sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Definição de Erasmo do "livre-arbítrio

Argumento 1: Definição de Erasmo do "livre-arbítrio".
Para ser justo, terei de citar a sua própria definição de "livre--arbítrio". Você diz: "Compreendo o livre-arbítrio como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação".
Você pode realmente chamar isso de definição? Uma definição precisa ser clara, e cada aspecto dessa declaração precisa ser explicado para tornar-se claro. Além disso, você começa definindo uma coisa, mas termina definindo algo inteiramente diferente. Quero dizer que somente Deus tem a liberdade de vontade que você descreve e ainda supõe que pertence aos homens. Entretanto, um homem é como um escravo, cuja única liberdade consiste em obedecer a seu senhor. Os seres humanos só agem de acordo com as de­terminações de Deus. Será isso "liberdade de arbítrio" como você a descreve?
Por conseguinte, terei de considerar essa suposta definição em seus vários aspectos. Alguns deles são sufi­cientemente claros, mas tenho de realçar outros aspectos, antes que possa mostrar onde eles erram. Eles parecem ter medo da luz, como se fossem culpados de alguma coisa. Começarei supondo que o "poder da vontade humana", a respeito do qual você fala, seja o de aceitar ou rejeitar alguma coisa, o poder de aprovar ou desaprovar. Essa é realmente a função da vontade humana. Mas, em seguida, você acres­centa : "... mediante o qual uma pessoa pode aplicar-se O que você está fazendo é separar um homem de sua vontade. Está dando à pessoa o poder de dirigir a sua vontade. Entre­tanto, a vontade de um homem faz parte dele — é a parte dele que faz essas escolhas. Obviamente, separar um homem de sua vontade e conferir-lhe poder sobre ela, é absurdo! Se, porventura, entendi mal a questão, a culpa é sua, Erasmo, por não haver escrito com mais clareza!
Em seguida, quais são as coisas que "conduzem à eterna salvação"? Elas têm de ser as palavras e as obras de Deus. Nenhuma outra coisa pode conduzir-nos à salvação eterna. Aliás, a mente humana é incapaz de apreender o significado da salvação. Escreveu Paulo: "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam" (1 Co 2.9). Paulo passa então a dizer como podemos tomar conhecimento dessas realidades: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito..." (1 Co 2.10). Isso sem dúvida significa que sem o Espírito Santo jamais tomaríamos conhecimento dessa salvação, e assim sendo, não poderíamos nos dedicar a buscá-la.
Alguns dos homens mais bem instruídos deste mundo têm considerado as verdades espirituais como bobagem. De fato, quanto mais brilhantes têm sido as suas mentes, mais ridículas lhes parecem ser as verdades espirituais. Os homens só podem chegar a reconhecer as realidades dos valores espirituais, em seus corações, quando o Espírito Santo os ilumina.
Em seguida, você assevera que o "livre-arbítrio" é a capacidade que a vontade humana tem, por si mesma, de decidir se aceita ou não a palavra e as obras de Deus. Isso eqüivale a fazer com que a vontade humana seja capaz de escolher entre o céu ou o inferno. Isso significa que não há espaço para a atuação do Espírito Santo ou para a graça divina. Isso põe a vontade humana no mesmo nível de Deus.
Os pelagianos também fizeram isso. Mas você os ultra­passa! Eles distinguiam em duas partes o "livre-arbítrio" — o poder de compreender a diferença entre as coisas e o poder de escolher entre elas. Porém, para você o "livre--arbítrio" tem o poder de escolher coisas eternas, embora seja totalmente incapaz de entendê-las. Desse modo, você criou um "meio livre-arbítrio".
Além disso, você contradiz a si mesmo, porquanto uma vez afirmou que a "vontade humana nada pode fazer sem a graça divina". No entanto, quando você chegou a escrever uma definição do "livre-arbítrio", concedeu total liberdade para a vontade humana. Você é um homem muito estranho!
Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos filósofos aos seus. Eles diziam que um homem entregue a si mesmo só faria o que é errado. O homem só poderia escolher o bem com a ajuda da graça divina. Eles diziam que os homens são livres para decair, mas que precisam de ajuda para elevarem-se! Porém, é motivo de riso chamar a isso de "livre-arbítrio". Com base em tais conceitos, eu poderia afirmar que uma pedra tem "livre-arbítrio", pois só pode cair, a menos que seja erguida por alguém! O ensino daqueles filósofos, porém, ainda é melhor do que o seu. A sua pedra, Erasmo, pode escolher se sobe ou desce!

