Argumento
1: A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é
falso.
Em Romanos 1.18, Paulo
ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por
Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão
dos homens que detêm a verdade pela injustiça." Se todos os homens possuem
"livre-arbítrio", ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção,
estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os
está conduzindo a uma única direção — da "impiedade e da iniqüidade".
Portanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a
fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não
parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa
sob a ira de Deus.
Algumas pessoas, no
entanto, acusam-me de não seguir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as
palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a
verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem
exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a
entender que algumas pessoas não "detêm a verdade pela
injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase
tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de
todos os homens.
Além do mais, notemos o
que Paulo escreveu imediatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo
declara que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação de todo aquele
que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através
do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus.
Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos
gentios. Os judeus conheciam as leis divinas em seus mínimos detalhes, mas
isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de
admiráveis benefícios culturais, mas esses não os aproximaram em nada de Deus.
Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação
diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu
"livre--arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em
condenar a todos eles.
Observemos igualmente
que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se revela".
Por conseguinte, Deus mostra a sua retidão aos homens. Deus, porém, não é um
tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu
tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando
Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do
evangelho. Sem isso, ninguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a
história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela
nos é ensinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com
Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Deus-Homem,
Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar
de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a
justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios levou-os a deixarem de
buscar a justiça Divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira.
Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores
tornam-se as coisas.
Não existe um terceiro
grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos
— um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios
constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de
Deus. Ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a
iniciativa e revelar-Se a eles. Se fosse possível ao "livre-arbítrio"
dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar,
tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos
esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram
aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores
condenados juntamente com todo o resto dos homens. Ora, se todos os homens são
possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados e
estão condenados, então esse suposto "livre-arbítrio" é impotente
para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal,
não é livre.
Argumento
2:0 domínio universal do pecado prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Precisamos permitir que
Paulo explique o seu próprio ensinamento. Diz ele em Romanos 3.9: "Que se
conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de
forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos,
estão debaixo do pecado".
Não somente são todos os
homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também
são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus,
os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus.
Mas, visto que nem judeus nem gentios têm-se mostrado capazes de desvencilharem-se
dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a
praticar o bem.
Essa escravidão
universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais
retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a
mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O mais admirável que há nos
homens é sua razão e sua vontade, todavia, é forçoso reconhecer que essa mais
nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12:
"Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a
Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem,
não há nem um sequer". O significado dessas palavras é perfeitamente
claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum
ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por
conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente
incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo.
Talvez alguma pessoa
audaciosa atreva-se a dizer que somos capazes de fazer mais do que de fato
fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somos capazes de fazer, e não
o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo,
em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto
a incapacidade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os
homens fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimentarem-se na
direção de Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus
permitiria que os homens salvassem-se a si mesmos. Porém, nenhum deles está
apto nem ao menos a fazer a tentativa.
No trecho de Romanos
3.19, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém
poderá argumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa
alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor — nem ao menos um arbítrio livre para
voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: "Tenho uma
capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus", esse
alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus
possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz
as Escrituras.
Deus ordenou que toda
boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados
diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão
condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma
capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém,
até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade.
Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma
procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e
merecem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode
nem mesmo sussurrar uma palavra contra elas!
Argumento
3:0 "livre-arbítrio" não pode obter aceitação diante de Deus através
da observância da lei moral e cerimonial.
Eu argumento que quando
Paulo disse em Romanos 3.20,21: "...ninguém será justificado diante dele
por obras da lei", pensou na lei moral (os dez mandamentos), bem como na
lei cerimonial. Tem-se generalizado a idéia de que Paulo tinha em mente apenas
a lei cerimonial — o ritual de sacrifícios de animais e a adoração no templo.
É espantoso que chamem Jerônimo, que criou essa idéia, de santo! Eu o classificaria
de forma bem diferente! Jerônimo declarou que a morte de Cristo pôs fim a
qualquer possibilidade de alguém ser justificado (ou declarado justo) por meio
da observância da lei cerimonial. Mas deixou inteiramente aberta a possibilidade
de alguém ser justificado mediante a observância da lei moral, contando apenas
com as suas próprias forças, sem a ajuda de Deus.
