sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O Que Ensinam as Escrituras cont..

Argumento 1: A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça." Se todos os homens possuem "livre-arbítrio", ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os está conduzindo a uma única direção — da "impiedade e da iniqüidade". Por­tanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus.
Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não se­guir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não "detêm a verdade pela injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens.
Além do mais, notemos o que Paulo escreveu ime­diatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis di­vinas em seus mínimos detalhes, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas esses não os aproximaram em nada de Deus. Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu "livre--arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles.
Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se revela". Por conseguinte, Deus mostra a sua retidão aos homens. Deus, porém, não é um tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, ninguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é en­sinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Deus-Homem, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios levou-os a deixarem de buscar a justiça Divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores tornam-se as coisas.
Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos — um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. Ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-Se a eles. Se fosse possível ao "livre-arbítrio" dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores condenados juntamente com todo o resto dos homens. Ora, se todos os homens são possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto "livre-arbítrio" é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre.


Argumento 2:0 domínio universal do pecado prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensina­mento. Diz ele em Romanos 3.9: "Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado".
Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como tam­bém são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios têm-se mostrado capazes de desvencilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem.
Essa escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O mais admirável que há nos homens é sua razão e sua vontade, todavia, é forçoso reconhecer que essa mais nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12: "Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extra­viaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer". O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo.
Talvez alguma pessoa audaciosa atreva-se a dizer que somos capazes de fazer mais do que de fato fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somos capazes de fazer, e não o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo, em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto a incapaci­dade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os homens fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimentarem-se na direção de Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus permitiria que os homens salvassem-se a si mesmos. Porém, nenhum deles está apto nem ao menos a fazer a tentativa.
No trecho de Romanos 3.19, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá ar­gumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor — nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontanea­mente para Ele. Se alguém disser: "Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus", esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz as Escrituras.
Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode nem mesmo sussurrar uma palavra contra elas!


Argumento 3:0 "livre-arbítrio" não pode obter aceitação diante de Deus através da observância da lei moral e cerimonial.
Eu argumento que quando Paulo disse em Romanos 3.20,21: "...ninguém será justificado diante dele por obras da lei", pensou na lei moral (os dez mandamentos), bem como na lei cerimonial. Tem-se generalizado a idéia de que Paulo tinha em mente apenas a lei cerimonial — o ritual de sacri­fícios de animais e a adoração no templo. É espantoso que chamem Jerônimo, que criou essa idéia, de santo! Eu o clas­sificaria de forma bem diferente! Jerônimo declarou que a morte de Cristo pôs fim a qualquer possibilidade de alguém ser justificado (ou declarado justo) por meio da observância da lei cerimonial. Mas deixou inteiramente aberta a possi­bilidade de alguém ser justificado mediante a observância da lei moral, contando apenas com as suas próprias forças, sem a ajuda de Deus.
Minha resposta a isso é que se Paulo quis dar a enten­der somente a lei cerimonial, então o argumento do apóstolo não tem qualquer significado. Paulo estava afirmando que todos os homens são injustos e necessitados da graça especial de Deus — o amor, a sabedoria e o poder de Deus — por intermédio dos quais Ele nos salva. O resultado da idéia de Jerônimo seria que a graça de Deus é necessária para salvar-nos da lei cerimonial, mas não da lei moral. Toda­via, nós não podemos observar a lei moral à parte da graça divina. Você pode intimidar as pessoas para que observem as cerimônias, mas nenhum poder humano pode forçá-las a guardar a lei moral. Paulo estava argumentando que não podemos ser justificados diante de Deus mediante a tentativa de guardar a lei moral, ou mesmo a lei cerimonial. Comer e beber, e fazer outras coisas semelhantes, em si mesmos, nem nos justifica nem nos condena.
Irei ainda mais longe, afirmando que Paulo queria dizer que a totalidade da lei, e não alguma porção particular dela, é obrigatória a todos homens. Se a lei não se aplicasse mais aos homens devido a morte de Cristo, tudo quanto Paulo precisava dizer era isto e nada mais. Em Gaiatas 3.10, Paulo escreveu: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-las". Nesse texto, Paulo busca apoio em Moisés para afirmar que a lei é imposta sobre todos os ho­mens, e que o fracasso na obediência à lei sujeita todos os homens à maldição divina.
Nem os homens que procuram obedecer a lei, nem aqueles que não tentam guardá-la estão justificados diante do Senhor, porquanto todos estão espiritualmente mortos. O ensinamento de Paulo é que há duas classes de pessoas no mundo — aquelas que estão espiritualmente vivas e aquelas que não estão. Isso está em harmonia com o ensinamento de Jesus Cristo em João 3.6: "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Para as pessoas que não possuem o Espírito Santo, a lei é sem utilidade. Não importa quanto procurem guardar a lei, não serão justificadas exceto pela fé.
Finalmente, portanto, se existe tal coisa como o "livre--arbítrio", deve ser a mais nobre das capacidades humanas, porque, mesmo sem o Espírito Santo, professa possibilitar o homem a guardar a lei inteira! Entretanto, Paulo assevera que aqueles que são das "obras da lei" não estão justificados. Isso significa que o "livre-arbítrio", mesmo considerado por seu melhor ângulo, é incapaz de corrigir a situação do homem diante de Deus. De fato, em Romanos 3.20, Paulo afirma que a lei é necessária para mostrar-nos no que consiste o pecado: ".. .pela lei vem o pleno conhecimento do pecado''. Aqueles que são das "obras da lei" não são capazes de reconhecer o que o pecado realmente é. A lei não foi dada a fim de mostrar aos homens o que eles podem fazer, mas para corrigir as suas idéias sobre o que é o certo e o errado aos olhos de Deus. O "livre-arbítrio" é cego, porquanto precisa ser ensinado pela lei. E também é impotente, pois não consegue justificar a ninguém diante de Deus.