Argumento 2: Argumento de Erasmo baseado em um livro apócrifo.
Você alicerça a sua defesa do "livre-arbítrio" no livro de Eclesiástico 15.14-18: "Deus criou o homem desde o prin­cípio, e o deixou na mão do seu conselho". O escritor desse livro apócrifo ainda adiciona as seguintes palavras sobre os mandamentos e preceitos de Deus: "Se tu quiseres observar estes mandamentos, e guardar sempre com fidelidade o que é do agrado de Deus, eles te conservarão. Ele pôs diante de ti a água e o fogo: lança a tua mão ao que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal: o que lhe agradar, isso lhe será dado".
Eu poderia eliminar esse suposto texto de prova asseverando que o livro de Eclesiástico nunca foi incluído pelos judeus como porção integrante do Antigo Testamento; porém, basta-me dizer que você mesmo afirmou que esse livro é "obscuro e ambíguo". Seria mister uma eternidade, para você ou para qualquer outro, apresentar uma passagem que diga claramente no que consiste o "livre-arbítrio".

Argumento 3: Três pontos de vista de Erasmo a respeito do "livre-arbítrio".
Você apresenta três pontos de vista acerca de um mesmo "livre-arbítrio"! Examinemo-los! O primeiro é a idéia que o homem não pode querer fazer o bem; ele não pode tomar tal iniciativa, progredir nessa direção ou consumar o bem, sem a graça especial. Você chama esse ponto de vista de "rígido, mas suficientemente provável".
O segundo ponto de vista, que você reputa "ainda mais rígido'', é o de que o ' 'livre-arbítrio" só pode conduzir o homem ao pecado, e que somente a graça divina pode conduzi-lo à bondade.
O terceiro ponto de vista, que você considera como "o mais rígido de todos", é que o "livre-arbítrio" não tem qualquer sentido, e que Deus é a causa tanto do bem quanto do mal que em nós existe.
Você se declara disposto a aceitar o primeiro desses três pontos de vista, porquanto permite que o homem faça algum esforço. E afirma que opõe-se aos dois outros. Você parece não saber o que está dizendo! Esses não são, real­mente, três pontos de vista diferentes. São sempre um único ponto de vista, expresso mediante diferentes palavras, em ocasiões diferentes por seus oponentes. Sua definição de "livre-arbítrio" em coisa alguma assemelha-se ao primeiro ponto de vista, o qual você declara aceitável. A sua definição assegura que o "livre-arbítrio" pode fazer tanto o bem quanto o mal. No entanto, o ponto de vista que você aceita afirma que a vontade humana não pode escolher o bem sem a ajuda da graça divina. Assim, você já conta com duas vontades humanas em desacordo. Ao aceitar o primeiro ponto, você concorda que o "livre-arbítrio" não pode praticar o bem. Mas você mesmo dissera, um pouco antes: "A vontade humana é tão maligna que perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo retornar a um estado melhor". Não obstante, quando eu digo exatamente a mesma coisa, você diz: "Nunca se ouviu coisa tão absurda". O que você escreve significa que tentar ser bom, está e ao mesmo tempo não está no poder do "livre-arbítrio". Se isso não é um absurdo, eu gostaria de saber o que é!
As suas afirmativas são de tal modo contrárias umas às outras que não há qualquer possibilidade delas permancerem coesas. Não há meio termo entre "ser capaz de fazer o bem" e "não ser capaz de fazer o bem".
No que concerne ao segundo e ao terceiro pontos de vista que você delineou, nada há neles que já não se encontre no primeiro. Todos esses três pontos de vista con­cordam plenamente uns com os outros. Você diz que se opõe ao segundo e ao terceiro, mas todos os três afirmam que a vontade humana perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo pôr o bem em prática. Ora, se isso é verdade, segue-se que quando o ser humano pra­tica algum mal, assim age porque é forçado. Ele não pode evitá-lo.

Argumento 4: Voltando ao argumento de Erasmo baseado em Eclesiástico 15.14-18.
Retornemos àquela passagem do livro apócrifo de Eclesiás­tico, a fim de compará-la com o primeiro dos três pontos de vista que acabamos de aludir. Esse ponto de vista, que você afirma ser provavelmente correto, declara que o "livre--arbítrio" não pode querer praticar o bem. No entanto, aquela passagem extraída do livro de Eclesiástico foi citada a fim de provar que "o livre-arbítrio" pode fazer algo de bom. Se­gundo a sua opinião, essa passagem deveria apoiar o primeiro ponto de vista, no entanto ela não diz nada a respeito do assunto. Seria como alguém citar uma passagem qualquer sobre Pilatos, como governador da Síria, a fim de provar que Cristo foi o Messias!
Mas para sermos justos, consideraremos o trecho de Eclesiástico 15.14-18. Esse trecho começa dizendo: "Deus criou o homem desde o princípio, e o deixou na mão do seu conselho". Até essa altura, não há qualquer referência aos mandamentos. O homem era dotado de uma vontade inteiramente livre quando o Senhor Deus o tornou senhor de todas as coisas. Mas, então lemos que Deus acrescentou seus mandamentos e preceitos: "Se tu quiseres observar estes mandamentos...". E isso também exprime uma verdade. Deus tirou o homem de sua posição de domínio, e, dali por diante, ele ficou debaixo dos mandamentos de Deus. Não era mais livre. Portanto, você pode ver que é possível com­preender essa passagem de Eclesiástico de uma maneira que concorda comigo e não com você! A minha compreensão desse trecho concorda com a totalidade das Escrituras. A sua maneira de compreendê-lo faz esse texto voltar-se contra as Escrituras em sua inteireza.

