "livre-arbítrio".
Argumento
7: Abordagem de Erasmo sobre Romanos 9.15-33.
Você está terrivelmente
atormentado por essa passagem. Está determinado a defender o
"livre-arbítrio" a qualquer preço, e assim, acaba dizendo toda a
sorte de coisas contraditórias, especialmente acerca da presciência de Deus.
Esclareçamos isso. Por exemplo, Deus sabia de antemão que Judas Iscariotes
haveria de ser um traidor, por conseguinte, Judas tinha de ser um traidor.
Judas não tinha capacidade de agir de outro modo. Obviamente, Judas agiu
espontânea e livremente, em harmonia com sua própria natureza. Deus sabia de
antemão que Judas estava predisposto a agir e trouxe a ação dele à cena, no
momento determinado.
Em nada lhe ajuda falar
sobre a chamada presciência humana, porquanto ela fica muito aquém da
presciência perfeita de Deus. Sabemos, por exemplo, quando um eclipse acontecerá.
Mas tal eclipse não acontece porque o prevíramos. Porém, quando Deus prevê
alguma coisa, ela acontece porque Ele assim previra. Se você não aceita isso,
mina todas as ameaças e promessas de Deus. Você nega o próprio Deus.
Em dado momento, você teve
o bom senso de admitir que Paulo ensina que Deus quer aquilo que prevê, e que
aquilo obrigatoriamente acontece. Mas então, você estraga tudo, dizendo que
acha isso difícil de aceitar. Assim, tenta escapar dessa conclusão, afirmando
que Paulo não explicou o ponto, mas somente repreendeu quem estava argumentando
com ele (Rm 9.20). Não é essa a forma de manusear os textos sagrados. Um exame
do texto mostrará que Paulo explica a questão. De fato, não teria havido razão
alguma para a reprimenda, se não houvesse pessoas argumentando contra a sua
explanação. Paulo cita Êxodo 33.19: "Farei passar toda a minha bondade
diante de ti, e te proclamarei o nome do Senhor;
terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de
quem eu me compadecer". Em seguida, o apóstolo explica que os atos
divinos de misericórdia ou de endurecimento não dependem, em coisa alguma, da
vontade do homem, mas, exclusivamente, do próprio Deus. Paulo deixou claro que
a presciência de Deus determina as ações realizadas pelos homens. Naturalmente,
se tentarmos provar tanto a presciência de Deus como o
"livre-arbítrio" humano, ao mesmo tempo, teremos problemas — como
tentar demonstrar que certo algarismo é, ao mesmo tempo, um nove e um dez!
A repreensão de Paulo é
para aqueles que se ofendem com a palavra clara que ninguém é possuidor de
"livre--arbítrio", e de que todas as coisas dependem exclusivamente
da vontade de Deus. É este o momento para adorar a majestade do Senhor, em sua
imponência e notáveis julgamentos e dizer: "...faça-se a tua vontade,
assim na terra como no céu" (Mt 6.10).
Argumento
8: A razão natural deve admitir a soberania da vontade de Deus.
A razão natural precisa
admitir que Deus seria uma divindade muito débil e patética se a sua
presciência fosse indigna de confiança, e se pudesse ser contrariada pelos
acontecimentos. Naturalmente, os homens objetarão ao pensamento que Deus, que é
bom, os possa abandonar, endurecer e condenar, como se Ele tivesse prazer com
os pecados e tormento eterno deles. Já tropecei, eu mesmo, nesse ponto por mais
de uma vez, caindo no mais profundo poço de desespero, desejando nunca ter
nascido. (Isso sucedeu antes de eu reconhecer quão saudável é esse desespero,
e quão próximo ele está da graça divina.) Essa é a razão pela qual os homens
têm tentado encontrar "explicações" e manter seus próprios
raciocínios, em detrimento do que é plenamente ensinado pela Palavra de Deus.
Porém, mesmo que os
raciocínios da incredulidade se sintam ofendidos, eles são forçados a admitir a
soberania da vontade de Deus, ainda que a Bíblia não existisse, porquanto duas
coisas estão gravadas nas consciências dos homens — o fato que Deus é soberano
e que Ele conhece de antemão todas as coisas, sem exceção ou equívoco.