Argumento 4: A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o conhecimento do pecado.
O argumento a favor do "livre-arbítrio" é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: "Se nada po­demos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?" A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: "...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz — à morte, ao inferno e à ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusiva­mente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o "livre-arbítrio" podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o "livre--arbítrio" precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gaiatas 3.19: "Qual, pois, a razão de ser da lei?" Entretanto, a resposta de Paulo à sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do "livre-arbítrio". Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pes­soa de Cristo. Portanto, as palavras de Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o "livre-arbítrio" seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7: ''.. .pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás". Isso significa que o "livre-arbítrio" nem mesmo reconhece o que o pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo?


Argumento 5: A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o "livre-arbítrio" é falso.
No trecho de Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: "Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante o redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé..." Essas palavras são quais raios contra a idéia do "livre-arbítrio". Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem me­diante a observância da lei. O "livre-arbítrio" só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra clara­mente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Sem importar o quanto possamos imagi­nar um suposto "livre-arbítrio", como capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza in­teiramente diferente. É impossível que o "livre-arbítrio" consiga resistir a assaltos de versículos como esses.
Esses versículos desfecham ainda outro raio contra o "livre-arbítrio". Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém pode negar que o suposto poder do "livre-arbítrio" é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o "livre-arbítrio", se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus.
O trecho de Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz que todos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio "livre-arbítrio". Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos aceitáveis diante de Deus através do "livre-arbítrio", então Paulo seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência ensina-nos que coisa alguma em nós agrada a Deus. Per­gunte àqueles que defendem o "livre-arbítrio" se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma.
Até mesmo aqueles que acreditam no "livre-arbítrio" precisam concordar comigo que não podem glorificar a Deus, contando apenas com os seus próprios recursos. A despeito do seu "livre-arbítrio", eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim, eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o "livre-arbítrio" não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o "livre--arbítrio" é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer idéia de "livre-arbítrio".