Argumento 5: Exame posterior do uso que Erasmo fez de Eclesiástico 15.14-18.
Você, Erasmo, sugere que as palavras ' 'se tu quiseres observar estes mandamentos" mostram que o homem é capaz de es­colher com liberdade. Argumentar assim é avaliar as palavras de Deus de acordo com a razão humana. Porém, eu posso provar que, mesmo de conformidade com a razão humana, as palavras "se tu quiseres observar estes mandamentos" nem sempre significam uma capacidade para obedecer. Por exemplo, os pais com freqüência dizem a seus filhos para fazerem algo, não para provarem o que eles podem fazer, mas a fim de provar que eles não podem fazer, para que aprendam a pedir ajuda.
É também assim que Deus lida conosco. Ele dá a sua lei a fim de mostrar-nos a nossa total incapacidade de observá-la. Esse é o ensinamento de Paulo em Romanos 3.20 e 5.20 e em Gaiatas 3.19,24.



Argumento 6: Os argumentos de Erasmo devem significar que a vontade do homem é completamente livre.
Há uma contradição básica em seu argumento. Por um lado, você diz que as palavras de Eclesiástico 15.14-18 ("Se tu quiseres observar estes mandamentos...") significam que o homem pode livremente escolher. Mas você também diz que o primeiro dos três possíveis pontos de vista é provavelmente verdadeiro. No entanto, esse ponto de vista afirma que o "livre-arbítrio" não pode fazer bem algum. Você não pode manter essas duas posições!
Ora, o livro de Eclesiástico não diz "se tu quiseres e tentares observar estes mandamentos", diz: "Se tu quiseres observar estes mandamentos". Por conseguinte, se o livro de Eclesiástico favorece o "livre-arbítrio", em algum sentido, deve estar em pauta uma liberdade total, não apenas parcial. Essa foi a conclusão a que chegaram os pelagianos acerca dessas palavras.
Qualquer um que deseje discordar dos pelagianos en­frentará um grande problema. Tal pessoa talvez queira apenas conceber um "livre-arbítrio" parcial, a exemplo do que você faz. O que significa que um homem é livre meramente para desejar e tentar obedecer a Deus. Os pelagianos retrucariam dizendo ou que essa passagem ensina um completo "livre--arbítrio" ou uma completa servidão da vontade. E levariam esse argumento ainda mais adiante, para o trecho que diz: "...e guardar sempre com fidelidade o que é do agrado de Deus". Como resultado disso, os pelagianos ensinavam que o homem é livre para crer. Não obstante, na Bíblia, Paulo enfaticamente argumenta contra tal idéia, ao dizer que a fé é um dom especial conferido por Deus (Ef 2.8).
Contudo, cumpre-me retornar ao meu argumento de que o livro de Eclesiástico não prega o "livre-arbítrio". Constitui um grande erro argumentar que as palavras "se tu quiseres observar estes mandamentos" devem significar "portanto, tu podes". O primeiro homem, Adão, era assistido pela graça de Deus e, no entanto, desobedeceu. Se Adão desobedeceu, o que podemos nós fazer, antes de havermos recebido qualquer graça divina? O "livre-arbítrio" é com­pletamente impotente. Se pusermos a situação de Adão ao lado do trecho de Eclesiástico 15.14-18, você verá que esse trecho, longe de manifestar-se em favor do "livre-arbítrio" é fortíssimo argumento contra tal idéia. Essa passagem, pelo contrário, ensina o nosso dever de cumprir a vontade de Deus e não a nossa capacidade de obedecer a Deus.


Argumento 7: Gênesis 4.7 — outro texto que prova que receber um mandamento não significa ter a capa­cidade de obedecê-lo.
Erasmo, você cita as palavras de Gênesis 4.7: "...eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo", para provar que maus pensamentos podem ser controlados, não levando, necessariamente, ao pecado. Uma vez mais você contradiz a si mesmo. Você já havia dito que o ponto de vista que é provavelmente ver­dadeiro é aquele que afirma que a vontade humana não pode querer o que é bom. No entanto, aqui você diz que o homem pode dominar os maus desejos, sem fazer qualquer alusão à ajuda de Cristo ou do Espírito Santo.
Esse texto bíblico, na verdade, não está ensinando nada disso. É um outro exemplo de que ao homem é mostrado o que ele deve fazer, e não o que ele pode fazer. Outro exemplo disso é o primeiro mandamento: "Não terás outros deuses diante de mim...". Os textos citados são mandamen­tos, e mandamentos não implicam a capacidade de obedecer. Pelo contrário, demonstram incapacidade de obedecer, como, por exemplo, no caso de Caim.