Minha resposta a isso é
que se Paulo quis dar a entender somente a lei cerimonial, então o argumento
do apóstolo não tem qualquer significado. Paulo estava afirmando que todos os
homens são injustos e necessitados da graça especial de Deus — o amor, a
sabedoria e o poder de Deus — por intermédio dos quais Ele nos salva. O
resultado da idéia de Jerônimo seria que a graça de Deus é necessária para
salvar-nos da lei cerimonial, mas não da lei moral. Todavia, nós não podemos
observar a lei moral à parte da graça divina. Você pode intimidar as pessoas
para que observem as cerimônias, mas nenhum poder humano pode forçá-las a
guardar a lei moral. Paulo estava argumentando que não podemos ser justificados
diante de Deus mediante a tentativa de guardar a lei moral, ou mesmo a lei
cerimonial. Comer e beber, e fazer outras coisas semelhantes, em si mesmos, nem
nos justifica nem nos condena.
Irei ainda mais longe,
afirmando que Paulo queria dizer que a totalidade da lei, e não alguma porção
particular dela, é obrigatória a todos homens. Se a lei não se aplicasse mais
aos homens devido a morte de Cristo, tudo quanto Paulo precisava dizer era isto
e nada mais. Em Gaiatas 3.10, Paulo escreveu: "Todos quantos, pois, são
das obras da lei, estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo
aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para
praticá-las". Nesse texto, Paulo busca apoio em Moisés para afirmar que a
lei é imposta sobre todos os homens, e que o fracasso na obediência à lei
sujeita todos os homens à maldição divina.
Nem os homens que
procuram obedecer a lei, nem aqueles que não tentam guardá-la estão
justificados diante do Senhor, porquanto todos estão espiritualmente mortos. O
ensinamento de Paulo é que há duas classes de pessoas no mundo — aquelas que
estão espiritualmente vivas e aquelas que não estão. Isso está em harmonia com
o ensinamento de Jesus Cristo em João 3.6: "O que é nascido da carne, é
carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Para as pessoas que não
possuem o Espírito Santo, a lei é sem utilidade. Não importa quanto procurem
guardar a lei, não serão justificadas exceto pela fé.
Finalmente, portanto, se
existe tal coisa como o "livre--arbítrio", deve ser a mais nobre das
capacidades humanas, porque, mesmo sem o Espírito Santo, professa possibilitar
o homem a guardar a lei inteira! Entretanto, Paulo assevera que aqueles que são
das "obras da lei" não estão justificados. Isso significa que o
"livre-arbítrio", mesmo considerado por seu melhor ângulo, é incapaz
de corrigir a situação do homem diante de Deus. De fato, em Romanos 3.20, Paulo
afirma que a lei é necessária para mostrar-nos no que consiste o pecado:
".. .pela lei vem o pleno conhecimento do pecado''. Aqueles que são das
"obras da lei" não são capazes de reconhecer o que o pecado realmente
é. A lei não foi dada a fim de mostrar aos homens o que eles podem fazer, mas
para corrigir as suas idéias sobre o que é o certo e o errado aos olhos de
Deus. O "livre-arbítrio" é cego, porquanto precisa ser ensinado pela
lei. E também é impotente, pois não consegue justificar a ninguém diante de
Deus.
Argumento
4: A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o
conhecimento do pecado.
O argumento a favor do
"livre-arbítrio" é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos
capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: "Se nada
podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das
promessas?" A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que
podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz
Paulo, em Romanos 3.20: "...pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado". O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado
e ao que ele nos conduz — à morte, ao inferno e à ira de Deus. A lei só pode
destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega
exclusivamente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do
evangelho. Nem a razão nem o "livre-arbítrio" podem conduzir os
homens a Cristo, visto que a razão e o "livre--arbítrio" precisam da
luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em
Gaiatas 3.19: "Qual, pois, a razão de ser da lei?" Entretanto, a
resposta de Paulo à sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo
dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do
"livre-arbítrio". Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir
o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens
precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não
pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é
necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a
fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo.