Argumento 6: Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras.
Aqueles que pregam o "livre-arbítrio" afirmam que se não há "livre-arbítrio" então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa.
O que dirão os defensores do "livre-arbítrio" a res­peito da palavra "gratuitamente", em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são "justificados gratuitamente por sua graça". Como interpretam "por sua graça"? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu "livre-arbítrio", e tentou tornar-se justa, enquanto que a outra não o fez. Ora, isso transforma Deus em alguém que diferencia pessoas, ao passo que a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pouco através de seu "livre-arbítrio" para obterem a salvação. Afirmam que o "livre-arbítrio" tem apenas um pouco de merecimento — não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o "livre-arbítrio" torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igualmente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusiva­mente a elas a culpa, se não recebem a graça divina.
Portanto, sem importar se esse "livre-arbítrio" tem grande ou pequeno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do "livre-arbítrio". Toda­via, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados "gratuitamente". Aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" possui apenas um pequeno mérito erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o "livre-arbítrio" tem mérito suficiente para obter o favor de Deus. Portanto, em quase coisa alguma diferem um do outro.
Na verdade esses defensores da idéia do "livre--arbítrio" nos dão um perfeito exemplo do que significa "saltar da frigideira para dentro do fogo". Quando eles dizem que o "livre-arbítrio" tem apenas um pequeno mérito, eles pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" envolve um grande mérito (os chamados "pelagianos") conferem um elevado preço à graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, podendo ser obtida por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas idéias usando apenas uma palavra — "gratuita­mente" (Rm 3.24). Mais adiante, em Romanos 11.6, ele assevera que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: "E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do "livre-arbítrio", estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteira­mente da graça divina.


Argumento 7: O "livre-arbítrio" não tem valor porque as obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus.
Passarei agora a considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2,3: "Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi im­putado para justiça". Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto em questão é que essa justiça não lhe outorgou a salvação. Ninguém discorda que as obras más não são aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino, entretanto, é que nem mesmo as boas obras nos tor­nam aceitáveis diante de Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5, Paulo contrasta a pessoa "que trabalha" com aquela que "não trabalha". A justificação, que eqüivale a aceitação diante de Deus, não é atribuída "àquele que trabalha", mas àquele que "não tra­balha" mas crê no Senhor. Não há posição intermediária.


Argumento 8: Um punhado de refutações.
Preciso mencionar, de passagem, mais alguns argumentos contra o "livre-arbítrio". Mas me referirei a eles apenas de modo breve, embora cada um deles, de per si, pudesse destruir completamente a idéia do "livre-arbítrio".
Por exemplo, a fonte da graça mediante a qual somos salvos é o propósito eterno de Deus. Isso sem dúvida anula a sugestão de que Deus é gracioso para conosco por causa de alguma coisa que possamos fazer.
Um outro argumento alicerça-se sobre o fato que Deus prometeu a salvação por meio da graça (a Abraão), antes mesmo do Senhor haver dado a lei. Paulo argumenta, em Romanos 4.13-15 e Gaiatas 3.15-21, que se somos salvos mediante a observância da lei, através do "livre-arbítrio", isso significaria que a promessa da salvação pela graça foi cancelada. E a fé, igualmente, perderia o seu valor.
Paulo também nos diz que a lei pode apenas revelar o pecado, sendo incapaz de removê-lo. Visto que o "livre--arbítrio" só pode operar com base na observância da lei, não pode haver retidão aceitável diante de Deus obtida pelo "livre-arbítrio".
Em último lugar, estamos todos debaixo da conde­nação divina, em face da pecaminosa desobediência de Adão. Estamos todos sujeitos a essa condenação, desde nosso nas­cimento, incluindo aqueles que são possuidores do "livre-arbítrio" — se pessoas assim existem! De que outra forma então poderia o "livre- arbítrio" nos ajudar, senão a pecar e a merecer a condenação?
Eu poderia ter deixado de lado esses argumentos, apresentando tão-somente um comentário geral sobre os escritos de Paulo. Todavia, quis demonstrar quão ignorantes mentalmente são os meus oponentes, por deixarem de per­ceber com clareza essas simples questões. Deixo que meditem sozinhos a respeito desses argumentos.