Argumento 8: Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para nos dar conhecimento do pecado.
Essa é a terceira passagem que você cita a favor do "livre-arbítrio". No texto se lê: "...te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição: escolhe, pois, a vida...". Você diz: "O que poderia ser mais claro, do que dizer que o homem tem liberdade de escolha?" Entretanto, replico que você está cego! Quando Moisés disse "escolhe, pois, a vida", por­ventura o povo israelita escolheu a vida? Se eles tivessem feito essa escolha, não teria havido necessidade das operações do Espírito Santo.
Você diz: "É ridículo dizer-se a um homem, diante de dois caminhos, para ele ir pelo que lhe agrada, se apenas um dos caminhos estiver livre à sua frente". Que ilustração tola! É verdade que nós estamos diante de uma bifurcação; porém os dois caminhos — e não somente um — estão fe­chados para nós. Somos incapazes de tomar o caminho que conduz ao bem, sem a graça de Deus. E nem mesmo po­demos tomar o outro caminho, sem a permissão de Deus! Em Romanos 3.20, Paulo não diz: "Pela lei vem o pleno conhecimento da bondade", nem: "Pela lei vem o pleno conhecimento da vontade". Ele diz: "Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". A lei não ensina o que os homens podem fazer, mas o que os homens devem fazer.
Em seguida, você cita Deuteronômio 3 acerca de "escolher", de "desviar-se" e de "observar". Você diz que se as pessoas não têm realmente poder para fazer essas coisas, então os mandamentos são destituídos de significação. Uma vez mais, porém, todos esses mandamentos dizem o que as pessoas devem fazer e não o que podem fazer. Não são destituídos de significação. Têm por desígnio ensinar ao homem orgulhoso o quão impotente ele é. Você tenta lançar no ridículo essa posição, comparando-a a um homem que esteja amarrado, menos o seu braço esquerdo. Então lhe é dito que há um bom vinho à sua direita e veneno à sua esquerda. É-lhe então ordenado que escolha um deles. O que você está tentando provar com essa ilustração? Estará tentando provar a liberdade absoluta da vontade humana? Mas quão esquecido você é! Você já tinha dito que o "livre-arbítrio'' nada pode fazer sem a graça de Deus. Você tentou ridicularizar a minha posição com a sua ilustração, porém deixe-me expor a minha posição com uma ilustração melhor. Imaginemos um homem com ambos os braços amarrados! Esse homem jacta-se de que é livre para mover seus braços para a direita e para a esquerda. Ordena-se, então, a ele que mova um braço em uma certa direção — não a fim de divertir-se com ele, mas a fim de provar que ele é incapaz de obedecer. Nas Escrituras aprendemos que o homem não apenas está amarrado por Satanás, mas também iludido na crença de que é livre para fazer o que é direito. A lei de Moisés foi dada para mostrar aos homens que eles estão iludidos com sua liberdade imaginária.