Portanto, as palavras de Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples,
mas elas têm poder suficiente para fazer com que o "livre-arbítrio"
seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7: ''.. .pois
não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás".
Isso significa que o "livre-arbítrio" nem mesmo reconhece o que o
pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe
reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo?
Argumento
5: A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o
"livre-arbítrio" é falso.
No trecho de Romanos
3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: "Mas agora, sem lei, se
manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de
Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem;
porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo
justificados gratuitamente, por sua graça, mediante o redenção que há em Cristo
Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a
fé..." Essas palavras são quais raios contra a idéia do
"livre-arbítrio". Paulo faz distinção entre a justiça conferida por
Deus e a justiça que vem mediante a observância da lei. O
"livre-arbítrio" só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser
salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra claramente
que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Sem importar o
quanto possamos imaginar um suposto "livre-arbítrio", como capaz de
praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando
que a justiça dada por Deus é de natureza inteiramente diferente. É impossível
que o "livre-arbítrio" consiga resistir a assaltos de versículos como
esses.
Esses versículos
desfecham ainda outro raio contra o "livre-arbítrio". Neles, Paulo
traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém
pode negar que o suposto poder do "livre-arbítrio" é bem diferente da
fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém
pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é
pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o
"livre-arbítrio", se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não
redunda em glória a Deus.
O trecho de Romanos 3.23
constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz que todos pecaram, exceto
aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio
"livre-arbítrio". Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos
aceitáveis diante de Deus através do "livre-arbítrio", então Paulo
seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo
afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente
glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que
Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência ensina-nos que coisa
alguma em nós agrada a Deus. Pergunte àqueles que defendem o
"livre-arbítrio" se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles
serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma.
Até mesmo aqueles que
acreditam no "livre-arbítrio" precisam concordar comigo que não podem
glorificar a Deus, contando apenas com os seus próprios recursos. A despeito do
seu "livre-arbítrio", eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim,
eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o
"livre-arbítrio" não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços
e de seu empenho, o "livre--arbítrio" é culpado do pecado de
incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é
completamente contrária a qualquer idéia de "livre-arbítrio".
Argumento
6: Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras.
Aqueles que pregam o
"livre-arbítrio" afirmam que se não há "livre-arbítrio"
então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa.
O que dirão os
defensores do "livre-arbítrio" a respeito da palavra
"gratuitamente", em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são
"justificados gratuitamente por sua graça". Como interpretam
"por sua graça"? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça
divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo
argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a
sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual
Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu
"livre-arbítrio", e tentou tornar-se justa, enquanto que a outra não
o fez. Ora, isso transforma Deus em alguém que diferencia pessoas, ao passo que
a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e
algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito
pouco através de seu "livre-arbítrio" para obterem a salvação.
Afirmam que o "livre-arbítrio" tem apenas um pouco de merecimento —
não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o
"livre-arbítrio" torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus.
Imaginam, igualmente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusivamente
a elas a culpa, se não recebem a graça divina.
Portanto, sem importar
se esse "livre-arbítrio" tem grande ou pequeno mérito, o resultado é
o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do "livre-arbítrio".
Todavia, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos
justificados "gratuitamente". Aqueles que dizem que o
"livre-arbítrio" possui apenas um pequeno mérito erram tanto como
aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o
"livre-arbítrio" tem mérito suficiente para obter o favor de Deus.
Portanto, em quase coisa alguma diferem um do outro.
Na verdade esses
defensores da idéia do "livre--arbítrio" nos dão um perfeito exemplo
do que significa "saltar da frigideira para dentro do fogo". Quando
eles dizem que o "livre-arbítrio" tem apenas um pequeno mérito, eles
pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que
o "livre-arbítrio" envolve um grande mérito (os chamados
"pelagianos") conferem um elevado preço à graça divina, porquanto
concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação.