Argumento 9: Paulo é absolutamente claro ao refutar o "livre-arbítrio".
Os argumentos usados por Paulo são tão claros que é de admirar que alguém possa compreendê-los mal. Diz ele: "...todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer..." Estou admirado do fato que certas pessoas afirmam: "Algumas pessoas não se extraviaram, não se fizeram inúteis, não são más e nem pecadoras. Há alguma coisa no homem que o inclina para o bem". Ora, Paulo não fez essas declarações em apenas algumas passagens isoladas. Algumas vezes ele as fez em termos positivos, em outras vezes, em termos negativos, usando palavras diretas ou utilizando contrastes. O sentido literal de suas palavras, todo o contexto e o escopo inteiro de seu argumento afunila-se neste pensamento: à parte da fé em Cristo nada existe senão pecado e condenação. Meus oponentes estão derrotados, ainda que não queiram se ren­der! Porém, não está ao meu alcance convencê-los disso. Deixo isso à operação do Espírito Santo.


Argumento 10: O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o "livre-arbítrio" nada pode fazer de natureza espiritual.
No trecho de Romanos 8.5, Paulo divide a humanidade em duas categorias — aqueles que são da "carne" (ou da natureza pecaminosa) e aqueles que são do "Espírito" (ver também João 3.6). Isso só pode significar que aqueles que não têm o Espírito estão na carne e continuam presos à uma natureza pecaminosa. Paulo insiste que "...se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle" (Rm 8.9). Isso significa, obviamente, que aqueles que estão sem o Espírito pertencem a Satanás. O "livre-arbítrio" não os tem beneficiado muito! Paulo afirma que "...os que estão na carne não podem agradar a Deus" (Rm 8.8). Ele diz que "...o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8.7). É impossível que tais pessoas possam fazer qualquer esforço, por conta própria, para agradar a Deus.
Um homem de nome Orígenes sugeriu que cada pessoa tem uma "alma" dotada da capacidade de voltar-se para a "carne" ou para o "Espírito". Mas isso é apenas produto de sua imaginação. Ele sonhou com tal idéia! Ele não tinha qualquer prova para o que afirmava. Na verdade, não há posição intermediária. Tudo que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são hostis a Deus. Trata-se do mesmo ensinamento ministrado por Cristo, em Mateus 7.18, de que uma árvore má não pode produzir bom fruto. E também está em harmonia com a dupla declaração de Paulo — "O justo viverá por fé" (Rm 1.17), e "tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm 14.23). Aqueles que não têm fé não estão justificados; e aqueles que não estão justificados são pecadores, nos quais qualquer suposto "livre-arbítrio" só pode produzir o mal. Portanto, o "livre--arbítrio" nada é senão um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal "liberdade", enfim, não é liberdade alguma.


Argumento 11: Aqueles que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo.
Em Romanos 10.20, Paulo cita de Isaías 65.1: "Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui achado daqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui". Paulo reconhecia, por sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,31, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do "livre--arbítrio" do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuita­mente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender.