Argumento 9: Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho.
Você se vale de inúmeras passagens para provar a sua posi­ção, mas fracassa completamente em sua tentativa de mostrar a diferença entre a lei e o evangelho. Deixe-me mostrar como o evangelho é ensinado em passagens que você pensa que dizem respeito à lei. Para exemplificar, consideremos o trecho de Jeremias 15.19: "Se tu te arrependeres (voltares), eu te farei voltar e estarás diante de mim..." e Zacarias 1.3: "Tornai-vos (voltai-vos) para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós outros..." Porventura "voltar-se" prova que o homem tem a capacidade de voltar, assim como "amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força" (Dt 6.5), prova que ele tem capacidade para amar a Deus? Essas palavras não provam que os homens possam voltar-se para Deus contando apenas com as suas próprias forças. Mas, quando os homens ficam sabendo o que devem fazer, então eles perguntarão aonde poderão encontrar a capacidade para obedecer. As palavras "tornai-vos para mim" não significam "tentai tornar-vos para mim". Você diz que a graça divina é posta à disposição quando os homens tentam voltar-se para Deus. Mas isso faria também a segunda parte desse versículo significar "eu tentarei tornar-me para vós"! Isso seria es­pantoso! Talvez a graça possa também estar à disposição do Senhor!
Longe de nós estejam argumentos vazios! A palavra "tornar" é utilizada nas Escrituras tanto em sentido "legal" como em sentido "evangélico". Quando ela é usada em sentido legal, trata-se de um mandamento obrigatório, não apenas uma tentativa do homem de obedecer, mas uma com­pleta mudança em sua vida (Jr 4.1; 25.5 e 35.15). E quando a palavra "tornar" é empregada em seu sentido evangélico, ela é proferida por Deus como um consolo e uma promessa, quando coisa alguma é exigida de nós, mas antes, quando a graça de Deus nos é oferecida (SI 14.7; 116.7 e 126.1). Zacarias exibe-nos tanto a mensagem da lei quanto a men­sagem da graça. A totalidade da lei é resumida nas palavras "tornai-vos para mim"; a totalidade da graça, nas palavras "e eu me tornarei para vós outros".
Você interpreta de igual maneira Ezequiel 18.23: ' 'Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor Deus; não desejo eu antes que ele se converta dos seus ca­minhos, e viva?" Uma vez mais, você interpreta as palavras "que ele se converta" como a capacidade de fazê-lo. Você faz desse trecho lei, ao invés de evangelho. Faz dele uma ordem para que nós não pequemos. Isso é lei. No entanto, o Senhor declara: "Porque não tenho prazer na morte de ninguém..." (Ez 18.32), e alude claramente ao castigo do pecado que o pecador merece e teme. Deus está dando a tal pessoa esperança do perdão e a salvação. As palavras da lei pressionam pesadamente aqueles que não sentem nem reconhecem os seus pecados. A esses é mostrado o que devem fazer. Entretanto, o evangelho é dirigido àqueles que são afligidos pelo senso de pecado e são tentados a cair no desespero.
Portanto, essas palavras em Ezequiel, "não tenho prazer na morte de ninguém", longe de provarem o "livre--arbítrio", provam exatamente o contrário. Elas mostram quão impotentes somos à parte das promessas de Deus. De fato, vamo-nos tornando cada vez piores, enquanto a graça de Deus não nos é dada. Essas palavras de misericórdia são necessárias para salvar pecadores (a menos que você imagine que Deus diz essas coisas só por dizer). Ninguém aceitará essa promessa divina senão aquele a quem a lei tiver mostrado seu pecado. Aqueles que ainda não sentiram o poder da lei de Deus e não temem a morte eterna e o julgamento, não têm interesse pelas promessas misericordiosas de Deus.


Argumento 10: A vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus.
Na passagem do livro de Ezequiel que acabamos de consi­derar, o profeta não trata, de forma alguma, da questão por que algumas pessoas são convictas do pecado através da lei e outras não. Também não trata de por que algumas pessoas recebem a graça de Deus e outras não.
Precisamos estabelecer clara distinção entre a vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus. Deus, de acordo com a sua vontade secreta, planejou que aqueles aos quais escolheu receberiam sua misericórdia. Não nos compete inquirir a questão, mas adorar reverentemente ao Senhor. Devemo-nos interessar por aquilo que Deus nos tem revelado e não por aquilo que Ele reserva para Si mesmo.
Aplicados ao nosso texto, esses pensamentos signifi­cam que Deus, oculto em sua majestade, não lamenta pela morte do pecador. Mas Deus, como Ele é revelado aos homens, lamenta sobre a morte que vê em seu povo, e tem agido de modo tal que pecado e morte possam ser eliminados. É impossível sermos orientados pela vontade secreta de Deus, pois não sabemos no que ela consiste. Basta-nos saber que a vontade secreta de Deus existe, de modo que venhamos a temê-Lo e adorá-Lo.
Se estamos falando de Deus, da maneira como Ele nos é revelado, é absolutamente certo dizer que a culpa é nossa se perecermos, porque, na verdade, a falha encontra-se na vontade do homem (Mt 23.27). Mas, por que Deus não remove essa falha de cada ser humano, ou por que nos con­sidera responsáveis pelo erro que não podemos evitar, não nos compete indagar a respeito. E mesmo que indagássemos, não obteríamos resposta, conforme diz Paulo, em Romanos 9.20: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?"