Argumento
9: Romanos 9.15-33 (continuação).
Em Romanos 9.20,21,
Paulo diz que os homens são como o barro, e Deus como um oleiro. Nada poderia
ser mais claro do que dizer que todo o propósito de Paulo é negar o
"livre-arbítrio" humano. O ponto principal de Paulo nessa epístola é
que, se no homem há poder suficiente para salvar a si mesmo, qualquer argumento
em favor da graça divina é inútil. Paulo confirma isto ao dizer que Israel não
alcançou a justiça por buscá-Lo, enquanto que os gentios alcançaram--na por não
buscá-Lo (vv. 30,31). E ele mesmo, em Romanos 11.20,23, barra os jactanciosos
do "livre-arbítrio" ao dizer que eles não são capazes de crer, mas
que "Deus é poderoso para os enxertar".
Argumento
10: A soberania de Deus e o "livre-arbítrio" não podem conviver.
Temos aqui uma
demonstração do seu raciocínio, Erasmo. Você diz: "No tocante à
inquebrantável presciência de Deus, Judas fatalmente fo> destinado a
tornar-se um traidor; mesmo assim, Judas era capaz de mudar a sua
vontade". Você percebe o que está dizendo? Se você está certo, então
Judas tinha a capacidade de alterar a presciência de Deus, fazendo-a indigna de
nossa confiança. Entretanto, você não trata com o problema. Você age como um
capitão que conduz o seu exército até ao campo de batalha, para então
abandoná-lo quando sua ajuda é mais necessária! Você passa a falar sobre algo
diferente — se a vontade do homem é perturbada pela soberania de Deus. Eu faço
uma pergunta, mas você responde outra! Porém, não o deixarei escapar do anzol
tão facilmente. Você precisa enfrentar seu próprio dilema. Como é que esses
dois conceitos podem concordar: "Judas pode desejar não trair" e
"Judas deve necessariamente desejar trair"? Não são duas idéias
diretamente opostas e contraditórias?
Argumento
11: Abordagem de Erasmo sobre Malaquias 1.2,3.
Agora, precisamos voltar
para o segundo dos dois textos que você admite que talvez dê apoio à minha
posição sobre o "livre-arbítrio", embora você realmente negue que
assim seja. Qual é o seu argumento? Lemos em Gênesis 25.23: "...eo mais
velho servirá o mais moço". E a sua "explicação" é algo como:
"Corretamente compreendida, essa passagem não diz respeito à salvação;
pois Deus pode querer que um homem seja um servo e um mendigo, sem que seja
rejeitado para a salvação eterna".
Que mente escorregadia
tem você ao tentar escapar da verdade! Mas, você não pode escapar. Pense no uso
que Paulo fez desse texto, em Romanos 9.12,13. Estaria Paulo torcendo as
Escrituras, ao mesmo tempo que lançava os fundamentos da doutrina cristã?
Certamente que não! Jerônimo ousou comentar: "As coisas têm uma força, nos
escritos de Paulo, que não possuem em seu contexto original". Jerônimo
pode dizer tal coisa, mas isso não prova nada. Pessoas como Jerônimo nem
compreendem Paulo e nem os trechos bíblicos por ele citados. Não posso concordar
que o trecho de Gênesis 25.21,23 refira-se somente a uma pessoa que serve à
outra; contudo, suponhamos por alguns momentos que assim fosse. Mesmo assim,
podemos perceber que Paulo citou corretamente a passagem, para demonstrar que
não havia mérito nem em Jacó nem em Esaú. Paulo estava discutindo se o que foi
relatado a respeito deles, foi obtido pelos méritos do
"livre-arbítrio"; e mostra que não foi assim. Tudo fora determinado
antes que eles nascessem.