Argumento 12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente mediante a fé.
Voltemo-nos agora para João, que também escreveu com eloqüência contra o "livre-arbítrio". Diz ele, em João 1.5: "A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela". E, em João 1.10,11: "Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o rece­beram". Por "mundo", João dá a entender a humanidade inteira. Visto que o "livre-arbítrio" seria umas das mais ex­celentes faculdades do homem, deve ser incluído em qualquer coisa em que João diz acerca do "mundo". Por conseguinte, de acordo com esses textos, o "livre-arbítrio" não reconhece a luz da verdade, mas antes, odeia a Cristo e ao seu povo. Muitas outras passagens, como João 7.7; 8.23; 14.7; 15.19; e 1 João 2.16; 5.19, proclamam que o "mundo" (o que inclui, especialmente, o "livre-arbítrio") está debaixo do controle de Satanás.
O "mundo" inclui tudo quanto não foi separado para Deus por meio do Espírito Santo. Ora, se tivesse havido alguém neste mundo que, por meio de seu "livre-arbítrio", tivesse chegado a conhecer a verdade e que, por intermédio do "livre-arbítrio", não tivesse odiado a Cristo, então João teria alterado o que escreveu. Entretanto, ele não o fez. Torna-se evidente, portanto, que o "livre-arbítrio" é tão culpado quanto o "mundo". Em João 1.12,13, o mesmo apóstolo prossegue: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". As palavras "não nasceram do sangue" significam que é inútil alguém depender de sua origem familiar ou do local do seu nascimento. As palavras "nem da vontade da carne" apontam para a insensatez de se depender das obras da lei. E as palavras "nem da vontade do homem" mostram que nenhum esforço humano pode conseguir tornar alguém aceitável a Deus.
Se é que o "livre-arbítrio" tem alguma utilidade, então João não deveria ter rejeitado a "vontade do homem", por­quanto, de outro modo, estaria em perigo conforme Isaías 5.20: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal". Não há margem para dúvida de que a origem familiar é inútil para que alguém, através dela, venha a obter a salvação, porque em Romanos 9.8 Paulo escreve: "Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa".
Além disso, João também afirma, em João 1.16: "Por­que todos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça". Isso posto, recebemos bênçãos espirituais exclusiva­mente através da graça derivada de Outrem, e não através de nossos próprios esforços. Duas idéias contrárias não po­dem ser ambas verdadeiras. É impossível que a graça divina seja tão sem valor que qualquer um, em qualquer lugar, seja capaz de obtê-la, ao mesmo tempo que essa graça é tão valiosa que só podemos recebê-la através dos méritos de um único homem, Jesus Cristo.
Como eu gostaria que os meus opositores percebessem que quando advogam a causa do "livre-arbítrio", estão negando a Cristo. Se podemos obter graça divina mediante o nosso "livre-arbítrio", então não temos necessidade de Cristo. E, se temos a Cristo, não precisamos do "livre--arbítrio". Aqueles que defendem o "livre-arbítrio" atestam sua negação a Cristo por meio de suas ações, porquanto alguns deles chegam ao extremo de apelar para a intercessão de Maria e de "santos", não dependendo de Cristo como o único mediador entre Deus e o homem. Todos esses têm abandonado a Cristo em sua obra como mediador e gracioso salvador, considerando os méritos de Cristo de menor valor do que seus próprios esforços.


Argumento 13: O caso de Nicodemos, no terceiro capítulo de João, opõe-se ao "livre-arbítrio".
Consideremos as virtudes de Nicodemos (Jo 3.1,2). Ele confessa que Cristo era idôneo e que viera da parte de Deus. Faz alusão aos milagres realizados por Cristo e procura-O a fim de ouvir algo de sua própria boca. Porém, ao ouvir falar sobre o novo nascimento (Jo 3.3-8), porventura Nico­demos admite que era isso o que ele vinha buscando? Não! Ele ficou atônito e confuso, repelindo a idéia, a princípio, como uma impossibilidade (Jo 3.9). Porventura os maiores filósofos chegaram a mencionar o novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar por aquelas realidades perten­centes à salvação antes da chegada do evangelho. Ora, quando admitem isso, estão admitindo que o seu "livre-arbítrio" é ignorante e incapaz! Por certo, aqueles que ensinam o "livre-arbítrio" estão loucos; porém não se calarão nem darão glórias a Deus.