Argumento 11: A obrigação não é evidência de capacidade para obedecer.
Você prossegue com o argumento: "Se não está dentro da capacidade de cada indivíduo obedecer ao que é ordenado, então todo encorajamento nas Escrituras, todas as promessas, ameaças, repreensões, bênçãos, maldições e dúzias de exem­plos são inúteis". Porém, conforme já tenho esclarecido por várias vezes, as passagens bíblicas que impõem o senso de dever não podem ser utilizadas para provar a existência de um "livre-arbítrio", conforme você sugere.
Uma das últimas passagens que você emprega em respaldo à sua posição é Deuteronômio 30.11-14, que diz: "Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não é de­masiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires".
Você diz que essas palavras não somente mostram que nos é possível cumprir aquilo que elas nos ordenam, mas que é algo tão fácil quanto cair de uma pinguela! Porém, se realmente esse é o sentido da passagem, então temos de concluir que Jesus Cristo foi um tolo por desperdiçar seu tempo. Ele derramou o seu sangue, a fim de nos garantir o Espírito Santo, embora, o tempo todo, não tivéssemos qual­quer necessidade dEle, porquanto todos podemos fazer, fácil e naturalmente, aquilo que Deus requer de nós. Mas se esse é o caso, como é que isso se coaduna com o seu próprio argumento de que o ponto de vista que o "livre-arbítrio" não pode fazer o bem sem a graça divina é, provavelmente, verdadeiro? Você já se esqueceu de que escreveu isso?
Portanto, quase nem preciso referir-me à explicação de Paulo sobre Deuteronômio 30.11-14, em Romanos 10.8. Pre­ciso apenas examinar essa passagem, para ver que nenhuma palavra é dita a respeito do "livre-arbítrio". Por exemplo, o que significam para você expressões como "não é demasiado difícil", "nem está longe de ti", "nos céus" e "além do mar"? Elas tão-somente aludem a coisas que devemos tentar fazer. Mas nada dizem quanto à nossa capacidade de fazer essas coisas. Elas meramente referem-se à noção de distancia. Eu sei que tudo isso é uma lógica infantil, mas, que posso fazer quando me deparo com argumentos tão tolos? Como é patente, nessa passagem Moisés mostrou ser legislador fiel. Ele deixou o povo sem a desculpa de desconhecer a lei de Deus. Eles não precisavam olhar em lugar algum a fim de tomar conhecimento do que Deus exige. Eles não podiam alegar ignorância, como desculpa por não observar a lei. Eles não podiam dizer que tudo era um mistério. Tudo estava claro para que todos vissem. Então, do "livre--arbítrio" são retiradas todas as desculpas para desobedecer.
Repito que esses textos bíblicos mostram-nos somente aquilo que Deus requer. Mostram-nos o que devemos fazer, mas que não podemos fazer. Seu intuito é mostrar-nos quão impotentes e quão pecaminosos nós somos.


Argumento 12: O homem não deve intrometer-se com a vontade secreta de Deus.
Agora chegamos aos seus textos "comprobatórios" do Novo
Testamento. Você salienta o trecho de Mateus 23.37: "Jeru­salém! Jerusalém!... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" Você argumenta que, se tudo acontece precisamente conforme Deus deseja, então Jeru­salém poderia replicar com justa causa: "Por que desperdiças as tuas lágrimas? Se não tinhas a intenção que déssemos ouvidos aos profetas, então por que os enviaste? Por que nos consideras responsáveis, quando Tu decidiste aquilo que deveríamos fazer?"
Porém, conforme eu já disse, a nós não compete nos intrometermos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão inteiramente fora do nosso alcance (1 Tm 6.16). Deveríamos dedicar o nosso tempo conside­rando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: "...quantas vezes quis eu... e vós não o quisestes!'' Cristo veio a este mundo a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário à sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-nO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar porquê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus.
Neste instante alguns dirão que logo que sou empur­rado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é invenção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos 9.19,21; e Isaías, antes de Paulo (Is 58.2). É evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observamos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-lo. Nós devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a fazê-lo; porém, descobrir-se-á lutando contra Deus. Quanto a nós — ficaremos observando para ver quem vencerá!


Argumento 13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus.
Um outro trecho que você cita é Mateus 19.17: "Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos". Você indaga como é que as palavras "se queres" poderiam ter sido dirigidas a alguém cuja vontade não é livre. No entanto, você já havia concordado que o "livre-arbítrio" não pode querer nenhuma coisa boa e que, sem a graça divina, pode somente servir ao pecado. Como, então, pode querer provar que a vontade humana é inteiramente livre? Será realmente verdade que a cada vez em que dizemos a alguém "se quiseres", ou "se desejas", significa que existe a capacidade de se fazer aquilo? Suponha que digamos o seguinte: "Se você quiser comparar-se a Davi, terá de produzir salmos como os dele". Não estaríamos dizendo que isso nos seria impossível, a menos que Deus nos capacitasse para tanto? Assim, nas Escrituras encontramos expressões similares a essa, para nos mostrar o que pode ser feito no poder de Deus e o que não podemos fazer por nós mesmos. Essas expres­sões não somente mostram coisas que não podemos fazer com nossos poderes naturais, mas também revelam uma promessa do tempo em que essas coisas serão realizadas através do poder de Deus. Poderíamos exprimir o sentido das Escrituras assim: "Se chegares a manifestar a vontade de guardar os mandamentos (o que terás, não por ti mesmo, mas através de Deus, que a dá a quem Ele deseja), então, eles te preservarão".
Dessa maneira, podemos perceber que não podemos fazer nenhuma daquelas coisas que nos são ordenadas, ao mesmo tempo em que podemos fazer todas elas; pois, nossas fraquezas pertencem a nós mesmos e a nossa capacidade nos é dada através da graça de Deus.