Todavia, Erasmo barateia a graça divina, podendo ser obtida por meio de um
débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas idéias usando
apenas uma palavra — "gratuitamente" (Rm 3.24). Mais adiante, em
Romanos 11.6, ele assevera que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas
da graça de Deus: "E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário,
a graça já não é graça". O ensino paulino é perfeitamente claro. Não
existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse
mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo
através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do "livre-arbítrio",
estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós
mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteiramente
da graça divina.
Argumento
7: O "livre-arbítrio" não tem valor porque as obras nada têm a ver com
a justiça do homem diante de Deus.
Passarei agora a
considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2,3: "Porque se Abraão foi
justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois,
que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para
justiça". Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto
em questão é que essa justiça não lhe outorgou a salvação. Ninguém discorda que
as obras más não são aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino,
entretanto, é que nem mesmo as boas obras nos tornam aceitáveis diante de
Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5,
Paulo contrasta a pessoa "que trabalha" com aquela que "não
trabalha". A justificação, que eqüivale a aceitação diante de Deus, não é
atribuída "àquele que trabalha", mas àquele que "não trabalha"
mas crê no Senhor. Não há posição intermediária.
Argumento
8: Um punhado de refutações.
Preciso mencionar, de
passagem, mais alguns argumentos contra o "livre-arbítrio". Mas me
referirei a eles apenas de modo breve, embora cada um deles, de per si, pudesse
destruir completamente a idéia do "livre-arbítrio".
Por exemplo, a
fonte da graça mediante a qual somos salvos é o propósito eterno de Deus. Isso
sem dúvida anula a sugestão de que Deus é gracioso para conosco por causa de
alguma coisa que possamos fazer.
Um outro argumento
alicerça-se sobre o fato que Deus prometeu a salvação por meio da graça (a
Abraão), antes mesmo do Senhor haver dado a lei. Paulo argumenta, em Romanos
4.13-15 e Gaiatas 3.15-21, que se somos salvos mediante a observância da lei,
através do "livre-arbítrio", isso significaria que a promessa da
salvação pela graça foi cancelada. E a fé, igualmente, perderia o seu valor.
Paulo também nos diz que
a lei pode apenas revelar o pecado, sendo incapaz de removê-lo. Visto que o
"livre--arbítrio" só pode operar com base na observância da lei, não
pode haver retidão aceitável diante de Deus obtida pelo
"livre-arbítrio".
Em último lugar, estamos
todos debaixo da condenação divina, em face da pecaminosa desobediência de
Adão. Estamos todos sujeitos a essa condenação, desde nosso nascimento,
incluindo aqueles que são possuidores do "livre-arbítrio" — se
pessoas assim existem! De que outra forma então poderia o "livre-
arbítrio" nos ajudar, senão a pecar e a merecer a condenação?
Eu poderia ter deixado
de lado esses argumentos, apresentando tão-somente um comentário geral sobre os
escritos de Paulo. Todavia, quis demonstrar quão ignorantes mentalmente são
os meus oponentes, por deixarem de perceber com clareza essas simples
questões. Deixo que meditem sozinhos a respeito desses argumentos.
Argumento
9: Paulo é absolutamente claro ao refutar o "livre-arbítrio".
Os argumentos usados por
Paulo são tão claros que é de admirar que alguém possa compreendê-los mal. Diz
ele: "...todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem
faça o bem, não há nem um sequer..." Estou admirado do fato que
certas pessoas afirmam: "Algumas pessoas não se extraviaram, não se
fizeram inúteis, não são más e nem pecadoras. Há alguma coisa no homem que o
inclina para o bem". Ora, Paulo não fez essas declarações em apenas
algumas passagens isoladas. Algumas vezes ele as fez em termos positivos, em
outras vezes, em termos negativos, usando palavras diretas ou utilizando
contrastes. O sentido literal de suas palavras, todo o contexto e o escopo
inteiro de seu argumento afunila-se neste pensamento: à parte da fé em Cristo
nada existe senão pecado e condenação. Meus oponentes estão derrotados, ainda
que não queiram se render! Porém, não está ao meu alcance convencê-los disso.