Argumento 14: O "livre-arbítrio" não tem utilidade, pois a salvação vem somente por meio de Cristo.
Torna-se claro, em João 14.6, onde se lê que Jesus Cristo é o "caminho, e a verdade, e a vida", que a salvação só pode ser encontrada em sua pessoa. Sendo essa a verdade, tudo quanto está fora de Cristo só pode ser trevas, falsidade e morte. Qual necessidade haveria da vinda de Cristo a este mundo, se os homens, naturalmente, pudessem compreender o caminho de Deus, entender a verdade de Deus e compar­tilhar da vida de Deus?
Nossos opositores dizem que os homens perversos possuem "livre-arbítrio", embora abusem dele. Se isso fosse realmente assim, então haveria algo de bom no pior dos homens. E se isso fosse realmente verdade, então Deus seria injusto ao condená-los. Entretanto, João diz que aqueles que não crêem em Jesus Cristo já estão condenados (Jo 3.18). Todavia, se os homens fossem possuidores dessa coisa boa chamada "livre-arbítrio", então João deveria ter dito que os homens só estão condenados por causa de sua parte má, e não devido àquela boa parte neles existente. As Escrituras dizem: "...o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (Jo 3.36). Sem dúvida está em pauta todo o homem. Pois, se assim não fosse, então haveria uma parte no homem capaz de impedi-lo de ser condenado, e ele poderia continuar pe­cando sem o menor temor, firmado no conhecimento que não poderia ser condenado.
Também lemos em João 3.27 que "o homem não pode receber cousa alguma se do céu não lhe for dada". Isso refere-se especialmente a capacidade da pessoa cumprir a vontade de Deus. Somente aquilo que vem do alto pode ajudar um homem a cumprir a vontade do Senhor. Mas o "livre--arbítrio" não vem do alto, o que significa que o "livre-arbítrio" é inútil.
Em João 3.31, diz ainda o mesmo apóstolo: ".. .quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos". Ora, por certo o "livre-arbítrio" não tem origem celestial. Pertence à terra, não lhe havendo outra possibilidade. E, assim sendo, isso só pode significar que o "livre-arbítrio" nada tem a ver com as realidades celes­tiais; cogita somente das coisas terrenas. O Senhor Jesus afirma, em João 8.23: "Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou". Se essa afirmativa de Jesus quisesse dizer apenas que os corpos de seus ouvintes eram terrenos, tal declaração seria desne­cessária, pois eles já sabiam disso. O que Jesus quis dizer é que aos seus ouvintes faltava, de modo absoluto, qualquer poder espiritual, e que este só poderia ser recebido de Deus.


Argumento 15: O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não podem salvá-lo.
Na passagem de João 6.44, Jesus Cristo diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer". Isso não deixa qualquer espaço para o "livre-arbítrio". E o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é trazido pelo Pai: "Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim" (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações.
De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo. Entretanto, quando o Pai mostra aos homens quão ma­ravilhoso é seu Filho, àqueles a quem tem dado entendimento espiritual, eles são atraídos a Cristo. Essas pessoas já são "ovelhas" e conhecem a voz do pastor!



Argumento 16: A incredulidade universal prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em João 16.8, Jesus afirma que o Espírito Santo viria "para convencer o mundo do pecado..." E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no fato que os homens "não crêem em mim''. Ora, esse pecado de incredulidade não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens, sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa lhes ser revelada pelo Espírito Santo. Portanto, tudo quanto existe no homem, incluindo o "livre-arbítrio", está condenado aos olhos de Deus, contribuindo apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não a revelar. A totali­dade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de Satanás, do pecado, da morte e da ira divina. Somente Cristo pode resgatar os homens do reino de Satanás. Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão-somente pela graça de Deus.


Argumento 17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do "livre-arbítrio".
Por alguma razão, Erasmo, você ignorou os meus argumentos baseados em Romanos 7 e em Gaiatas 5. Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força da "carne" é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são dotadas do Espírito de
Deus, não somente falham em fazer o que é direito, como até mesmo lutam contra isso. Portanto, que possibilidade há de que aqueles que são destituídos do novo nascimento venham a praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8.7: " ...o pendor da carne é inimizade contra Deus". Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de derrubar por terra esse argumento!