Argumento 14: São dadas instruções no Novo Testamento para guiar aqueles que são justificados.
Você emprega um argumento alicerçado em muitas referên­cias do Novo Testamento a respeito de boas e más obras. Por exemplo: "Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (Mt 5.12). Você diz que, se tudo é feito porque assim Deus o deseja, não pode haver qualquer mérito nas boas obras. Isso posto, você quer que o texto signifique que o homem pode fazer, sem a ajuda divina, boas obras que merecerão recompensas no céu. Ora, vejam só! O "livre-arbítrio" tem sofrido algumas distorções, à medida em que o seu livro avança! Não somente o "livre--arbítrio" é capaz de querer e de realizar o bem, mas agora você também quer que o mesmo mereça a vida eterna! Nesse caso, que necessidade temos de Cristo ou do Espírito Santo?
Homens "espertos" podem ser cegos para com as coisas que são perfeitamente claras para as pessoas "co­muns"! Você não consegue perceber a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento. No Antigo Testamento, há leis e ameaças cujo propósito é fazer-nos avançar para as promessas encontradas no Novo (Testamento). No Novo Testamento encontramos o evangelho, onde achamos a graça e o perdão dos pecados, que nos foram obtidos pelo Cristo crucificado. Além disso, há encorajamentos e instruções cujo intuito é despertar aqueles que forem justificados, após ha­verem recebido a graça e perdão, para que produzam o fruto do Espírito e para que carreguem ousadamente a cruz.
Você está cego para com a inteira operação regeneradora do Espírito de Deus, vendo nas Escrituras somente leis por meio das quais os homens deveriam viver. Isso é surpre­endente, em alguém que tem passado tanto tempo estudando as Escrituras. Esse texto (Mt 5.12) tem tanto a ver com o "livre-arbítrio" como a luz tem a ver com as trevas, tendo por único desígnio encorajar os apóstolos, que já estavam debaixo da "graça divina", a fim de perseverarem diante das dificuldades do mundo.


Argumento 15: A base para o galardão do crente é a promessa de Deus e não o mérito do homem.
O "galardão", referido em Mateus 5.12, é uma espécie de promessa. Uma promessa, entretanto, não prova que podemos fazer coisa alguma. Prova apenas que, se fizermos certas coisas, seremos galardoados. A questão é se realmente podemos fazer as coisas em razão das quais o galardão é dado. Alguns dizem: O prêmio é posto perante todos os que correm, assim sendo, todos podem correr e obter o prêmio! Não é essa uma lógica absurda? Poderia ser útil para alguns, se a noção do "livre- arbítrio" pudesse ser estabelecida por meio de tais argumentos!
Você procura argumentar que se Deus já decidiu tudo de antemão, então não podemos falar em galardões. Se quer dizer com isso que você não recompensaria quem trabalha com má vontade, eu estou de acordo. Porém, quando as pessoas praticam o bem ou o mal voluntariamente, então segue-se, com toda a justiça, o galardão ou a punição. Isso é verdade, mesmo quando as pessoas são incapazes de alterar a sua vontade por seus próprios esforços. Se, porém, só podemos desejar fazer o que é bom capacitados pela graça divina, daí é óbvio, que o mérito e o galardão provêem exclusivamente da graça divina.
Entretanto, não deveríamos falar sobre méritos hu­manos. Melhor é falar acerca das conseqüências daquilo que fazemos. Nada existe de bom ou de mal que não venha a receber sua devida retribuição. O inferno e o julgamento divino, certa e seguramente, esperam pelos ímpios. Da mesma forma, um reino por certo espera pelos piedosos,
porque o mesmo foi preparado para eles por seu Pai celeste (Mt 25.34). Se tentarmos fazer o bem a fim de merecer receber o reino de Deus, haveremos de fracassar, mostrando assim que somos ímpios. Os filhos de Deus fazem o bem visando a glória de Deus, não alguma recompensa.
Por conseguinte, qual é o significado daquelas pas­sagens bíblicas que prometem o reino de Deus ou ameaçam com o inferno? (Gn 15.1; 2 Cr 15.7; Jó 34.11; Rm 2.7). Elas simplesmente mostram o resultado de uma vida boa ou de uma vida má. Seu propósito é instruir e alertar. Nada dizem a respeito de mérito, mas ensinam aquilo que devemos fazer, encorajando-nos a prosseguir até ao fim (Gn 15.1; 1 Co 15.58; 16.13). É como se quiséssemos consolar alguém, dizendo que o que ele está fazendo agrada a Deus, ou como se quiséssemos advertir a alguém, dizendo que o que ele está fazendo desagrada a Deus.
Mesmo assim, você argumenta: "Por que Deus importa-se em dizer-nos essas coisas, quando todas elas já foram determinadas de antemão?" A resposta é que Deus produz em nós o seu propósito por intermédio da sua Palavra. O Senhor poderia fazer essas coisas sem a sua Palavra; to­davia, agradou-Lhe fazer de nós seus cooperadores. Portanto, Ele nos diz essas coisas em sua Palavra, a fim de envolver-nos em seu plano. Por conseguinte, vemos que Deus realiza em nós a sua vontade, e também nos apresenta a sua Palavra, com o intuito de dizer ao mundo inteiro quais os fatos a respeito dos galardões e das punições, a fim de que o seu poder e a sua glória, bem como a nossa debilidade e impiedade, sejam proclamadas por todo o mundo. E essas verdades, que tantos desprezam, serão recebidas pelos corações dos piedosos.