Deixo isso à operação do Espírito Santo.
Argumento
10: O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o
"livre-arbítrio" nada pode fazer de natureza espiritual.
No trecho de Romanos
8.5, Paulo divide a humanidade em duas categorias — aqueles que são da
"carne" (ou da natureza pecaminosa) e aqueles que são do
"Espírito" (ver também João 3.6). Isso só pode significar que aqueles
que não têm o Espírito estão na carne e continuam presos à uma natureza
pecaminosa. Paulo insiste que "...se alguém não tem o Espírito de Cristo,
esse tal não é dEle" (Rm 8.9). Isso significa, obviamente, que aqueles que
estão sem o Espírito pertencem a Satanás. O "livre-arbítrio" não os
tem beneficiado muito! Paulo afirma que "...os que estão na carne não
podem agradar a Deus" (Rm 8.8). Ele diz que "...o pendor da carne é
inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode
estar" (Rm 8.7). É impossível que tais pessoas possam fazer qualquer
esforço, por conta própria, para agradar a Deus.
Um homem de nome
Orígenes sugeriu que cada pessoa tem uma "alma" dotada da capacidade
de voltar-se para a "carne" ou para o "Espírito". Mas isso
é apenas produto de sua imaginação. Ele sonhou com tal idéia! Ele não tinha
qualquer prova para o que afirmava. Na verdade, não há posição intermediária.
Tudo que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são
hostis a Deus. Trata-se do mesmo ensinamento ministrado por Cristo, em Mateus
7.18, de que uma árvore má não pode produzir bom fruto. E também está em
harmonia com a dupla declaração de Paulo — "O justo viverá por fé"
(Rm 1.17), e "tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm
14.23). Aqueles que não têm fé não estão justificados; e aqueles que não estão
justificados são pecadores, nos quais qualquer suposto
"livre-arbítrio" só pode produzir o mal. Portanto, o
"livre--arbítrio" nada é senão um escravo do pecado, da morte e de
Satanás. Tal "liberdade", enfim, não é liberdade alguma.
Argumento
11: Aqueles que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre
Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo.
Em Romanos 10.20, Paulo
cita de Isaías 65.1: "Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui
achado daqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome
eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui". Paulo reconhecia, por sua própria
experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua
furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,31, que os judeus, que
envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses
esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da
misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do
"livre--arbítrio" do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo
dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios
receberam a salvação. A graça é gratuitamente ofertada a quem não a merece,
nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo
dentre os homens tenha tentado empreender.
Argumento
12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente
mediante a fé.
Voltemo-nos agora para
João, que também escreveu com eloqüência contra o "livre-arbítrio".
Diz ele, em João 1.5: "A luz resplandece nas trevas, e as trevas não
prevaleceram contra ela". E, em João 1.10,11: "Estava no mundo, o
mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o
que era seu, e os seus não o receberam". Por "mundo", João dá a
entender a humanidade inteira. Visto que o "livre-arbítrio" seria
umas das mais excelentes faculdades do homem, deve ser incluído em qualquer
coisa em que João diz acerca do "mundo". Por conseguinte, de acordo
com esses textos, o "livre-arbítrio" não reconhece a luz da verdade,
mas antes, odeia a Cristo e ao seu povo. Muitas outras passagens, como João
7.7; 8.23; 14.7; 15.19; e 1 João 2.16; 5.19, proclamam que o "mundo"
(o que inclui, especialmente, o "livre-arbítrio") está debaixo do
controle de Satanás.
O "mundo"
inclui tudo quanto não foi separado para Deus por meio do Espírito Santo. Ora,
se tivesse havido alguém neste mundo que, por meio de seu
"livre-arbítrio", tivesse chegado a conhecer a verdade e que, por
intermédio do "livre-arbítrio", não tivesse odiado a Cristo, então
João teria alterado o que escreveu. Entretanto, ele não o fez. Torna-se
evidente, portanto, que o "livre-arbítrio" é tão culpado quanto o
"mundo". Em João 1.12,13, o mesmo apóstolo prossegue: "Mas, a
todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a
saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da
vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". As palavras
"não nasceram do sangue" significam que é inútil alguém depender de
sua origem familiar ou do local do seu nascimento. As palavras "nem da
vontade da carne" apontam para a insensatez de se depender das obras da
lei. E as palavras "nem da vontade do homem" mostram que nenhum
esforço humano pode conseguir tornar alguém aceitável a Deus.