Os comentários de Paulo
sobre Gênesis 25.23 não devem ser entendidos como se envolvessem mera questão
de serviço humilde. Estão envolvidas questões de salvação eterna. Jacó fez
parte do povo de Deus. A promessa feita a ele incluía tudo quanto pertence ao
povo de Deus — a bênção, a Palavra, o Espírito Santo, a promessa de Cristo e o
reino eterno de Cristo. Isso é confirmado em Gênesis 27.27 e versículos
seguintes. Por conseguinte, a nossa resposta a Jerônimo é que todas as
passagens citadas pelos apóstolos têm mais força em seus contextos originais do
que em seus comentários!
Como no trecho de
Malaquias 1.2,3, que Paulo também cita: "Eu vos tenho amado, diz o
Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? disse
o Senhor; todavia amei a Jacó, porém aborreci a Esaú; e fiz dos meus montes uma
assolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto". Você, Erasmo,
tenta de três maneiras diferentes, escapar do claro sentido dessas palavras.
Na primeira, dizendo que
não podemos entender literalmente essas palavras, porque o amor e a ira de
Deus diferem do amor e do ódio humanos, não tendo neles qualquer traço das
paixões humanas. Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham
às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que
perguntemos como Deus ama ou odeia, mas por que Deus ama ou
odeia. Porém, visto que você prefere desviar a atenção para como Deus
ama ou odeia, vejamos, por um momento, se isto colabora com a sua posição. De
fato, não a ajuda em nada. O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a
alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis.
Foram fixados muito antes que o "livre-arbítrio" fosse possível.
Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus espera pela reação humana, mas
antecedem à mesma. Isso torna-se ainda mais claro quando perguntamos por que
Deus ama ou odeia. O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a
Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a
atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada antes mesmo de terem
nascido, e não havia muita atuação do "livre-arbítrio" naquela
ocasião!
A sua segunda tentativa,
para escapar do claro sentido das palavras, é que você diz que Malaquias não
parece estar falando da ira mediante a qual somos eternamente condenados. Você
sugere que Malaquias está falando apenas das dificuldades experimentadas aqui
na terra. Uma vez mais, essa é uma sugestão caluniosa de que Paulo está usando
erroneamente as Escrituras. Novamente, vejamos se a tentativa de escapar do
sentido claro das palavras ajuda a sua posição. Sem dúvida, o ponto de Paulo
nesses versículos é enfatizar a completa ausência de mérito ou do exercício do
"livre--arbítrio". Mesmo que Paulo esteja somente tratando com coisas
experimentadas na terra, ele continua usando uma ilustração apropriada da vida
de Jacó e Esaú. Seja como for, é falso sugerir que Malaquias refere-se somente
a coisas experimentadas na terra. O contexto da passagem demonstra que seu
propósito é repreender o povo de Israel porque eles não correspondiam ao amor
que Deus tinha por eles. O amor de Deus envolvia mais do que as bênçãos
terrenas, pois essa passagem mostra que o nosso Deus é o Deus de todas as
coisas. Ele não se contentava em ser um Deus que recebe a adoração da metade de
seus corações, a quem se oferecesse um animal doente "...o dilacerado, o
coxo e o enfermo" (Ml 1.13). A verdadeira adoração a Deus devia ser
prestada de todo o coração e forças. Pois Ele é Deus tanto aqui, como no mundo
vindouro, em todas as ocasiões, em todas as questões, em todos os tempos e em
tudo quanto se faz.
A sua terceira tentativa
de evitar o pleno significado de Malaquias 1.2,3 consiste em afirmar que
Malaquias quis dar a entender que Deus ama a alguns judeus e odeia a outros.
Você diz que isso abre o caminho para a incredulidade por parte de alguns dos
judeus, e que em vista disso eles merecem ser cortados. E também pensa que a
sua "interpretação" abre o caminho para a fé de outros judeus, e que
mediante essa fé eles merecem ser novamente enxertados na boa oliveira.
Você não sabe o que está
falando! Sei perfeitamente bem que os homens são cortados por causa da
incredulidade e enxertados pela fé, e que devem ser encorajados e motivados a
crer. Entretanto, isso não tem nada a ver com crer ou não crer através do poder
do "livre-arbítrio".
Argumento
12: O oleiro e o barro.