Argumento 16: A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade.
Erasmo, você alicerça seu argumento nas palavras de Mateus 7.16, que dizem: "Pelos seus frutos os conhecereis...", asseverando que a Bíblia diz que o fruto é nosso, e que, portanto, não pode o mesmo ser-nos dado por Deus através do seu Espírito. Esse é um argumento tolo! Pois, é dito que Cristo é nosso, embora O tenhamos recebido. Os nossos olhos são nossos embora não os tenhamos criado! E em seguida, você usa outro argumento, alicerçado em Lucas 23.34: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Você afirma que se a nossa vontade não é livre, então teria sido mais certo se Jesus tivesse desculpado os seus assassinos, por não terem eles "livre-arbítrio", e nem poderem eles agir de outra maneira. A resposta, entretanto, encontra-se nas próprias palavras de nosso Senhor: "...não sabem o que fazem". Poderia ser dito ainda mais claramente que Cristo estava afirmando que seus algozes eram incapazes de querer fazer o que é bom? Como poderiam querer fazer aquilo que desco­nheciam? Nenhuma afirmativa mais forte pode ser apresentada acerca da pobreza da vontade humana. Não somente a von­tade humana não pode fazer o bem, mas também nem ao menos reconhece quanto mal está fazendo, nem conhece no que consiste o bem!
Em seguida, você usa novamente o trecho de João 1.12: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome", e argumenta que não lhes poderia ter sido conferido o direito de tornarem-se filhos de Deus, se não houvesse liberdade da vontade. Atentemos cuidadosamente ao que diz esse versículo. João fala da completa transformação de quem, sendo filho do diabo, passa a ser um filho de Deus. Esse alguém nada/ez, foi transformado em algo! Tornamo--nos filhos de Deus através da operação de Deus, e não por qualquer atuação do "livre-arbítrio" em nós. João está nos dizendo que o evangelho da graça, que não impõe a exigência de obras, cria uma esplêndida oportunidade para todos os homens tornarem-se filhos de Deus, se vierem a crer no Senhor. Todavia, esse querer e esse crer são questões acerca das quais eles não tinham qualquer conhecimento prévio.
Muito menos ainda, eles poderiam fazer essas coisas con­tando apenas com suas próprias forças. Os homens jamais poderiam conceber, por si mesmos, um evangelho que en­volvesse fé em Cristo como sendo ambos, Filho de Deus e Filho do homem. Como, portanto, poderiam eles estar dispostos ou ser capazes de receber o evangelho? João não estava anunciando as virtudes do "livre-arbítrio", e, sim, as riquezas do reino de Deus, dadas a conhecer ao mundo inteiro, através do evangelho. João também mostrou quão poucos são aqueles que recebem o evangelho, exatamente pela razão que o "livre-arbítrio" dos homens a ele se opõe. O poder do "livre-arbítrio" resume-se nisto — Satanás domina-o inteiramente, de tal maneira que o "livre-arbítrio" rejeita a graça de Deus. E também rejeita o Espírito Santo, o qual cumpre em nós a lei, visto que o "livre-arbítrio" imagina que é capaz de obedecer à lei mediante os seus próprios esforços.
Por fim, você cita Paulo como apoio a sua posição. (Logo Paulo, o grande adversário da idéia do 'livre-arbítrio"!) Você usa o trecho de Romanos 2.4: "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" E então indaga: "Como poderiam ser acusados de desprezar as realidades divinas, aqueles que não possuem o iivre--arbítrio'? Visto que Deus é o Juiz que compele os homens a praticarem o mal, como poderia Ele condená-los?" Será que você não vê que as palavras de Romanos 2.4 são uma advertência, cujo propósito é fazer os ímpios perceberem quão incapazes são? Tendo-os humilhado, Deus queria prepará-los para acolherem a sua graça.


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