Se é que o
"livre-arbítrio" tem alguma utilidade, então João não deveria ter
rejeitado a "vontade do homem", porquanto, de outro modo, estaria em
perigo conforme Isaías 5.20: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem,
mal". Não há margem para dúvida de que a origem familiar é inútil para que
alguém, através dela, venha a obter a salvação, porque em Romanos 9.8 Paulo
escreve: "Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne,
mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa".
Além disso, João também
afirma, em João 1.16: "Porque todos nós temos recebido da sua plenitude,
e graça sobre graça". Isso posto, recebemos bênçãos espirituais exclusivamente
através da graça derivada de Outrem, e não através de nossos próprios esforços.
Duas idéias contrárias não podem ser ambas verdadeiras. É impossível que a
graça divina seja tão sem valor que qualquer um, em qualquer lugar, seja capaz
de obtê-la, ao mesmo tempo que essa graça é tão valiosa que só podemos
recebê-la através dos méritos de um único homem, Jesus Cristo.
Como eu gostaria que os
meus opositores percebessem que quando advogam a causa do
"livre-arbítrio", estão negando a Cristo. Se podemos obter graça divina
mediante o nosso "livre-arbítrio", então não temos necessidade de
Cristo. E, se temos a Cristo, não precisamos do "livre--arbítrio".
Aqueles que defendem o "livre-arbítrio" atestam sua negação a Cristo
por meio de suas ações, porquanto alguns deles chegam ao extremo de apelar para
a intercessão de Maria e de "santos", não dependendo de Cristo como o
único mediador entre Deus e o homem. Todos esses têm abandonado a Cristo em sua
obra como mediador e gracioso salvador, considerando os méritos de Cristo de
menor valor do que seus próprios esforços.
Argumento
13: O caso de Nicodemos, no terceiro capítulo de João, opõe-se ao
"livre-arbítrio".
Consideremos as virtudes
de Nicodemos (Jo 3.1,2). Ele confessa que Cristo era idôneo e que viera da
parte de Deus. Faz alusão aos milagres realizados por Cristo e procura-O a fim
de ouvir algo de sua própria boca. Porém, ao ouvir falar sobre o novo
nascimento (Jo 3.3-8), porventura Nicodemos admite que era isso o que ele
vinha buscando? Não! Ele ficou atônito e confuso, repelindo a idéia, a
princípio, como uma impossibilidade (Jo 3.9). Porventura os maiores filósofos
chegaram a mencionar o novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar por
aquelas realidades pertencentes à salvação antes da chegada do evangelho. Ora,
quando admitem isso, estão admitindo que o seu "livre-arbítrio" é
ignorante e incapaz! Por certo, aqueles que ensinam o
"livre-arbítrio" estão loucos; porém não se calarão nem darão glórias
a Deus.
Argumento
14: O "livre-arbítrio" não tem utilidade, pois a salvação vem somente
por meio de Cristo.
Torna-se claro, em João
14.6, onde se lê que Jesus Cristo é o "caminho, e a verdade, e a
vida", que a salvação só pode ser encontrada em sua pessoa. Sendo essa a
verdade, tudo quanto está fora de Cristo só pode ser trevas, falsidade e morte.
Qual necessidade haveria da vinda de Cristo a este mundo, se os homens,
naturalmente, pudessem compreender o caminho de Deus, entender a verdade de
Deus e compartilhar da vida de Deus?
Nossos opositores dizem
que os homens perversos possuem "livre-arbítrio", embora abusem dele.
Se isso fosse realmente assim, então haveria algo de bom no pior dos homens. E
se isso fosse realmente verdade, então Deus seria injusto ao condená-los.