O terceiro texto que
você diz que talvez dê apoio à minha posição é Isaías 45.9: "Ai daquele
que contende com o seu Criador! e não passa de um caco de barro entre outros
cacos. Acaso dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? ou: A tua obra não
tem alça", ou como diz Jeremias 18.6: "...eis que, como o barro na
mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel". Obviamente,
esses textos apóiam minha posição, mas você tenta diminuir a força deles,
dizendo que o trabalho do oleiro refere-se às nossas experiências na vida
terrena. Você sugere que quando o apóstolo Paulo usa esses textos, em Romanos
9, ele faz um acréscimo ao suposto sentido original deles, fazendo-os
referir-se à eleição pessoal. Isso é caluniar a Paulo. Em seguida, você aumenta
ainda mais sua confusão, ao referir-se a 2 Timóteo 2.20,21: "Ora, numa
grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira
e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. Assim, pois, se
alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra,
santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa
obra".
Você afirma que Paulo
estava escrevendo sobre o mesmo tema de Isaías 45.9, Jeremias 18.6 e Romanos 9.
E passa a ridicularizar a idéia de um vaso de barro que se purifica a si mesmo.
No entanto, diz que Paulo ordena ao vaso agir assim, e prova, para sua
satisfação pessoal, que, em vista disso, o vaso representa os homens, que são dotados
de "livre-arbítrio".
A minha resposta é que
Paulo, em 2 Timóteo 2.20,21, não estava aludindo ao mesmo tema, como nos outros
textos. Estava usando uma cena doméstica a fim de ilustrar um tema totalmente
diferente — a piedade pessoal do crente. Além do mais, quem recebe ordens para
agir não são meros vasos, e, sim, os crentes. Os crentes é que precisam
purificar-se de tudo quanto desonra a Deus. No tocante aos vasos, alguns são
honrosos e outros não, mas quem decide o uso que será dado a cada um deles é o
proprietário dos mesmos, e não os próprios objetos.
Argumento
13: A justiça de Deus.
Agora você apela para o
raciocínio humano. Não pode aceitar o direito que Deus tem de lançar os ímpios
no fogo eterno. Conforme você sugere, isso não é razoável, porque Deus criou os
ímpios conforme eles são. E assim a verdade vem à tona! Você assume a mesma
postura dos queixosos, que Paulo cita, em Romanos 9.19: "De que se queixa
ele [Deus] ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?" Isso posto, a
razão humana demanda que Deus aja de acordo com as idéias humanas acerca do que
é certo e do que é errado; e o Soberano que criou todas as coisas deve
submeter-se à sua própria criação! Então, regras devem ser estabelecidas, pelas
quais Deus só possa condenar aqueles que, segundo o nosso parecer, merecem ser
condenados! Quando Deus salva aqueles que merecem a condenação, ninguém
reclama. Mas, quando Deus os condena, ouve-se um grande protesto. Nisso se
manifesta a perversidade do coração humano. Quando os homens raciocinam dessa
maneira, eles estão deixando de louvar a Deus como Deus. Estão furtando de Deus
o seu direito soberano. Se não poderemos compreender como um Deus justo pode
salvar a homens ímpios, até que cheguemos no céu, como entenderíamos que um
Deus justo pode condenar os ímpios? Não obstante, a fé continuará a crer que
assim sucede, até o dia em que o Filho do homem será revelado.
Argumento
14: Paulo atribuía a salvação do homem exclusivamente a Deus.
Não há contradições nas
Escrituras, senão aquelas que você cria com suas "explicações". É
desse modo que as confusões surgem. Por exemplo, não existe contradição entre
"se alguém a si mesmo se purificar" (2 Tm 2.20-21) e "Deus é
quem opera tudo..." (1 Co 12.6). O primeiro texto simplesmente esclarece
o que o homem deve fazer. Isto não significa que ele tenha a capacidade para
fazê-lo mediante o "livre-arbítrio", sem a ação da graça. Eu sei que
você está convencido de que quando um mandamento é dado, isto implica na
capacidade para obedecer. Mas isso é um contra--senso. O segundo texto
estabelece claramente que todas as coisas são obras de Deus. Não há
contradição. Paulo é consistente em todos os seus ensinos de que a salvação dos
homens se dá exclusivamente através do poder de Deus.
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