Argumento 18: Saber que a salvação não depende do "livre-arbítrio" pode ser muito reconfortante.
Confesso que eu não gostaria de possuir "livre-arbítrio" ainda que o mesmo me fosse concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os quais teria de lutar. Porém, mesmo que não hou­vesse inimigos a combater, eu jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de haver agradado a Deus, ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso provar isso mediante a minha própria dolorosa experiência de muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas. Ele será fiel à sua pro­messa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas de conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que o meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do "livre-arbítrio", nin­guém poderá ser salvo. Mas, por meio da "livre graça", muitos serão salvos. E não somente isso, mas também alegro--me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por causa daquilo que faço, mas por causa de sua graça. Se tra­balho muito pouco ou errado demais, graciosamente Ele me perdoará e me fará melhorar. Essa é a glória de todo cristão.

Argumento 19: A honra de Deus não pode ser maculada.
Talvez alguém fique preocupado, pensando que é difícil defender a honra de Deus em meio a tudo isso. E talvez diga: "Afinal de contas, Deus condena aqueles que não podem evitar de ser pecaminosos, e que são forçados a per­manecer dessa maneira porque Ele não os escolheu para a salvação". Como Paulo diz: "...éramos por natureza filhos da ira, como também os demais" (Ef 2.3). Porém, você poderá ver essas questões por um outro ângulo. Deus deveria ser reverenciado e respeitado por ser misericordioso para todos quantos Ele justifica e salva, embora sejam totalmente indignos. Sabemos que Deus é divino. Ele também é sábio e justo. A sua justiça não é da mesma categoria que a justiça humana. Ela está acima de nosso poder de apreensão plena, conforme Paulo exclama, em Romanos 11.33: "Ó profun­didade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!" Se concordamos que a natureza, o poder, a sabedoria e o conhecimento de Deus estão muito acima dos nossos, então também deveríamos acreditar que a sua justiça é maior e melhor do que a nossa. Ele nos fez a promessa de que quando chegar a revelar para nós a sua glória, então veremos claramente aquilo no que agora de­vemos acreditar — que Ele é justo, sempre o foi e sempre o será.
Eis um outro exemplo. Se você usar da razão humana para considerar a maneira como Deus governa os aconteci­mentos do mundo, será forçado a dizer ou que Deus não existe, ou que Deus é injusto. Os ímpios prosperam e os piedosos sofrem (Jó 12.6 e SI 73.12), e isso parece ser in­justo. Por esse motivo, muitos homens negam a existência de Deus e dizem que as coisas acontecem impelidas pelo acaso. A resposta que damos a essa questão é que há uma vida após a vida presente, e que tudo quanto não tiver sido castigado e corrigido nesta vida, será castigado e corrigido na vida futura. A vida terrena nada mais é que uma prepara­ção para ou o começo da vida que virá. Esse problema tem sido debatido por toda a História, mas a solução não tem sido encontrada, exceto pela crença no evangelho, conforme ele se acha nas páginas da Bíblia. Três raios de luz brilham sobre essa questão: o raio da natureza, o da graça divina e o da glória celestial. Mediante o raio de luz da natureza, Deus parece ser injusto, porquanto os piedosos sofrem e os ímpios prosperam. O raio de luz da graça divina ajuda-nos a compreender melhor as coisas, embora ainda não explique como Deus pode condenar alguém que, por suas próprias forças, nada pode fazer senão pecar e ser culpado. Somente o raio de luz da glória celeste explicará isso plenamente, naquele dia vindouro, quando Deus revelar a Si mesmo como inteiramente justo, embora os seus juízos ultrapassem a nossa limitada compreensão de seres humanos. Um homem pie­doso crê que Deus conhece de antemão e preordena todas as coisas, e que nada acontece senão pela sua soberana vontade. Nenhum homem, ou anjo, ou qualquer outra criatura, em vista desses fatos, é dotado de "livre-arbítrio". Satanás é o príncipe deste mundo e conserva cativos a todos os homens, a menos que eles sejam libertos pelo poder do Espírito Santo.






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