Entretanto, João diz que aqueles que não crêem em Jesus Cristo já estão
condenados (Jo 3.18). Todavia, se os homens fossem possuidores dessa coisa boa
chamada "livre-arbítrio", então João deveria ter dito que os homens
só estão condenados por causa de sua parte má, e não devido àquela boa parte
neles existente. As Escrituras dizem: "...o que, todavia, se mantém
rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de
Deus" (Jo 3.36). Sem dúvida está em pauta todo o homem. Pois, se assim não
fosse, então haveria uma parte no homem capaz de impedi-lo de ser condenado, e
ele poderia continuar pecando sem o menor temor, firmado no conhecimento que
não poderia ser condenado.
Também lemos em João
3.27 que "o homem não pode receber cousa alguma se do céu não lhe for
dada". Isso refere-se especialmente a capacidade da pessoa cumprir a
vontade de Deus. Somente aquilo que vem do alto pode ajudar um homem a cumprir
a vontade do Senhor. Mas o "livre--arbítrio" não vem do alto, o que
significa que o "livre-arbítrio" é inútil.
Em João 3.31, diz ainda
o mesmo apóstolo: ".. .quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem
veio do céu está acima de todos". Ora, por certo o
"livre-arbítrio" não tem origem celestial. Pertence à terra, não lhe
havendo outra possibilidade. E, assim sendo, isso só pode significar que o
"livre-arbítrio" nada tem a ver com as realidades celestiais; cogita
somente das coisas terrenas. O Senhor Jesus afirma, em João 8.23: "Vós
sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não
sou". Se essa afirmativa de Jesus quisesse dizer apenas que os corpos de
seus ouvintes eram terrenos, tal declaração seria desnecessária, pois eles já
sabiam disso. O que Jesus quis dizer é que aos seus ouvintes faltava, de modo
absoluto, qualquer poder espiritual, e que este só poderia ser recebido de
Deus.
Argumento
15: O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não
podem salvá-lo.
Na passagem de João
6.44, Jesus Cristo diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não
o trouxer". Isso não deixa qualquer espaço para o
"livre-arbítrio". E o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é
trazido pelo Pai: "Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e
aprendido, esse vem a mim" (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é
incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A
própria mensagem do evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale
ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro
desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este
lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao
chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom
de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que
Ele opere em seus corações.
De fato, sem a operação
interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que
a segui-Lo. Entretanto, quando o Pai mostra aos homens quão maravilhoso é seu
Filho, àqueles a quem tem dado entendimento espiritual, eles são atraídos a
Cristo. Essas pessoas já são "ovelhas" e conhecem a voz do pastor!
Argumento
16: A incredulidade universal prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em João 16.8, Jesus
afirma que o Espírito Santo viria "para convencer o mundo do
pecado..." E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no
fato que os homens "não crêem em mim''. Ora, esse pecado de incredulidade
não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens,
sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto
ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa lhes ser
revelada pelo Espírito Santo. Portanto, tudo quanto existe no homem, incluindo
o "livre-arbítrio", está condenado aos olhos de Deus, contribuindo
apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não
a revelar. A totalidade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de
salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de
Satanás, do pecado, da morte e da ira divina. Somente Cristo pode resgatar os
homens do reino de Satanás. Não somos libertos por qualquer poder que em nós
mesmos exista, mas tão-somente pela graça de Deus.
Argumento
17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade
do "livre-arbítrio".
Por alguma razão,
Erasmo, você ignorou os meus argumentos baseados em Romanos 7 e em Gaiatas 5.
Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força
da "carne" é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que
devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são
dotadas do Espírito de
Deus, não somente falham
em fazer o que é direito, como até mesmo lutam contra isso. Portanto, que
possibilidade há de que aqueles que são destituídos do novo nascimento venham a
praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8.7: " ...o pendor da carne
é inimizade contra Deus". Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de
derrubar por terra esse argumento!
Argumento
18: Saber que a salvação não depende do "livre-arbítrio" pode ser
muito reconfortante.
Confesso que eu não
gostaria de possuir "livre-arbítrio" ainda que o mesmo me fosse
concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria
enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os
quais teria de lutar. Porém, mesmo que não houvesse inimigos a combater, eu
jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de
haver agradado a Deus, ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria
fazer. Posso provar isso mediante a minha própria dolorosa experiência de
muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas. Ele
será fiel à sua promessa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas de
conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que
o meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do
"livre-arbítrio", ninguém poderá ser salvo. Mas, por meio da
"livre graça", muitos serão salvos. E não somente isso, mas também
alegro--me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por causa daquilo
que faço, mas por causa de sua graça. Se trabalho muito pouco ou errado
demais, graciosamente Ele me perdoará e me fará melhorar. Essa é a glória de
todo cristão.
Argumento
19: A honra de Deus não pode ser maculada.
Talvez alguém fique
preocupado, pensando que é difícil defender a honra de Deus em meio a tudo
isso. E talvez diga: "Afinal de contas, Deus condena aqueles que não podem
evitar de ser pecaminosos, e que são forçados a permanecer dessa maneira
porque Ele não os escolheu para a salvação". Como Paulo diz:
"...éramos por natureza filhos da ira, como também os demais" (Ef
2.3). Porém, você poderá ver essas questões por um outro ângulo. Deus deveria
ser reverenciado e respeitado por ser misericordioso para todos quantos Ele
justifica e salva, embora sejam totalmente indignos. Sabemos que Deus é divino.
Ele também é sábio e justo. A sua justiça não é da mesma categoria que a justiça
humana. Ela está acima de nosso poder de apreensão plena, conforme Paulo
exclama, em Romanos 11.33: "Ó profundidade da riqueza, tanto da
sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e
quão inescrutáveis os seus caminhos!" Se concordamos que a natureza, o
poder, a sabedoria e o conhecimento de Deus estão muito acima dos nossos, então
também deveríamos acreditar que a sua justiça é maior e melhor do que a nossa.
Ele nos fez a promessa de que quando chegar a revelar para nós a sua glória,
então veremos claramente aquilo no que agora devemos acreditar — que Ele é
justo, sempre o foi e sempre o será.
Eis um outro exemplo. Se
você usar da razão humana para considerar a maneira como Deus governa os
acontecimentos do mundo, será forçado a dizer ou que Deus não existe, ou que
Deus é injusto. Os ímpios prosperam e os piedosos sofrem (Jó 12.6 e SI 73.12),
e isso parece ser injusto. Por esse motivo, muitos homens negam a existência
de Deus e dizem que as coisas acontecem impelidas pelo acaso. A resposta que
damos a essa questão é que há uma vida após a vida presente, e que tudo quanto
não tiver sido castigado e corrigido nesta vida, será castigado e corrigido na
vida futura. A vida terrena nada mais é que uma preparação para ou o começo da
vida que virá. Esse problema tem sido debatido por toda a História, mas a
solução não tem sido encontrada, exceto pela crença no evangelho, conforme ele
se acha nas páginas da Bíblia. Três raios de luz brilham sobre essa questão: o
raio da natureza, o da graça divina e o da glória celestial. Mediante o raio de
luz da natureza, Deus parece ser injusto, porquanto os piedosos sofrem e os
ímpios prosperam. O raio de luz da graça divina ajuda-nos a compreender melhor
as coisas, embora ainda não explique como Deus pode condenar alguém que, por
suas próprias forças, nada pode fazer senão pecar e ser culpado. Somente o raio
de luz da glória celeste explicará isso plenamente, naquele dia vindouro,
quando Deus revelar a Si mesmo como inteiramente justo, embora os seus juízos
ultrapassem a nossa limitada compreensão de seres humanos. Um homem piedoso
crê que Deus conhece de antemão e preordena todas as coisas, e que nada
acontece senão pela sua soberana vontade. Nenhum homem, ou anjo, ou qualquer
outra criatura, em vista desses fatos, é dotado de "livre-arbítrio".
Satanás é o príncipe deste mundo e conserva cativos a todos os homens, a menos
que eles sejam libertos pelo poder do Espírito Santo.
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